Terça-feira, Maio 13, 2008
Segunda-feira, Maio 05, 2008
o elogio da mestiçagem
"carta capital" 494, de 7 de maio de 2008.
O elogio da mestiçagem
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
É difícil atravessar em paz as 440 páginas de A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (Editora 34, 54 reais), do sociólogo, ensaísta e poeta baiano Antonio Risério. Ele elabora uma crítica minuciosa às mazelas da realidade racial no País, sem nunca tergiversar sobre mitos de "democracia racial" e que tais. Por outro lado, rejeita qualquer postura paternalista e estende a ira crítica a movimentos negros, inclusive setores acadêmicos que classifica como "racialistas".
Esses últimos o autor parece definir como inimigos preferenciais, que acusa de pretenderem importar para o Brasil estratégias racistas como a one drop rule, a regra da descendência, pela qual qualquer indivíduo com um mínimo de "sangue negro" é automaticamente classificado como negro. Argumenta que o sistema birracial, em preto-e-branco, não serve ao Brasil, onde a mestiçagem é prova dos nove, em graus os mais variados.
Risério critica a formulação que "vê a mestiçagem como embranquecimento dos pretos, mas nunca como escurecimento dos brancos". O alvo, que mira e acerta repetidas vezes, é "a polarização, o dualismo tão característico do pensamento puritano, com seu horror a misturas". Assim, ironiza, por exemplo, a resistência branca à incorporação do espiritismo à macumba, rumo à criação da umbanda. Não se tratava de mera dominação de um grupo sobre o outro, mas de "mestiçagem" em mão dupla, afirma.
Esta é a fórmula que aplica à análise de cada aspecto da vertiginosa mistura, da hibridez de gêneros musicais como o samba ao sincretismo religioso. Sucumbe, no entanto, ao enfocar a peleja entre o candomblé e as religiões evangélicas, que prefere compreender nos moldes binários do ataque dizimador do diabo (evangélico) às tradições trazidas da África.
Mais específico e menos abrangente nesse campo é Hibridismos Musicais de Chico Science & Nação Zumbi (Ateliê Editorial, 242 págs., 33 reais), do professor de comunicação e semiótica Herom Vargas, que se revela como a exemplificação, num caso prático, do elogio à mestiçagem construída por estudos como o de Risério.
O autor disseca o movimento pop pernambucano mangue bit, liderado nos anos 90 por Chico Science (1966-1997), com a Nação Zumbi, banda de rock, maracatu, rap, coco, eletrônica e (alguma) militância política e social. Ele parte da metáfora do ecossistema mangue, "rio de água salobtra" (nos dizeres do manifesto mangue bit), utilizada por Science e parceiros para tematizar um ambiente de trocas intensas de "matéria orgânica", contrário a qualquer idéia de "pureza" da cultura.
Vargas esmiúça a fertilidade, a riqueza e a diversidade inerentes ao mangue, ao mangue bit ou ao Brasil essencialmente mestiço. Como em Risério, o objetivo último é rechaçar e desmontar cacoetes bipolares como aqueles que nos dividem em "modernos" e "tradicionais", "nacionais" e "estrangeiros", "brancos" e "pretos", e assim por diante.
O elogio da mestiçagem
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
É difícil atravessar em paz as 440 páginas de A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (Editora 34, 54 reais), do sociólogo, ensaísta e poeta baiano Antonio Risério. Ele elabora uma crítica minuciosa às mazelas da realidade racial no País, sem nunca tergiversar sobre mitos de "democracia racial" e que tais. Por outro lado, rejeita qualquer postura paternalista e estende a ira crítica a movimentos negros, inclusive setores acadêmicos que classifica como "racialistas".
Esses últimos o autor parece definir como inimigos preferenciais, que acusa de pretenderem importar para o Brasil estratégias racistas como a one drop rule, a regra da descendência, pela qual qualquer indivíduo com um mínimo de "sangue negro" é automaticamente classificado como negro. Argumenta que o sistema birracial, em preto-e-branco, não serve ao Brasil, onde a mestiçagem é prova dos nove, em graus os mais variados.
Risério critica a formulação que "vê a mestiçagem como embranquecimento dos pretos, mas nunca como escurecimento dos brancos". O alvo, que mira e acerta repetidas vezes, é "a polarização, o dualismo tão característico do pensamento puritano, com seu horror a misturas". Assim, ironiza, por exemplo, a resistência branca à incorporação do espiritismo à macumba, rumo à criação da umbanda. Não se tratava de mera dominação de um grupo sobre o outro, mas de "mestiçagem" em mão dupla, afirma.
Esta é a fórmula que aplica à análise de cada aspecto da vertiginosa mistura, da hibridez de gêneros musicais como o samba ao sincretismo religioso. Sucumbe, no entanto, ao enfocar a peleja entre o candomblé e as religiões evangélicas, que prefere compreender nos moldes binários do ataque dizimador do diabo (evangélico) às tradições trazidas da África.
Mais específico e menos abrangente nesse campo é Hibridismos Musicais de Chico Science & Nação Zumbi (Ateliê Editorial, 242 págs., 33 reais), do professor de comunicação e semiótica Herom Vargas, que se revela como a exemplificação, num caso prático, do elogio à mestiçagem construída por estudos como o de Risério.
O autor disseca o movimento pop pernambucano mangue bit, liderado nos anos 90 por Chico Science (1966-1997), com a Nação Zumbi, banda de rock, maracatu, rap, coco, eletrônica e (alguma) militância política e social. Ele parte da metáfora do ecossistema mangue, "rio de água salobtra" (nos dizeres do manifesto mangue bit), utilizada por Science e parceiros para tematizar um ambiente de trocas intensas de "matéria orgânica", contrário a qualquer idéia de "pureza" da cultura.
Vargas esmiúça a fertilidade, a riqueza e a diversidade inerentes ao mangue, ao mangue bit ou ao Brasil essencialmente mestiço. Como em Risério, o objetivo último é rechaçar e desmontar cacoetes bipolares como aqueles que nos dividem em "modernos" e "tradicionais", "nacionais" e "estrangeiros", "brancos" e "pretos", e assim por diante.
Quinta-feira, Abril 24, 2008
canecão, confusão
da carta capital 488, de 26 de março de 2008. são deslumbrantes as fotos históricas do canecão que acompanharam a reportagem, com "monstros sagrados" (não é curioso, intrigante, esse termo-clichê?) do quilate de chico buarque, caetano veloso, milton nascimento, roberto carlos - mas essas, só mesmo na revista de papel...
CANECÃO, CONFUSÃO
A mais tradicional casa de shows do Brasil sofre processos e denúncias de estelionato, fraude e sonegação
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
No passado, a casa carioca de espetáculos Canecão se firmou como o espaço mais tradicional da música brasileira, ao abrigar momentos históricos como um show consagrador de Maysa, em 1969, o encontro entre Chico Buarque, a Orquestra Sinfônica Brasileira e a escola de samba Unidos de Padre Miguel, em 1971, ou a estréia do ex-"rei do iê-iê-iê" Roberto Carlos no circuito "adulto" de espetáculos, em 1970.
Aos 41 anos de existência, o Canecão segue em plena atividade, mas se vê em apuros com um número cada vez maior de denúncias e processos. Em julho de 2007, os proprietários Mario Hamilton Priolli e Manoel Ronald Priolli do Rego Valença foram denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) do Rio por fraude previdenciária. A dívida com o INSS seria, àquela altura, de 226 mil reais. Uma nota oficial do MPF afirmava que a casa havia cometido 22 vezes o crime de apropriação indébita de contribuições previdenciárias e fazia da sonegação forma de gestão.
Em fevereiro último, Mario Priolli foi denunciado pelo MPF por falsidade ideológica e estelionato qualificado. A casa teria utilizado uma pessoa jurídica diferente da original para garantir um patrocínio da Petrobras, cujo logotipo é exibido em letras garrafais na fachada do agora rebatizado Canecão Petrobras. "O débito do Canecão com o INSS o impede de receber qualquer incentivo de natureza pública, como o da Lei Rouanet", afirmou na ocasião o procurador da República José Maria Panoeiro. "O sócio (...) formalmente optou por usar uma empresa que não tem um único empregado, não recolhe para o INSS e tem o mesmo endereço do estabelecimento."
Conflitos mais antigos e duradouros se referem ao aluguel do terreno no bairro de Botafogo onde está instalada a casa, pertencente à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Outro processo em curso na Justiça é movido pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), sociedade civil privada que centraliza toda arrecadação e distribuição dos direitos autorais de execução pública de música no Brasil. Segundo a entidade, o Canecão acumula uma dívida de 5,8 milhões de reais em direitos não pagos.
O Ecad exerce pressão sobre o adversário, indo à Petrobras contestar o patrocínio concedido, ou afirmando à imprensa que "o Canecão utiliza estratagemas para escapar dos artistas". Esse se refere a uma situação aparentemente incoerente, de que a casa repassa aos artistas as contas devidas ao Ecad. Quando um artista que também é compositor se apresenta no Canecão, tem de pagar ao Ecad pelo direito de execução pública de suas músicas. É um dinheiro que, concluído todo o ciclo, supostamente deveria ir parar no bolso dele próprio, como autor.
"Quem tem que pagar o direito autoral é a casa. Em outros casos, a gente recebe das casas de espetáculo, não dos produtores dos artistas", afirma a superintendente do Ecad, Glória Braga. "Por um tempo, o Canecão descontou 10% dos artistas, e mesmo assim não pagava o Ecad. Nem era 10%, mas 5%", diz. Segundo ela, o valor de 5% foi estipulado em comum acordo entre o Ecad e as casas que promovem shows de forma fixa.
"Assim que assinamos o patrocínio, o Ecad nos procurou para reclamar. Disse que o Canecão é devedor deles", lembra a gerente de patrocínios da Petrobras, Eliane Costa. "A situação ficou muito desconfortável. Como o Ecad podia dizer que a empresa é inadimplente, se os músicos estavam pagando os direitos por ela?” Segundo Eliane, a Petrobras seguiu a determinação do MPF e os repasses estão por ora suspensos.
Procurado por CartaCapital, o Canecão se manifestou por intermédio de assessoria de imprensa e de advogados, sem entrevistas oficiais. Afirma que a segunda pessoa jurídica, Canecão Promoção de Eventos Ltda., é legítima e existe há 11 anos. Queixa-se que a casa não se encontra em dificuldades financeiras, mas ficará se patrocínios forem mesmo suspensos.
Diz que não reconhece a dívida reclamada pelo Ecad, que teria rompido acordos unilateralmente, e por isso passou a depositar os valores devidos em juízo. Reconhece que a situação foi regularizada em 2004, quando os artistas e seus produtores passaram a recolher diretamente para o Ecad.
Se parece irregular a transferência de responsabilidade por parte da casa, algo similar se pode concluir a respeito do escritório de arrecadação. Não seria impróprio o Ecad aceitar pagamento dos artistas, e não da casa de espetáculos? "Mas foram os próprios artistas que quiseram", justifica-se Glória. "Eles eram descontados e ninguém recebia, porque o Ecad não repassava. Num dado momento, os produtores dos artistas concluíram que era melhor pagar ao Ecad, uma máquina montada para eles, que continuar sem receber do Canecão. Se os artistas são os donos do Ecad e estão pedindo, o que é que a gente faz?"
Essa versão é confirmada pelo empresário dos Paralamas do Sucesso, José Fortes, um dos líderes da negociação em nome da Associação Brasileira dos Empresários Artísticos (Abeart). "Estava ruim a situação. Descontavam Ecad e Imposto sobre Serviços (ISS), mas não pagavam. Eu, em nome de artistas com que trabalho, estava delegando a terceiros um pagamento que não ia voltar para nós", explica. "Então fui ao Ecad e fiz o acordo: no caso do Canecão, o Ecad que brigue pela dívida já existente, mas daqui para frente será pago. Foi um acordo para apagar incêndio. Você tem que pagar para depois receber de volta."
Mas as etapas intermediárias entre o pagamento e o recebimento não consumem parte substancial do montante inicial? "É claro, porque há percentual, descontos, a parte do Ecad. Mas isso não tem jeito, é parte do negócio que é o Ecad, que é um representante dos autores." Segundo a entidade, 75% do recolhido chegarão de fato aos autores (divididos entre os parceiros, se houver co-autoria). A entidade embolsa para si 18%. Editoras musicais e sociedades de autores também abocanham fatias.
Embora muitos artistas se queixem do funcionamento do Ecad como se ele fosse um órgão da burocracia estatal, o argumento de Fortes tira os músicos e autores da posição possível de vítimas, e chama atenção para o fato de que são eles próprios os reais gestores do estado de coisas.
Mais além vai outro empresário, Airton Valadão Jr., que agencia shows de artistas como Arnaldo Antunes, Daniela Mercury, Guilherme Arantes, Lobão, Maria Rita e Pato Fu: "Quem tem que pagar ao Ecad é o promotor do show. No meu caso, sou sócio do evento. Se tenho 50% da bilheteria, não é injusto pagar".
Valadão destaca papéis positivos de uma casa de shows: "É ela que divulga e põe o artista na mídia, investe em tevê, rádio, jornal. E arca com custos de som, luz, seguro, segurança. Fizemos um show do Palavra Cantada, o Canecão bancou ônibus e hotel. Rachamos as despesas, foi legal". Ele demonstra que o caso do Canecão não é isolado: "Todos os Sescs, por exemplo, exigem que entreguemos a guia do Ecad quitada".
E onde se coloca o artista nesse xadrez? "Ele também é nosso sócio. A grande maioria pede para a gente zelar pelo Ecad", diz Valadão. Segundo ele, a divisão do bolo arrecadado num show costuma ser de 80% para o artista, 20% para o produtor. "Se Maria Bethânia interpreta músicas de outros autores, é justo que ela participe do pagamento a eles", acrescenta.
"Não há nenhum problema em os artistas fazerem o recolhimento", opina Marilene Gondim, empresária de Milton Nascimento e Ana Carolina. "A relação dos artistas com as casas de espetáculo em geral não é de venda de shows. É uma parceria em que as duas partes são co-produtoras. Portanto, qualquer um pode se obrigar a recolher os rendimentos devidos. Se o Canecão ou outras casas inadimplentes fazem a retenção, o dinheiro fica preso à decisão final da ação, que sabe-se lá Deus quando acontecerá."
Se isso vale para artistas com décadas de estrada, pode não ser bem assim para aqueles que, em etapas anteriores na conquista por espaço, almejem ocupar um espaço como o Canecão. "É importante ressaltar que fazemos muitos shows por iniciativa nossa. Ou seja, reservamos os espaços e assumimos todos os custos e riscos", diz a empresária do cantor e compositor Zeca Baleiro, Rossana Decelso, ela também artista. "A verdade é que, para trabalhar, a gente acaba, sim, por fazer acordos esdrúxulos, desde que não sejam ilegais. No caso do Canecão, talvez a casa mais importante da história do show biz brasileiro, a gente prefere negociar que não fazer o show", completa.
Irregularidades, desorganização e possíveis abusos de autoridade parecem espelhar de forma aguda, tanto quanto as glórias históricas, os muitos dilemas hoje enfrentados pela cadeia produtiva da música como um todo, dos promotores e artistas aos patrocinadores e espectadores.
Em março de 2008, o concurso de Miss Rio de Janeiro dividia o espaço do Canecão com shows como o de Maria Bethânia e Omara Portuondo. Leilões de cavalos se tornaram habituais em grandes espaços como o Canecão (ou o Citibank Hall de São Paulo, ex-Palace). São cenas que hoje compõem a galeria histórica da casa, lado a lado com as peças de teatro de revista de Carlos Machado, que deram partida à história da então cervejaria, em 1967, os shows internacionais de Amália Rodrigues, James Brown, Miles Davis, bailes carnavalescos ou flagrantes como a exposição de Elis Regina, grávida, no palco. E o show continua.
CANECÃO, CONFUSÃO
A mais tradicional casa de shows do Brasil sofre processos e denúncias de estelionato, fraude e sonegação
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
No passado, a casa carioca de espetáculos Canecão se firmou como o espaço mais tradicional da música brasileira, ao abrigar momentos históricos como um show consagrador de Maysa, em 1969, o encontro entre Chico Buarque, a Orquestra Sinfônica Brasileira e a escola de samba Unidos de Padre Miguel, em 1971, ou a estréia do ex-"rei do iê-iê-iê" Roberto Carlos no circuito "adulto" de espetáculos, em 1970.
Aos 41 anos de existência, o Canecão segue em plena atividade, mas se vê em apuros com um número cada vez maior de denúncias e processos. Em julho de 2007, os proprietários Mario Hamilton Priolli e Manoel Ronald Priolli do Rego Valença foram denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) do Rio por fraude previdenciária. A dívida com o INSS seria, àquela altura, de 226 mil reais. Uma nota oficial do MPF afirmava que a casa havia cometido 22 vezes o crime de apropriação indébita de contribuições previdenciárias e fazia da sonegação forma de gestão.
Em fevereiro último, Mario Priolli foi denunciado pelo MPF por falsidade ideológica e estelionato qualificado. A casa teria utilizado uma pessoa jurídica diferente da original para garantir um patrocínio da Petrobras, cujo logotipo é exibido em letras garrafais na fachada do agora rebatizado Canecão Petrobras. "O débito do Canecão com o INSS o impede de receber qualquer incentivo de natureza pública, como o da Lei Rouanet", afirmou na ocasião o procurador da República José Maria Panoeiro. "O sócio (...) formalmente optou por usar uma empresa que não tem um único empregado, não recolhe para o INSS e tem o mesmo endereço do estabelecimento."
Conflitos mais antigos e duradouros se referem ao aluguel do terreno no bairro de Botafogo onde está instalada a casa, pertencente à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Outro processo em curso na Justiça é movido pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), sociedade civil privada que centraliza toda arrecadação e distribuição dos direitos autorais de execução pública de música no Brasil. Segundo a entidade, o Canecão acumula uma dívida de 5,8 milhões de reais em direitos não pagos.
O Ecad exerce pressão sobre o adversário, indo à Petrobras contestar o patrocínio concedido, ou afirmando à imprensa que "o Canecão utiliza estratagemas para escapar dos artistas". Esse se refere a uma situação aparentemente incoerente, de que a casa repassa aos artistas as contas devidas ao Ecad. Quando um artista que também é compositor se apresenta no Canecão, tem de pagar ao Ecad pelo direito de execução pública de suas músicas. É um dinheiro que, concluído todo o ciclo, supostamente deveria ir parar no bolso dele próprio, como autor.
"Quem tem que pagar o direito autoral é a casa. Em outros casos, a gente recebe das casas de espetáculo, não dos produtores dos artistas", afirma a superintendente do Ecad, Glória Braga. "Por um tempo, o Canecão descontou 10% dos artistas, e mesmo assim não pagava o Ecad. Nem era 10%, mas 5%", diz. Segundo ela, o valor de 5% foi estipulado em comum acordo entre o Ecad e as casas que promovem shows de forma fixa.
"Assim que assinamos o patrocínio, o Ecad nos procurou para reclamar. Disse que o Canecão é devedor deles", lembra a gerente de patrocínios da Petrobras, Eliane Costa. "A situação ficou muito desconfortável. Como o Ecad podia dizer que a empresa é inadimplente, se os músicos estavam pagando os direitos por ela?” Segundo Eliane, a Petrobras seguiu a determinação do MPF e os repasses estão por ora suspensos.
Procurado por CartaCapital, o Canecão se manifestou por intermédio de assessoria de imprensa e de advogados, sem entrevistas oficiais. Afirma que a segunda pessoa jurídica, Canecão Promoção de Eventos Ltda., é legítima e existe há 11 anos. Queixa-se que a casa não se encontra em dificuldades financeiras, mas ficará se patrocínios forem mesmo suspensos.
Diz que não reconhece a dívida reclamada pelo Ecad, que teria rompido acordos unilateralmente, e por isso passou a depositar os valores devidos em juízo. Reconhece que a situação foi regularizada em 2004, quando os artistas e seus produtores passaram a recolher diretamente para o Ecad.
Se parece irregular a transferência de responsabilidade por parte da casa, algo similar se pode concluir a respeito do escritório de arrecadação. Não seria impróprio o Ecad aceitar pagamento dos artistas, e não da casa de espetáculos? "Mas foram os próprios artistas que quiseram", justifica-se Glória. "Eles eram descontados e ninguém recebia, porque o Ecad não repassava. Num dado momento, os produtores dos artistas concluíram que era melhor pagar ao Ecad, uma máquina montada para eles, que continuar sem receber do Canecão. Se os artistas são os donos do Ecad e estão pedindo, o que é que a gente faz?"
Essa versão é confirmada pelo empresário dos Paralamas do Sucesso, José Fortes, um dos líderes da negociação em nome da Associação Brasileira dos Empresários Artísticos (Abeart). "Estava ruim a situação. Descontavam Ecad e Imposto sobre Serviços (ISS), mas não pagavam. Eu, em nome de artistas com que trabalho, estava delegando a terceiros um pagamento que não ia voltar para nós", explica. "Então fui ao Ecad e fiz o acordo: no caso do Canecão, o Ecad que brigue pela dívida já existente, mas daqui para frente será pago. Foi um acordo para apagar incêndio. Você tem que pagar para depois receber de volta."
Mas as etapas intermediárias entre o pagamento e o recebimento não consumem parte substancial do montante inicial? "É claro, porque há percentual, descontos, a parte do Ecad. Mas isso não tem jeito, é parte do negócio que é o Ecad, que é um representante dos autores." Segundo a entidade, 75% do recolhido chegarão de fato aos autores (divididos entre os parceiros, se houver co-autoria). A entidade embolsa para si 18%. Editoras musicais e sociedades de autores também abocanham fatias.
Embora muitos artistas se queixem do funcionamento do Ecad como se ele fosse um órgão da burocracia estatal, o argumento de Fortes tira os músicos e autores da posição possível de vítimas, e chama atenção para o fato de que são eles próprios os reais gestores do estado de coisas.
Mais além vai outro empresário, Airton Valadão Jr., que agencia shows de artistas como Arnaldo Antunes, Daniela Mercury, Guilherme Arantes, Lobão, Maria Rita e Pato Fu: "Quem tem que pagar ao Ecad é o promotor do show. No meu caso, sou sócio do evento. Se tenho 50% da bilheteria, não é injusto pagar".
Valadão destaca papéis positivos de uma casa de shows: "É ela que divulga e põe o artista na mídia, investe em tevê, rádio, jornal. E arca com custos de som, luz, seguro, segurança. Fizemos um show do Palavra Cantada, o Canecão bancou ônibus e hotel. Rachamos as despesas, foi legal". Ele demonstra que o caso do Canecão não é isolado: "Todos os Sescs, por exemplo, exigem que entreguemos a guia do Ecad quitada".
E onde se coloca o artista nesse xadrez? "Ele também é nosso sócio. A grande maioria pede para a gente zelar pelo Ecad", diz Valadão. Segundo ele, a divisão do bolo arrecadado num show costuma ser de 80% para o artista, 20% para o produtor. "Se Maria Bethânia interpreta músicas de outros autores, é justo que ela participe do pagamento a eles", acrescenta.
"Não há nenhum problema em os artistas fazerem o recolhimento", opina Marilene Gondim, empresária de Milton Nascimento e Ana Carolina. "A relação dos artistas com as casas de espetáculo em geral não é de venda de shows. É uma parceria em que as duas partes são co-produtoras. Portanto, qualquer um pode se obrigar a recolher os rendimentos devidos. Se o Canecão ou outras casas inadimplentes fazem a retenção, o dinheiro fica preso à decisão final da ação, que sabe-se lá Deus quando acontecerá."
Se isso vale para artistas com décadas de estrada, pode não ser bem assim para aqueles que, em etapas anteriores na conquista por espaço, almejem ocupar um espaço como o Canecão. "É importante ressaltar que fazemos muitos shows por iniciativa nossa. Ou seja, reservamos os espaços e assumimos todos os custos e riscos", diz a empresária do cantor e compositor Zeca Baleiro, Rossana Decelso, ela também artista. "A verdade é que, para trabalhar, a gente acaba, sim, por fazer acordos esdrúxulos, desde que não sejam ilegais. No caso do Canecão, talvez a casa mais importante da história do show biz brasileiro, a gente prefere negociar que não fazer o show", completa.
Irregularidades, desorganização e possíveis abusos de autoridade parecem espelhar de forma aguda, tanto quanto as glórias históricas, os muitos dilemas hoje enfrentados pela cadeia produtiva da música como um todo, dos promotores e artistas aos patrocinadores e espectadores.
Em março de 2008, o concurso de Miss Rio de Janeiro dividia o espaço do Canecão com shows como o de Maria Bethânia e Omara Portuondo. Leilões de cavalos se tornaram habituais em grandes espaços como o Canecão (ou o Citibank Hall de São Paulo, ex-Palace). São cenas que hoje compõem a galeria histórica da casa, lado a lado com as peças de teatro de revista de Carlos Machado, que deram partida à história da então cervejaria, em 1967, os shows internacionais de Amália Rodrigues, James Brown, Miles Davis, bailes carnavalescos ou flagrantes como a exposição de Elis Regina, grávida, no palco. E o show continua.
Quinta-feira, Abril 17, 2008
um treco assim
um cara chamado rodrigo ribeiro apareceu neste blog, perguntou se podia mudar de assunto, pegou o embalo e já fez um comentário na janela vermelha. pode, sim, claro que pode, rodrigo. pode tanto que comecei a responder o comentário na janela do tópico anterior, as mariposa, e quando vi já não estava mais escrevendo uma resposta-de-janela, mas sim um tópico-de-blog.
adiante, então, mudando agora uma coisinha ou outra que escrevi agora há pouco, meio tópico, meio janela.
não acho, rodrigo, que você tá "errado" ou "certo" (todas as leituras são possíveis, como nos induziria a pensar um certo ney "inclassificáveis" matogrosso), mas...
a) concordo plenamente contigo quanto ao "conteúdo a ser comentado" no "secos & molhados" de 1973. é enorme, gigantesco, e certamente rende mensagem, tópico, site, reportagem, pensamento, livro, tese, música, peça, filme, sonho...
b) discordo quanto à invisibilidade que você atribui à questão gay naquele lp. acho que nem vou me (ops!) aprofundar nos méritos do "vira, vira, vira homem, vira lobisomem" ("o vira", de joão ricardo e luli)... ou do "eu vi el rey andar de quatro/ de quatro poses atraentes" ("el rey", de gerson conrad e joão ricardo)... ou mesmo do (arrepiante) "jurei mentiras e sigo sozinho/ assumo os pecados" + "rompi tratados, traí os ritos/ quebrei a lança, lancei no espaço/ um grito, um desabafo" (de "sangue latino", de joão ricardo e paulinho mendonça). mas copio aqui com prazer e divertimento a íntegra da letra de "assim assado" (de joão ricardo), minha sempre predileta (e com grifos maldosos meus, ok?, hehehe):
"são duas horas da madrugada de um dia assim
um velho anda de terno velho assim assim
quando aparece o guarda belo
é posto em cena fazendo cena um treco assim
bem apontado ao nariz chato assim assim
quando aparece a cor do velho
mas guarda belo não acredita na cor assim
ele decide no terno velho assim assim
porque ele quer um velho assado
mas mesmo assim o velho morre assim assim
e o guarda belo é o herói assim assado
porque é preciso ser assim assado"
metáforas, imagens e viagens na maionese a valer, você pode dizer. mas nada me tira da cabeça que se trata da descrição de uma cena de sexo, seca & molhada, na borda dos limites máximos que 1973 e o general médici (não) permitiam. como já chegamos a comentar aqui (quero dizer, ali) na janela vermelha há uns tempos, parece um autêntico "george michael vai ao bosque em busca do lobo", 30 anos adiantado, não?
mas, ó, só para arrematar, e discordando agora tanto de você quanto de mim mesmo no texto da "rolling stone": tanto faz se era gay, heterossexual, bissexual ou pansexual, nem há nada aí que faça desmerecer a força poética das letras e canções (puxa vida!, "amor" e "primavera nos dentes", de joão ricardo em parceria com seu pai, joão apolinário, ou "fala", de joão ricardo e luli, ou mesmo a cafonice latejante da "rosa de hiroshima" de seu vinicius de moraes, musicada por gerson conrad...); mas o discurso pulsante e sofrido sobre a sexualidade, sobre o sexo, é que me parece, sim, a lenha mais sequinha na fogueira da caldeira da locomotiva velocísisma que é o "secos & molhados" 1973...
e era médici. e era censura & repressão. e era pau no cu (no sentido da tortura, não do prazer) dos "terroristas" de esquerda. e era pleno e atroz "reinado de terror e virtude" (como explica mui convincentemente paulo cesar de araújo em "eu não sou cachorro, não", da página 51 em diante) de uma ditadura de direita. e era mole? não era, era duro (hoje também é, mas, ainda bem, por razões diversas e inversas).
bem, agora que já tagarelei a falar, contextualizemos, que é sempre bom, gostoso e de graça. segue abaixo o texto da "rolling stone" 13, de outubro de 2007, que deu mote ao comentário do rodrigo no tópico das mariposa (obrigado, companheiro, pelo mote que agora passo adiante):
Secos e Molhados
Secos e Molhados (1973 . Continental)
Odair José conta com orgulho seu embate com um general, em 73, na tentativa de safar sua "Pare de Tomar a Pílula" da Censura. "O senhor permite o Ney Matogrosso e os Secos & Molhados fazerem uma proposta de gay num show no Maracanãzinho e não permite que eu faça uma proposta de homem?! O senhor é gay? O Exército é gay?", teria indagado, segundo relatou no livro "Eu Não Sou Cachorro, Não" (2002), de Paulo Cesar de Araújo. Era uma disputa entre semelhantes. No Brasil de 73, quase ninguém fez mais sucesso que Odair e os S&M. Em comum, ambos afrontavam os costumes de uma ditadura brava, amofinando-a no campo do comportamento, da política do corpo. Odair testava letras simples que debatiam sexo, amor livre e a estrutura de classes sociais no país. Os S&M de Ney, João Ricardo, Gerson Conrad e Marcelo Frias sugavam a poesia de Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes, mas falavam pelo corpo, por visual andrógino e (homo)sexualidade explícita – era o glam rock à brasileira [, que tinha em Maria Alcina uma explosiva versão feminina (dizia trecho original do meu texto, que sobrou na edição final porque escrevi mais do que devia)]. Rotulado de "cafona", Odair era enjeitado por nove em cada dez estrelas da MPB, uma confraria que já iniciava a trágica rota rumo a um elitismo atroz. Os S&M fundavam o "roque" dos anos 70, com toques hipnóticos de rock progressivo, mas incorporando a sigla MPB mais que a negando. Talvez Odair se sentisse enciumado do colossal poder transgressor (e comunicativo) do denso LP de estréia dos S&M, com "Sangue Latino", "O Vira" e "Assim Assado". Talvez o efêmero grupo prog-MPB também se ressentisse do imenso fogo comunicativo (e transgressor) do "cantor das empregadas" em "Deixe Essa Vergonha de Lado" [e "Eu, Você e a Praça" (dizia outro fragmento que sobrou)]. Voltando-se uns contra os outros, se neutralizavam e ajudavam o opressor. Mas, lá fora, a massa aprovava igualmente as transgressões dos "cafonas" e dos "andróginos", no apogeu do terror & tortura. A marca S&M era em si uma revolução, confirmada 30 anos depois pelos milhões de civis que marcham em paradas pacíficas de diversidade sexual. Quanto à rivalidade entre iguais de 1973, não se sabe ao certo que curso tomou. Fato é que, em 77, Odair gravou um controverso disco gay. Em 76, Ney Matogrosso lançara a romântica "Cante uma Canção de Amor", co-escrita por Odair José. PEDRO ALEXANDRE SANCHES
putz, reli só agora, depois de ter escrito as linhas gerais do que vai escrito aí acima. e não é que encontro vários pontos em comum com o que andamos discutindo atualmente ali (ou aqui) na janelinha vermelha (sobre autofagia entre semelhantes, por exemplo)? bacana, que bacana. estamos juntos, e misturados, quandionde tudo se mistura!
por fim, e da maior importância, aqui fica guardada (para todo o sempre, espero - esperamos?) a fala dele, em pessoa, sobre esses & outros assuntos.
e, para além do por-fim, abre-te sésamo para a minha fala sobre a fala dele, entre uns & outros assuntos. aliás, essa coexistência permanente entre passado, presente e futuro via internet (alô, márcia) não é mesmo uma conquista maravilhosa, nova, fresca, acachapante? índios, mulheres, ciganos, gays, negros, japonesas, velhos & crianças, todos juntos-e-fortes aqui-e-agora-mesmo, sim, senhor, seu ney (e sr. arnaldo antunes, e sr. chico science)!, e por que não?
adiante, então, mudando agora uma coisinha ou outra que escrevi agora há pouco, meio tópico, meio janela.
não acho, rodrigo, que você tá "errado" ou "certo" (todas as leituras são possíveis, como nos induziria a pensar um certo ney "inclassificáveis" matogrosso), mas...
a) concordo plenamente contigo quanto ao "conteúdo a ser comentado" no "secos & molhados" de 1973. é enorme, gigantesco, e certamente rende mensagem, tópico, site, reportagem, pensamento, livro, tese, música, peça, filme, sonho...
b) discordo quanto à invisibilidade que você atribui à questão gay naquele lp. acho que nem vou me (ops!) aprofundar nos méritos do "vira, vira, vira homem, vira lobisomem" ("o vira", de joão ricardo e luli)... ou do "eu vi el rey andar de quatro/ de quatro poses atraentes" ("el rey", de gerson conrad e joão ricardo)... ou mesmo do (arrepiante) "jurei mentiras e sigo sozinho/ assumo os pecados" + "rompi tratados, traí os ritos/ quebrei a lança, lancei no espaço/ um grito, um desabafo" (de "sangue latino", de joão ricardo e paulinho mendonça). mas copio aqui com prazer e divertimento a íntegra da letra de "assim assado" (de joão ricardo), minha sempre predileta (e com grifos maldosos meus, ok?, hehehe):
"são duas horas da madrugada de um dia assim
um velho anda de terno velho assim assim
quando aparece o guarda belo
é posto em cena fazendo cena um treco assim
bem apontado ao nariz chato assim assim
quando aparece a cor do velho
mas guarda belo não acredita na cor assim
ele decide no terno velho assim assim
porque ele quer um velho assado
mas mesmo assim o velho morre assim assim
e o guarda belo é o herói assim assado
porque é preciso ser assim assado"
metáforas, imagens e viagens na maionese a valer, você pode dizer. mas nada me tira da cabeça que se trata da descrição de uma cena de sexo, seca & molhada, na borda dos limites máximos que 1973 e o general médici (não) permitiam. como já chegamos a comentar aqui (quero dizer, ali) na janela vermelha há uns tempos, parece um autêntico "george michael vai ao bosque em busca do lobo", 30 anos adiantado, não?
mas, ó, só para arrematar, e discordando agora tanto de você quanto de mim mesmo no texto da "rolling stone": tanto faz se era gay, heterossexual, bissexual ou pansexual, nem há nada aí que faça desmerecer a força poética das letras e canções (puxa vida!, "amor" e "primavera nos dentes", de joão ricardo em parceria com seu pai, joão apolinário, ou "fala", de joão ricardo e luli, ou mesmo a cafonice latejante da "rosa de hiroshima" de seu vinicius de moraes, musicada por gerson conrad...); mas o discurso pulsante e sofrido sobre a sexualidade, sobre o sexo, é que me parece, sim, a lenha mais sequinha na fogueira da caldeira da locomotiva velocísisma que é o "secos & molhados" 1973...
e era médici. e era censura & repressão. e era pau no cu (no sentido da tortura, não do prazer) dos "terroristas" de esquerda. e era pleno e atroz "reinado de terror e virtude" (como explica mui convincentemente paulo cesar de araújo em "eu não sou cachorro, não", da página 51 em diante) de uma ditadura de direita. e era mole? não era, era duro (hoje também é, mas, ainda bem, por razões diversas e inversas).
bem, agora que já tagarelei a falar, contextualizemos, que é sempre bom, gostoso e de graça. segue abaixo o texto da "rolling stone" 13, de outubro de 2007, que deu mote ao comentário do rodrigo no tópico das mariposa (obrigado, companheiro, pelo mote que agora passo adiante):
Secos e Molhados
Secos e Molhados (1973 . Continental)
Odair José conta com orgulho seu embate com um general, em 73, na tentativa de safar sua "Pare de Tomar a Pílula" da Censura. "O senhor permite o Ney Matogrosso e os Secos & Molhados fazerem uma proposta de gay num show no Maracanãzinho e não permite que eu faça uma proposta de homem?! O senhor é gay? O Exército é gay?", teria indagado, segundo relatou no livro "Eu Não Sou Cachorro, Não" (2002), de Paulo Cesar de Araújo. Era uma disputa entre semelhantes. No Brasil de 73, quase ninguém fez mais sucesso que Odair e os S&M. Em comum, ambos afrontavam os costumes de uma ditadura brava, amofinando-a no campo do comportamento, da política do corpo. Odair testava letras simples que debatiam sexo, amor livre e a estrutura de classes sociais no país. Os S&M de Ney, João Ricardo, Gerson Conrad e Marcelo Frias sugavam a poesia de Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes, mas falavam pelo corpo, por visual andrógino e (homo)sexualidade explícita – era o glam rock à brasileira [, que tinha em Maria Alcina uma explosiva versão feminina (dizia trecho original do meu texto, que sobrou na edição final porque escrevi mais do que devia)]. Rotulado de "cafona", Odair era enjeitado por nove em cada dez estrelas da MPB, uma confraria que já iniciava a trágica rota rumo a um elitismo atroz. Os S&M fundavam o "roque" dos anos 70, com toques hipnóticos de rock progressivo, mas incorporando a sigla MPB mais que a negando. Talvez Odair se sentisse enciumado do colossal poder transgressor (e comunicativo) do denso LP de estréia dos S&M, com "Sangue Latino", "O Vira" e "Assim Assado". Talvez o efêmero grupo prog-MPB também se ressentisse do imenso fogo comunicativo (e transgressor) do "cantor das empregadas" em "Deixe Essa Vergonha de Lado" [e "Eu, Você e a Praça" (dizia outro fragmento que sobrou)]. Voltando-se uns contra os outros, se neutralizavam e ajudavam o opressor. Mas, lá fora, a massa aprovava igualmente as transgressões dos "cafonas" e dos "andróginos", no apogeu do terror & tortura. A marca S&M era em si uma revolução, confirmada 30 anos depois pelos milhões de civis que marcham em paradas pacíficas de diversidade sexual. Quanto à rivalidade entre iguais de 1973, não se sabe ao certo que curso tomou. Fato é que, em 77, Odair gravou um controverso disco gay. Em 76, Ney Matogrosso lançara a romântica "Cante uma Canção de Amor", co-escrita por Odair José. PEDRO ALEXANDRE SANCHES
putz, reli só agora, depois de ter escrito as linhas gerais do que vai escrito aí acima. e não é que encontro vários pontos em comum com o que andamos discutindo atualmente ali (ou aqui) na janelinha vermelha (sobre autofagia entre semelhantes, por exemplo)? bacana, que bacana. estamos juntos, e misturados, quandionde tudo se mistura!
por fim, e da maior importância, aqui fica guardada (para todo o sempre, espero - esperamos?) a fala dele, em pessoa, sobre esses & outros assuntos.
e, para além do por-fim, abre-te sésamo para a minha fala sobre a fala dele, entre uns & outros assuntos. aliás, essa coexistência permanente entre passado, presente e futuro via internet (alô, márcia) não é mesmo uma conquista maravilhosa, nova, fresca, acachapante? índios, mulheres, ciganos, gays, negros, japonesas, velhos & crianças, todos juntos-e-fortes aqui-e-agora-mesmo, sim, senhor, seu ney (e sr. arnaldo antunes, e sr. chico science)!, e por que não?
Quarta-feira, Abril 09, 2008
as mariposa
há muito tempo eu (não) vivi calado, mas agora resolvi falar (de novo).
lá vem mais um show de roberto carlos, e lá vem nova leva de reportagens sobre o cara, a árdua busca por novidade onde novidade não há, nem pretende haver. do final de 2007 para cá, os textos dos colegas jornalistas têm repetido, um atrás do outro, que "nunca antes na história deste país roberto carlos havia deixado de lançar um disco no natal", ou "um disco com músicas inéditas", ou (pequenas) variações sobre esse mesmo, mesmíssimo tema.
mas... mas... mas... de onde tiraram essa originalíssima (e equivocadíssima) informação, a ponto de enfim roubarem dela a originalidade, à custa de incessante e estrondosa repetição de erro, em efeito-manada (como luis nassif costuma nomear)?
só para revisitar o óbvio, o chavão, o tediosamente enciclopédico, a retreta:
em 1997, roberto "só" lançou "canciones que amo", um disco de sucessos latino-americanos, em espanhol (ok, boiava lá pelo meio "coração de jesus", dele e de erasmo carlos, em português mesmo, mas...). no disco híbrido de 1998, havia um punhadinho econômico de canções "novas", em meio a um banhado de "hits" ao vivo. em 1999, nada (a não ser uma coletânea de sucessos e outra de canções religiosas). em 2001, "só" o "acústico mtv", "só" músicas não-inéditas. em 2002, "só" outro disco ao vivo, com "só" uma nova ("seres humanos") perdida lá no meio (ou melhor, no início), mais o bônus de uns remixes eletrônicos, "modernos", de "o calhambeque", "se você pensa", "jesus cristo". em 2004, "só" mais um plácido disco ao vivo, "só" com a sessentista "a volta", regravada em estúdio, deslocada ali no meio (ou melhor, no final). em 2005, "só" um disco quase "só" de regravações, dele ("meu pequeno cachoeiro") e de outros ("índia", "loving you"). 2006? "só" "duetos", um cd-e/ou-dvd de, er, duetos puxados de especiais passados do homem na globo. 2007? nada, ufa. e aí a incompreensível avalanche: nunca antes na história deste país...
[só para o seu conhecimento, spc: (quase) nenhum desses dados acima eu sei de cor, ok? eu "só" tive o trabalho de ir até o site oficial do cara e copiar. como poderia ter ido ao meu próprio livro "como dois e dois são cinco - roberto carlos (& erasmo & wanderléa)" (boitempo, 2004), que também reúne (quase) todas essas informações.]
se você disser que nada disso tem (quase) nenhuma importância, eu concordarei, tambéma acho que não - afinal, em que rc é diferente de (quase) todo mundo, na desaceleração criativa e na sanha de revivals "ao vivo" que fizeram nos últimos anos a derrocada da indústria de cd e o nascimento (natimorto?) da indústria de dvd?
ok, concordo. mas é que me aflige e me exacerba testemunhar (e às vezes participar d)a facilidade displicente com que o jornalismo diariamente cozinha (e a freguesia - você? - gostosamente saboreia) mentiras, descuidos, descasos, desleixos, mistificações, alienações, sei lá quais e quantos nomes dar a esse tipo de treco. quando se refere a roberto carlos, então, nossa senhora.
e aí, bem, certamente você já sacou, mas chego agora ao âmago da minha irritação. é "só" uma entre incontáveis outras, essa mentirinha boba de "pela primeira vez roberto carlos interrompeu uma rotina", erigida por mariposas que ficam dando voltas ao redor da lâmpada do factóide como se ela(e) fosse o sol que daria acesso ao reino dos céus, quero dizer, ao rei-roberto, quero dizer, à liberdade.
um tipo afim de "mentira" (esquecimento? desconhecimento? amnésia? ignorança?) dessas que rondam o carlismo, e particularmente o jornalismocarlismo, me afetou e afeta diretamente, e muito. envolve meu já citado "como dois e dois são cinco", um livro (quase "só") sobre roberto carlos que roberto carlos não censurou, nem proibiu, nem sequer agrediu.
pois, começando por (quase) todo mundo na imprensa (e fora dela) e terminando no colega ruy castro, eu ouço (quase) todo dia repetições em efeito-manada sobre o fato de roberto carlos ser "censor de livros", de "atentar contra a liberdade de expressão" etc. etc. etc.
[é que, outro dia mesmo, ruy castro escreveu mais do mesmo, sobre os "paradoxos" censores de rc; intrigado, fui sondá-lo em pessoa, por e-mail, sobre o por quê da reiterada omissão. respondeu que era "normal" ele, ruy, não saber da existência de algum outro livro sobre rc, mesmo se não-censurado - "anormal", disse, era rc não ter "partido para dentro de você"... ai, ai, ai...]
não que eu não concorde que, em certa medida, roberto carlos age, sim, como "pai censor" cerceador de diversas liberdades, mas... até hoje ninguém, nenhum coleguinha sequer, me perguntou por que ele não "censurou" nem "proibiu" meu livro, que segue em (pequena) circulação até os dias de hoje.
não que eu soubesse responder, se alguém me perguntasse. mas é que, pelo que me conste, ninguém até hoje tampouco perguntou a roberto carlos, nem a ninguém de sua corte íntima, por que é que ele proíbe uns, não proíbe outros, e la nave va. como dizia adoniran barbosa, as "mariposa" ficam todas lá noutro canto, em volta da "lâmpida", procurando o sol atrás dos 100 watts de quão censor anti-liberdade de expressão rc é, ou dos 40 watts de quantos discos rc não lançou neste ano.
tudo isso sem nem começar a falar das "mariposa" girando atrás doutras "lâmpidas", luzinhas fátuas e fosforescentes de dossiê, de dengue, de menininha assassinada etc. etc. etc.
jesus cristo, minha nossa senhora, meu coração de jesus! dos patrões fazedores de jornal e de "jornal nacional" eu nada sei, mas será "só" por culpa do(s) patrão(ões) que os jornalistas chegamos a este estado deplorável de desorientação, sucateamento, auto-sabotagem e autodesprezo?
sabe o que acaba acontecendo com as "mariposa" suicidas que teimam e insistem e persistem e não desistem de encontrar o sol escondido por detrás da luz da "lâmpida", não sabe? sabe, sim.
[ah, e só reiterando o convite, sempre e sempre, ao ruído - há umas pílulas sobre rita lee lá, recém-colocadas.]
lá vem mais um show de roberto carlos, e lá vem nova leva de reportagens sobre o cara, a árdua busca por novidade onde novidade não há, nem pretende haver. do final de 2007 para cá, os textos dos colegas jornalistas têm repetido, um atrás do outro, que "nunca antes na história deste país roberto carlos havia deixado de lançar um disco no natal", ou "um disco com músicas inéditas", ou (pequenas) variações sobre esse mesmo, mesmíssimo tema.
mas... mas... mas... de onde tiraram essa originalíssima (e equivocadíssima) informação, a ponto de enfim roubarem dela a originalidade, à custa de incessante e estrondosa repetição de erro, em efeito-manada (como luis nassif costuma nomear)?
só para revisitar o óbvio, o chavão, o tediosamente enciclopédico, a retreta:
em 1997, roberto "só" lançou "canciones que amo", um disco de sucessos latino-americanos, em espanhol (ok, boiava lá pelo meio "coração de jesus", dele e de erasmo carlos, em português mesmo, mas...). no disco híbrido de 1998, havia um punhadinho econômico de canções "novas", em meio a um banhado de "hits" ao vivo. em 1999, nada (a não ser uma coletânea de sucessos e outra de canções religiosas). em 2001, "só" o "acústico mtv", "só" músicas não-inéditas. em 2002, "só" outro disco ao vivo, com "só" uma nova ("seres humanos") perdida lá no meio (ou melhor, no início), mais o bônus de uns remixes eletrônicos, "modernos", de "o calhambeque", "se você pensa", "jesus cristo". em 2004, "só" mais um plácido disco ao vivo, "só" com a sessentista "a volta", regravada em estúdio, deslocada ali no meio (ou melhor, no final). em 2005, "só" um disco quase "só" de regravações, dele ("meu pequeno cachoeiro") e de outros ("índia", "loving you"). 2006? "só" "duetos", um cd-e/ou-dvd de, er, duetos puxados de especiais passados do homem na globo. 2007? nada, ufa. e aí a incompreensível avalanche: nunca antes na história deste país...
[só para o seu conhecimento, spc: (quase) nenhum desses dados acima eu sei de cor, ok? eu "só" tive o trabalho de ir até o site oficial do cara e copiar. como poderia ter ido ao meu próprio livro "como dois e dois são cinco - roberto carlos (& erasmo & wanderléa)" (boitempo, 2004), que também reúne (quase) todas essas informações.]
se você disser que nada disso tem (quase) nenhuma importância, eu concordarei, tambéma acho que não - afinal, em que rc é diferente de (quase) todo mundo, na desaceleração criativa e na sanha de revivals "ao vivo" que fizeram nos últimos anos a derrocada da indústria de cd e o nascimento (natimorto?) da indústria de dvd?
ok, concordo. mas é que me aflige e me exacerba testemunhar (e às vezes participar d)a facilidade displicente com que o jornalismo diariamente cozinha (e a freguesia - você? - gostosamente saboreia) mentiras, descuidos, descasos, desleixos, mistificações, alienações, sei lá quais e quantos nomes dar a esse tipo de treco. quando se refere a roberto carlos, então, nossa senhora.
e aí, bem, certamente você já sacou, mas chego agora ao âmago da minha irritação. é "só" uma entre incontáveis outras, essa mentirinha boba de "pela primeira vez roberto carlos interrompeu uma rotina", erigida por mariposas que ficam dando voltas ao redor da lâmpada do factóide como se ela(e) fosse o sol que daria acesso ao reino dos céus, quero dizer, ao rei-roberto, quero dizer, à liberdade.
um tipo afim de "mentira" (esquecimento? desconhecimento? amnésia? ignorança?) dessas que rondam o carlismo, e particularmente o jornalismocarlismo, me afetou e afeta diretamente, e muito. envolve meu já citado "como dois e dois são cinco", um livro (quase "só") sobre roberto carlos que roberto carlos não censurou, nem proibiu, nem sequer agrediu.
pois, começando por (quase) todo mundo na imprensa (e fora dela) e terminando no colega ruy castro, eu ouço (quase) todo dia repetições em efeito-manada sobre o fato de roberto carlos ser "censor de livros", de "atentar contra a liberdade de expressão" etc. etc. etc.
[é que, outro dia mesmo, ruy castro escreveu mais do mesmo, sobre os "paradoxos" censores de rc; intrigado, fui sondá-lo em pessoa, por e-mail, sobre o por quê da reiterada omissão. respondeu que era "normal" ele, ruy, não saber da existência de algum outro livro sobre rc, mesmo se não-censurado - "anormal", disse, era rc não ter "partido para dentro de você"... ai, ai, ai...]
não que eu não concorde que, em certa medida, roberto carlos age, sim, como "pai censor" cerceador de diversas liberdades, mas... até hoje ninguém, nenhum coleguinha sequer, me perguntou por que ele não "censurou" nem "proibiu" meu livro, que segue em (pequena) circulação até os dias de hoje.
não que eu soubesse responder, se alguém me perguntasse. mas é que, pelo que me conste, ninguém até hoje tampouco perguntou a roberto carlos, nem a ninguém de sua corte íntima, por que é que ele proíbe uns, não proíbe outros, e la nave va. como dizia adoniran barbosa, as "mariposa" ficam todas lá noutro canto, em volta da "lâmpida", procurando o sol atrás dos 100 watts de quão censor anti-liberdade de expressão rc é, ou dos 40 watts de quantos discos rc não lançou neste ano.
tudo isso sem nem começar a falar das "mariposa" girando atrás doutras "lâmpidas", luzinhas fátuas e fosforescentes de dossiê, de dengue, de menininha assassinada etc. etc. etc.
jesus cristo, minha nossa senhora, meu coração de jesus! dos patrões fazedores de jornal e de "jornal nacional" eu nada sei, mas será "só" por culpa do(s) patrão(ões) que os jornalistas chegamos a este estado deplorável de desorientação, sucateamento, auto-sabotagem e autodesprezo?
sabe o que acaba acontecendo com as "mariposa" suicidas que teimam e insistem e persistem e não desistem de encontrar o sol escondido por detrás da luz da "lâmpida", não sabe? sabe, sim.
[ah, e só reiterando o convite, sempre e sempre, ao ruído - há umas pílulas sobre rita lee lá, recém-colocadas.]
Quarta-feira, Abril 02, 2008
me deixe hipnotizado
então, aí eu fui pela segunda vez assistir a "chega de saudade", da laís bodanzky, e queria falar umas coisinhas sobre esse filme.
mas, como não sou, er, "crítico de cinema", peço licença para ser (se conseguir) um pouquinho sentimental, ok?
é que da primeira vez assisti numa sessão para jornalistas e fiquei (sei lá se exatamente por essa razão) levemente tenso, travado, bloqueado para certas provocações emotivas que o filme faz (e, nossa, isso me acontece tantas vezes em shows, também; às vezes até, vai ver, porque eles não são mesmo emocionantes, mas... vai saber, lalaialaiá...).
só que aí fui de novo, atraído por sei lá o quê que o filme tem (e pelo prazer de acompanhar quem me acompanhava), e... fiquei lá chorando, durante um montão de cenas (e no final, ah, o final, que final!...), feito um bobão, todo arrebatado pelo discurso nada inofensivo, nada ingênuo, nada truculento, nada duro, nada tolo, nada frio do filme da bodanzky.
a propósito, e antes que eu me esqueça: yeah, trata-se de um filme brasileiro, e eu quero dizer acima de tudo que eu sinto um enorme orgulho desse filme e do fato de ser contemporâneo e conterrâneo desse filme.
posto isso, umas notas livres, leves e soltas (espero), sobre "chega de saudade", então:
* tenho ouvido várias pessoas dizerem como o filme é "triste", como o acharam "triste", "melancólico", "doloroso", tal e coisa. eu próprio achei justamente isso na primeira vez que vi, a ponto de sair da sala escura com um baita nó na garganta. mas, ai, será que é "triste" mesmo? onde é que tá tanta "tristeza", se tem tanta "alegria" deslizando junto no salão? "chega de saudade" não é "triste" como a vida é, não é "alegre" como a vida é?
* pelo menos dentro de mim, a idéia da "tristeza" se atou a princípio à idéia da "velhice", mas, puxa, nem sobre a "velhice" o filme é propriamente! estão lá o paulinho vilhena, a maria flor, a cássia kiss (ops, quase falo "cássia eller", amoroso ato falho...). e o salão de baile de "terceira idade" do filme, nossa, é tão, tão, tão parecido, na organização social e na estrutura das relações, com lugares que conheço como a palma da minha mão, tipo a loca, a torre, o glória etc. de tal. "terceira idade"? pfff.
* e o filme tem tanta diversidade (etária, de gênero, até de cor da pele), mas, hmmmm, mas e gays? não há gays em "chega de saudade", ou eu é que não enxergay? ficaram todos lá na av. vieira de carvalho?
* me parece que "chega de saudade" possui dois grandes blocos de personagens, ambos interessantíssimos, ambos riquíssimos. de um lado, há os essencialmente amargurados, os sempre previamente vestidos a rigor para o baile do rancor: os de leonardo villar, betty faria, paulo vilhena (que amargura não tem idade, né?)... de outro, há aqueles que se vestem de leveza, de gana, de vontade de viver: os de stepan nercessian, cássia kiss, tônia carrero (essa com alguma ambigüidade)...
* não são estanques, os dois grupos. há personagens que transitam de um para o outro (e de outro para um), como os de maria flor, miriam mehler, jorge loredo (ele!, o zé bonitinho!, desconcertante e comovente participação)... e há os que se mantêm misteriosos, impenetráveis, como os de clarice abujamra, elza soares, marku ribas... fauna riquíssima, florescente.
* e, nossa, há o personagem de marcos cesana, o garçom, que é uma coisa, uma coisa, uma coisa. mal percebi as cenas dele na primeira vez que vi, mas, ai, na segunda... é de uma grandeza a atuação daquele garçom bailando a bandeja na mão entre os que bailam só no sapatinho. é o síndico, o anjo da guarda, o capataz, o guardião. e sonha se aposentar (leia-se envelhecer) logo, para poder enfim pular da periferia para o centro dos acontecimentos (ou estou confundindo, e é outro personagem que sonha esse sonho? o barman, será?). de ficar chorando escondidinho, no cantinho.
* o que é a betty faria, o que é a sempre sexy-e-gostosona betty faria encarnando aquela mulher que ninguém quer tirar para dançar, aquela mulher lotada de mágoa-por-dentro-guardada, aquela mulher linda de doer que sai reclamando que os homens a acham "baranga"? nossa, nossa. não é qualquer atriz (ou ator) que peita tamanho encontro com espelhos quiçá assustadores, ou tô enganado?
* o que é o personagem do stepan nercessian, que inverte toda e qualquer expectativa e perspectiva, e começa parecendo "escroto", mas no final você descobre no fundo do peito que não era nada daquilo (e descobre, ainda por cima, que ele faz carretos, como esclarece uma das cenas finais)? nossa.
* bem, e tem a música, né? ai, que vontade quentinha de chorar quando toca martinho da vila ("disritmia", "mulheres"), quando toca reginaldo rossi ("meu amor, meu bem, ma femme", "tô doidão"), quando toca jorge ben ("bebete vambora" - bebetty?!), quando marku ribas solta o vozeirão, quando a câmera entra pela boca de elza soares, quando elza canta "lama" ou evoca alcione ("não deixe o samba morrer"), quando se (re)misturam erasmos-caetanos-simonais-dorismonteiros ("de noite na cama"), cubanismos ("tequila", "cha cha cha"), lulus-santos ("como uma onda"), boleros, ritas-lee ("lança perfume")...
* a música, por sinal, comenta astuta e ferinamente o enredo do filme, o tempo todo, sem trégua. sem perceber, o dj paulinho vilhena solta reginaldo rossi no salão, "tô doidão, tô doidão, bicho, tô doidão/ porque roubaram minha mina dentro do salão", no exato instante em que a letra talvez esteja se materializando bem em frente, com a mina dele, do dj, a maria flor. paulinho entra em parafuso, não era para menos, né? mas esse é só um exemplo, eles acontecem às dezenas.
* e a abundância e a exuberância dos figurantes, dos casais que rodopiam graciosamente pelo salão à chapeleira negra e velhinha que tricota para passar o tempo enquanto o baile corre solto dentro do salão? meu deus, nem tenho palavras.
* enfim. não é que eu conheço aqueles personagens todos, todos, todos (alguns deles, por sinal, sou eu mesmo, ou somos pedaços de mim), como as palmas das minhas mães? (n)os conheço menos idosos, talvez, vários, ou menos isso ou menos aquilo, mas sinto conhecer todos, um por um. conheço até mesmo o cenário, o salão do espaço fraterno, lapa paulista, pompéia, vila romana, onde uma vez fui a um baile de aniversário do xu, cujos freqüentadores éramos tão diferentes dos personagens do filme, e ao mesmo tempo tão semelhantes a eles.
* me perdoem os entusiastas das jóias hollywoodianas e/ou das sutilezas do cinema asiático, mas essa familiaridade que me provoca um filme como "chega de saudade" (ou outro como "juízo", de outra mulher-cineasta, cuja sala estava dramaticamente vazia na sessão a que fui) eu não troco por nada neste mundo.
* não há nada neste mundo que me cause tanta vontade (boa & ruim) de chorar quanto o quintal da minha própria casa (talvez seja por isso mesmo que fujo tanto de lá, não seja?).
* ai, e, façavor, não me enche mais o saco com essa lengalenga nhenhenhém chororô friquetrique de que "o cinema brasileiro não presta", "a música brasileira não presta", "a política brasileira não presta", "o brasileiro não presta", "o brasil não presta"? não cola, essa cola d'água cansou de colar já faz um bom bocado de tempo. e, não, nem vou cantar, como naquele hard-forró arrasa-quarteirão presente no filme, que "você não vale nada, mas eu gosto de você". chega de melancolia, chega de auto-sabotagem, t'esconjuro.
mas, como não sou, er, "crítico de cinema", peço licença para ser (se conseguir) um pouquinho sentimental, ok?
é que da primeira vez assisti numa sessão para jornalistas e fiquei (sei lá se exatamente por essa razão) levemente tenso, travado, bloqueado para certas provocações emotivas que o filme faz (e, nossa, isso me acontece tantas vezes em shows, também; às vezes até, vai ver, porque eles não são mesmo emocionantes, mas... vai saber, lalaialaiá...).
só que aí fui de novo, atraído por sei lá o quê que o filme tem (e pelo prazer de acompanhar quem me acompanhava), e... fiquei lá chorando, durante um montão de cenas (e no final, ah, o final, que final!...), feito um bobão, todo arrebatado pelo discurso nada inofensivo, nada ingênuo, nada truculento, nada duro, nada tolo, nada frio do filme da bodanzky.
a propósito, e antes que eu me esqueça: yeah, trata-se de um filme brasileiro, e eu quero dizer acima de tudo que eu sinto um enorme orgulho desse filme e do fato de ser contemporâneo e conterrâneo desse filme.
posto isso, umas notas livres, leves e soltas (espero), sobre "chega de saudade", então:
* tenho ouvido várias pessoas dizerem como o filme é "triste", como o acharam "triste", "melancólico", "doloroso", tal e coisa. eu próprio achei justamente isso na primeira vez que vi, a ponto de sair da sala escura com um baita nó na garganta. mas, ai, será que é "triste" mesmo? onde é que tá tanta "tristeza", se tem tanta "alegria" deslizando junto no salão? "chega de saudade" não é "triste" como a vida é, não é "alegre" como a vida é?
* pelo menos dentro de mim, a idéia da "tristeza" se atou a princípio à idéia da "velhice", mas, puxa, nem sobre a "velhice" o filme é propriamente! estão lá o paulinho vilhena, a maria flor, a cássia kiss (ops, quase falo "cássia eller", amoroso ato falho...). e o salão de baile de "terceira idade" do filme, nossa, é tão, tão, tão parecido, na organização social e na estrutura das relações, com lugares que conheço como a palma da minha mão, tipo a loca, a torre, o glória etc. de tal. "terceira idade"? pfff.
* e o filme tem tanta diversidade (etária, de gênero, até de cor da pele), mas, hmmmm, mas e gays? não há gays em "chega de saudade", ou eu é que não enxergay? ficaram todos lá na av. vieira de carvalho?
* me parece que "chega de saudade" possui dois grandes blocos de personagens, ambos interessantíssimos, ambos riquíssimos. de um lado, há os essencialmente amargurados, os sempre previamente vestidos a rigor para o baile do rancor: os de leonardo villar, betty faria, paulo vilhena (que amargura não tem idade, né?)... de outro, há aqueles que se vestem de leveza, de gana, de vontade de viver: os de stepan nercessian, cássia kiss, tônia carrero (essa com alguma ambigüidade)...
* não são estanques, os dois grupos. há personagens que transitam de um para o outro (e de outro para um), como os de maria flor, miriam mehler, jorge loredo (ele!, o zé bonitinho!, desconcertante e comovente participação)... e há os que se mantêm misteriosos, impenetráveis, como os de clarice abujamra, elza soares, marku ribas... fauna riquíssima, florescente.
* e, nossa, há o personagem de marcos cesana, o garçom, que é uma coisa, uma coisa, uma coisa. mal percebi as cenas dele na primeira vez que vi, mas, ai, na segunda... é de uma grandeza a atuação daquele garçom bailando a bandeja na mão entre os que bailam só no sapatinho. é o síndico, o anjo da guarda, o capataz, o guardião. e sonha se aposentar (leia-se envelhecer) logo, para poder enfim pular da periferia para o centro dos acontecimentos (ou estou confundindo, e é outro personagem que sonha esse sonho? o barman, será?). de ficar chorando escondidinho, no cantinho.
* o que é a betty faria, o que é a sempre sexy-e-gostosona betty faria encarnando aquela mulher que ninguém quer tirar para dançar, aquela mulher lotada de mágoa-por-dentro-guardada, aquela mulher linda de doer que sai reclamando que os homens a acham "baranga"? nossa, nossa. não é qualquer atriz (ou ator) que peita tamanho encontro com espelhos quiçá assustadores, ou tô enganado?
* o que é o personagem do stepan nercessian, que inverte toda e qualquer expectativa e perspectiva, e começa parecendo "escroto", mas no final você descobre no fundo do peito que não era nada daquilo (e descobre, ainda por cima, que ele faz carretos, como esclarece uma das cenas finais)? nossa.
* bem, e tem a música, né? ai, que vontade quentinha de chorar quando toca martinho da vila ("disritmia", "mulheres"), quando toca reginaldo rossi ("meu amor, meu bem, ma femme", "tô doidão"), quando toca jorge ben ("bebete vambora" - bebetty?!), quando marku ribas solta o vozeirão, quando a câmera entra pela boca de elza soares, quando elza canta "lama" ou evoca alcione ("não deixe o samba morrer"), quando se (re)misturam erasmos-caetanos-simonais-dorismonteiros ("de noite na cama"), cubanismos ("tequila", "cha cha cha"), lulus-santos ("como uma onda"), boleros, ritas-lee ("lança perfume")...
* a música, por sinal, comenta astuta e ferinamente o enredo do filme, o tempo todo, sem trégua. sem perceber, o dj paulinho vilhena solta reginaldo rossi no salão, "tô doidão, tô doidão, bicho, tô doidão/ porque roubaram minha mina dentro do salão", no exato instante em que a letra talvez esteja se materializando bem em frente, com a mina dele, do dj, a maria flor. paulinho entra em parafuso, não era para menos, né? mas esse é só um exemplo, eles acontecem às dezenas.
* e a abundância e a exuberância dos figurantes, dos casais que rodopiam graciosamente pelo salão à chapeleira negra e velhinha que tricota para passar o tempo enquanto o baile corre solto dentro do salão? meu deus, nem tenho palavras.
* enfim. não é que eu conheço aqueles personagens todos, todos, todos (alguns deles, por sinal, sou eu mesmo, ou somos pedaços de mim), como as palmas das minhas mães? (n)os conheço menos idosos, talvez, vários, ou menos isso ou menos aquilo, mas sinto conhecer todos, um por um. conheço até mesmo o cenário, o salão do espaço fraterno, lapa paulista, pompéia, vila romana, onde uma vez fui a um baile de aniversário do xu, cujos freqüentadores éramos tão diferentes dos personagens do filme, e ao mesmo tempo tão semelhantes a eles.
* me perdoem os entusiastas das jóias hollywoodianas e/ou das sutilezas do cinema asiático, mas essa familiaridade que me provoca um filme como "chega de saudade" (ou outro como "juízo", de outra mulher-cineasta, cuja sala estava dramaticamente vazia na sessão a que fui) eu não troco por nada neste mundo.
* não há nada neste mundo que me cause tanta vontade (boa & ruim) de chorar quanto o quintal da minha própria casa (talvez seja por isso mesmo que fujo tanto de lá, não seja?).
* ai, e, façavor, não me enche mais o saco com essa lengalenga nhenhenhém chororô friquetrique de que "o cinema brasileiro não presta", "a música brasileira não presta", "a política brasileira não presta", "o brasileiro não presta", "o brasil não presta"? não cola, essa cola d'água cansou de colar já faz um bom bocado de tempo. e, não, nem vou cantar, como naquele hard-forró arrasa-quarteirão presente no filme, que "você não vale nada, mas eu gosto de você". chega de melancolia, chega de auto-sabotagem, t'esconjuro.
Quarta-feira, Março 19, 2008
um clube (semi-)invisível
da "carta capital" 486, de 12 de março de 2008.
O CLUBE IMAGINÁRIO
Repressão, criação coletiva, drogas e sombras num disco liderado por Milton Nascimento em 1972, e agora restaurado

Eu já estou com o pé nessa estrada/ qualquer dia a gente se vê/ sei que nada será como antes/ amanhã. Nas ruas históricas da Diamantina do início dos anos 70, um encontro fortuito entre mineiros fez se cruzarem de repente os caminhos do ex-presidente Juscelino Kubitschek, por um lado, e dos "Beatles brasileiros", por outro. Iam por rotas opostas e, ainda assim, convergentes.
JK vivia exilado na terra natal, por obra da corporação militar que seqüestrara o Brasil desde 1964. Milton Nascimento e os então anônimos Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges se dirigiam sem bússola rumo a um estrelato conturbado, que associaria para sempre evidência e clandestinidade, êxito e exílio. Na cidade das serestas, os jovens hippies mostraram a JK Beco do Mota, canção inspirada na ira do bispo contra o beco local de prostituição, que ocupava quase o mesmo lugar no espaço que a igreja matriz.
Diamantina é o Beco do Mota/ Minas é o Beco do Mota/ Brasil é o Beco do Mota/ viva meu país!, cantaram para o inventor de Brasília. "Vocês são de morte", riu Juscelino, que morreria em agosto de 1976, na rodovia que liga São Paulo e Rio. Os músicos forjavam o nascedouro do álbum Clube da Esquina, um dos testemunhos mais tensos e soturnos da música brasileira sobre aquele período. "Tinha um lado sombrio, mas era melhor fazer aquilo que ficar reclamando", diz hoje Brant, mineiro de Poços de Caldas (*) e autor de letras sinuosas como as de San Vicente e Ao Que Vai Nascer.
Agrupado numa caixa com o subseqüente Clube da Esquina 2 (de 1978), o disco de 1972 é reeditado agora por iniciativa de Milton, que ouviu a minuciosa restauração de Elis & Tom (1974) pela Trama e quis o mesmo para si. Convocou João Marcello Bôscoli, diretor da gravadora e filho de Elis Regina, para repetir o trabalho feito com o disco da mãe.
Não havia fita máster do Clube 1, que foi gravado em apenas dois canais, um para orquestra e todos os instrumentos, outro para a voz de Milton. O trabalho, na comparação de Bôscoli, foi de restaurar sem remover a tinta da Mona Lisa. A multinacional EMI, detentora dos originais da extinta Odeon, pagou à brasileira Trama cerca de 100 mil reais pelo trabalho, que substitui a remasterização anterior, de 1994, por técnicos do estúdio inglês Abbey Road, onde os Beatles gravavam. "Minha voz ficou a voz que acho que tenho", avalia Milton, em sua casa na Barra da Tijuca.
Ele é elemento nuclear e ponto de fuga de um "clube" hipotético que se formava à época e definiria o que ficaria intrinsecamente rotulado como "o som de Minas". O próprio Milton, ironicamente, não era mineiro, mas carioca. A mãe, Maria do Carmo, morreu de tuberculose, e aos 2 anos Milton ficou aos cuidados da família da qual a mãe era empregada doméstica. Mudou-se com eles para Três Pontas, no Sul de Minas.
Vizinho e amigo de infância era o três-pontano Wagner Tiso, futuro arranjador de Clube da Esquina. "Eu trazia a influência do Leste Europeu, uma ciganice", diz Tiso, que começara carreira musical imbuído de jazz e bossa nova, mas na virada dos anos 70 misturava rock e jazz no feroz grupo Som Imaginário. "Porto seguro" de Milton (nas palavras de Tiso) entre 1970 e 1973, o conjunto congregava mineiros (ele e Tavito) e cariocas (Zé Rodrix, Fredera, Robertinho Silva, Luiz Alves).
A "feira moderna" do Som Imaginário se somava ao sangue antigo que Milton trazia nas veias desde a infância: "No rádio se ouvia na época tanto tango quanto música portuguesa, francesa, italiana, Édith Piaf e Angela Maria, bolero, música cubana, espanhola, tudo".
Por que vocês não sabem do lixo ocidental?, perguntava o cantor no disco de 1970, numa canção chamada Para Lennon e McCartney, que desembocava em manifesto: Eu sou da América do Sul/ eu sei, vocês não vão saber/ mas agora sou cowboy/ sou do ouro, eu sou vocês/ sou do mundo, sou Minas Gerais.
Os autores, com Milton (**), eram os irmãos Márcio e Lô Borges, de família belo-horizontina numerosa que desde os anos 60 incorporara à casa o agregado Milton, o "Bituca". Outros freqüentadores eram Nelson Ned, depois ídolo romântico, e Martinha, futuro "Queijinho de Minas" da Jovem Guarda.
Clube da Esquina fora, primeiro, uma letra dos dois irmãos, em referência à rua em que os Borges foram morar, no bairro belo-horizontino de Santa Tereza. "Não tinha nada naquela esquina, era um sobrado velho parecendo a Mooca, em São Paulo", evoca Márcio. "Não tem atrativo, é uma esquina de bairro pouco mais que proletário. O nome das ruas é que era legal, Paraisópolis com Divinópolis."
Ele relata a decepção posterior de jazzistas internacionais, como Pat Metheny e Lyle Mays, que, admiradores do som de Minas e de Milton, vinham a Belo Horizonte e faziam questão de conhecer a esquina e o clube. "Lyle Mays chegou, botou a mão na testa e disse 'my God'. Não viu nada, né? De onde esses caras tiraram essa música, tiraram do ar? Estava crente que era um ambiente que fornecia algo, mas foi do ar mesmo", sintetiza a substância etérea que se espalhou por todo canto do mundo.
Não havia clube, sede, nada. Um clube imaginário vinha se formar ao redor de um mineiro (e/ou carioca) imaginário que produzia um som imaginário, intrincado, mestiço. O nome designava então a turma de amigos e vizinhos (não-músicos) de Lô, e só. Aos 19, ele estrearia em disco como co-autor, o único nome creditado abaixo do de Milton na contracapa do essencialmente coletivo Clube da Esquina. Ali, seria cantor e compositor das melodias de Tudo Que Você Podia Ser, Um Girassol da Cor dos Seus Cabelos, Paisagem da Janela.
"Para mim, a grande originalidade do disco é o contraponto das músicas do Milton, ligadas à africanidade, ao samba, à bossa nova, com as minhas, que tinham uma postura mais rock, mais balada, mais Beatles", reavalia Lô.
Ele lembra que, temeroso de enfrentar um time compacto de músicos ligados ao jazz, propôs levar consigo outro jovem roqueiro, Beto Guedes. Mineiro de sotaque baiano de Montes Claros, norte do estado, ele cantara com Lô, aos 14 anos, no programa televisivo local Petilândia, num grupo chamado The Beavers, os castores.
A vinculação que se fez não era só via "beatlemania", diz Beto. "Os Beatles são de águas diferentes, outra cultura. Criança escuta muito o que o pai escuta, eu ouvi choro, samba-canção, marchinha. Mais pra frente, Beatles, Stones, Who, Led Zeppelin, Genesis. E Liszt, Wagner." Gostava menos de bossa nova que de iê-iê-iê.
Para se mudar para o Rio, Lô teve de dobrar a mãe. E o Exército. Rapaz de 17 anos, pediu dispensa sob o argumento de que fora convidado a gravar com Milton Nascimento no Rio. "O capitão me desancou: 'Você não vai servir porque o Exército não quer gente da sua espécie. Seus comunistas de merda, artistas de merda. Diga a seus amigos que o mesmo tanto que eles não gostam da gente nós também não gostamos de vocês'. Eu era apenas um garoto que amava os Beatles, os Rolling Stones e a Jovem Guarda."
Milton conta que ficava "danado" com duas características (negativas) atribuídas a ele desde que despontou num festival de 1967 com Travessia. "Uma era que minha música não era brasileira, porque não era samba, e mineiro não sabia fazer samba. A segunda era que a música era muito difícil, o povo não ia entender."
Tiso constata um paradoxo: "Muitos sambistas cariocas nasceram em Minas. Ataulfo Alves, Joubert de Carvalho, Geraldo Pereira, Ary Barroso". Todos mineiros. Mas todos, de fato, refutados pelo som rebuscado e repleto de alçapões da nova leva mineira, que agrupava ainda, no Clube 1, Toninho Horta e Nelson Angelo.
A relação com a imprensa, por sinal, era de guerra tácita, de parte a parte. "O primeiro Clube foi massacrado", diz Márcio. "Após 20 anos, aparece no Jornal do Brasil: 'O Sgt. Peppers brasileiro completa 20 anos'. Gracinha da imprensa, né?" Para a Folha de S.Paulo, em 12 de novembro de 1972, as músicas de Milton "só se transformaram em sucesso na voz de outros intérpretes".
"A gente foi bem perseguido. Isso não consta dos livros, da história, mas teve muito", diz Milton, algo misteriosamente. "Para suportar o que acontecia, só fazendo muita música, tomando muita birita e muita droga. Não cheguei a ver ninguém careta nas gravações", evoca Lô, que pôs o pé na estrada e se afastou por seis anos após um álbum-solo feito a toque de caixa, ainda em 1972, o difícil e hoje cultuado "disco do tênis". "O show biz me apavorou. Tive anorexia, estava um palito, só queria saber de droga e loucura."
Na estréia do show do Clube, Milton entrou embriagado no palco e desmaiou antes de começar a cantar. A guerra interior mitigava a relação com produtores de shows. "Todos os lugares no Rio e em São Paulo se fecharam para nós. Aqui todo mundo falava mal, mas eu ia a Belém ou a uma cidadezinha fazer show para os estudantes e 10 mil pessoas cantavam em coro." O exílio dentro de casa extravasava pelos interiores, um elo de sociedade secreta se formava entre o "clube" e estratos também marginalizados de público.
Era tempo de desbunde, lisergia e tortura nos porões, mas talvez houvesse mais. Em parte integrado ao black power dos primeiros anos 70, Milton era um líder negro numa coletividade em que predominavam artistas brancos. A empresária do artista, Marilene Gondim, salta à frente para afirmar que nunca detectou viés racista nas críticas detratoras. Em seguida, introduz informação não explicada de todo: "A verdade é que ele sofria e sofre até hoje com discriminação. Mas é social, em situações isoladas. Ainda existem eventos, aqui no Brasil, em que Milton é destratado".
Ele, que na juventude era proibido de entrar nos clubes de Três Pontas por ser negro, mantém-se em silêncio. Diante da fala de Marilene, lembra enfim que, na São Paulo dos anos 60, os músicos do Zimbo Trio romperam com a casa de shows Baiúca quando os proprietários os proibiram de levá-lo ali.
A capa de Clube da Esquina estampava uma imagem loquaz de mestiçagem, dois meninos acocorados lado a lado, um branco e o outro negro. Foi criada pelo fotógrafo Cafi e pelo niteroiense Ronaldo Bastos, outro dos letristas centrais do grupo, autor dos versos de Nada Será Como Antes, Cravo e Canela e Cais.
"Cafi e eu andávamos de Fusquinha pelas estradas, fotografando nuvens e circos mambembes. Numa estradinha de terra nos arredores de Nova Friburgo, vimos aquela cena, paramos e Cafi clicou. Depois virou capa", lembra Ronaldo. Até hoje, muitos pensam que os meninos são eles, Lô e Milton. Os "atores" involuntários que os representaram jamais apareceram nem se identificaram.
A capa nua, sem créditos para título ou nome dos cantores, era outra afronta que o Clube praticava com mansa discrição. Outra ainda era o fato de ser um álbum duplo. Membros do "clube" gostam de lembrar que esse teria sido o primeiro disco duplo do Brasil, se Fatal (1971), de Gal Costa, não tivesse sido lançado com maior rapidez. Ignoram ou esquecem (como, de resto, quase todo mundo) a existência do duplo Show em Simonal, lançado em 1967 pelo depois proscrito Wilson Simonal.
O primeiro Clube era essencialmente masculino. "Era aquele efeito testosterona total no ar, um monte de homem brigando o tempo todo", brinca Márcio. A única participação feminina é da bossa-novista carioca (e negra) Alaíde Costa, parceira de Milton em descaracterizar Me Deixa em Paz, um samba bravo de Monsueto Menezes em estilhaços de ritmos impuros: Se você não me queria/ não devia me procurar/ não devia me iludir/ nem deixar eu me apaixonar. "Era um ambiente muito legal, gente tão jovem fazendo aquele tipo tão diferente de música", elogia Alaíde.
A cantora e compositora carioca Joyce, então casada com Nelson Angelo, circulava nos bastidores do "clube". Ela lança uma hipótese para explicar o ambiente "clube do Bolinha": "Eu achava uma coisa meio misógina, não havia nenhuma cantora significante no grupo. Depois cheguei à conclusão de que a musa era mesmo Bituca, uma figura sedutora, disputada, por quem todos eram musicalmente apaixonados. Todos compunham pensando em como soaria na voz dele. Isso é que é uma musa, não é?"
Como lembra Ronaldo, havia musas mais ou menos secretas, como Nana Caymmi, para quem ele fez a letra de Cais, ou Dina Sfat, inspiradora de Cravo e Canela. E havia Elis Regina, pioneira em gravar Milton e o "clube".
Foi pela voz dela que vieram à luz, nos princípios da abertura política, alguns dos versos-símbolo do Clube 2, feitos por Brant para O Que Foi Feito Devera, que ecoa e reverbera na edição restaurada 35 anos depois. Se muito vale o já feito/ mais vale o que será/ e o que foi feito é preciso conhecer/ para melhor prosseguir.
(*) errata 1: fernando brant nasceu em caldas, e não em poços de caldas; copiei o dado do dicionário cravo albim da música popular brasileira, e... errei!
(**) errata 2: milton nascimento não é co-autor de "para lennon e mccartney" com lô e márcio borges. fernando brant é que é. e dessa vez eu errei por mim mesmo... e meus agradecimentos ao fernando em pessoa por me obrigar às justas erratas.
O CLUBE IMAGINÁRIO
Repressão, criação coletiva, drogas e sombras num disco liderado por Milton Nascimento em 1972, e agora restaurado

Eu já estou com o pé nessa estrada/ qualquer dia a gente se vê/ sei que nada será como antes/ amanhã. Nas ruas históricas da Diamantina do início dos anos 70, um encontro fortuito entre mineiros fez se cruzarem de repente os caminhos do ex-presidente Juscelino Kubitschek, por um lado, e dos "Beatles brasileiros", por outro. Iam por rotas opostas e, ainda assim, convergentes.
JK vivia exilado na terra natal, por obra da corporação militar que seqüestrara o Brasil desde 1964. Milton Nascimento e os então anônimos Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges se dirigiam sem bússola rumo a um estrelato conturbado, que associaria para sempre evidência e clandestinidade, êxito e exílio. Na cidade das serestas, os jovens hippies mostraram a JK Beco do Mota, canção inspirada na ira do bispo contra o beco local de prostituição, que ocupava quase o mesmo lugar no espaço que a igreja matriz.
Diamantina é o Beco do Mota/ Minas é o Beco do Mota/ Brasil é o Beco do Mota/ viva meu país!, cantaram para o inventor de Brasília. "Vocês são de morte", riu Juscelino, que morreria em agosto de 1976, na rodovia que liga São Paulo e Rio. Os músicos forjavam o nascedouro do álbum Clube da Esquina, um dos testemunhos mais tensos e soturnos da música brasileira sobre aquele período. "Tinha um lado sombrio, mas era melhor fazer aquilo que ficar reclamando", diz hoje Brant, mineiro de Poços de Caldas (*) e autor de letras sinuosas como as de San Vicente e Ao Que Vai Nascer.
Agrupado numa caixa com o subseqüente Clube da Esquina 2 (de 1978), o disco de 1972 é reeditado agora por iniciativa de Milton, que ouviu a minuciosa restauração de Elis & Tom (1974) pela Trama e quis o mesmo para si. Convocou João Marcello Bôscoli, diretor da gravadora e filho de Elis Regina, para repetir o trabalho feito com o disco da mãe.
Não havia fita máster do Clube 1, que foi gravado em apenas dois canais, um para orquestra e todos os instrumentos, outro para a voz de Milton. O trabalho, na comparação de Bôscoli, foi de restaurar sem remover a tinta da Mona Lisa. A multinacional EMI, detentora dos originais da extinta Odeon, pagou à brasileira Trama cerca de 100 mil reais pelo trabalho, que substitui a remasterização anterior, de 1994, por técnicos do estúdio inglês Abbey Road, onde os Beatles gravavam. "Minha voz ficou a voz que acho que tenho", avalia Milton, em sua casa na Barra da Tijuca.
Ele é elemento nuclear e ponto de fuga de um "clube" hipotético que se formava à época e definiria o que ficaria intrinsecamente rotulado como "o som de Minas". O próprio Milton, ironicamente, não era mineiro, mas carioca. A mãe, Maria do Carmo, morreu de tuberculose, e aos 2 anos Milton ficou aos cuidados da família da qual a mãe era empregada doméstica. Mudou-se com eles para Três Pontas, no Sul de Minas.
Vizinho e amigo de infância era o três-pontano Wagner Tiso, futuro arranjador de Clube da Esquina. "Eu trazia a influência do Leste Europeu, uma ciganice", diz Tiso, que começara carreira musical imbuído de jazz e bossa nova, mas na virada dos anos 70 misturava rock e jazz no feroz grupo Som Imaginário. "Porto seguro" de Milton (nas palavras de Tiso) entre 1970 e 1973, o conjunto congregava mineiros (ele e Tavito) e cariocas (Zé Rodrix, Fredera, Robertinho Silva, Luiz Alves).
A "feira moderna" do Som Imaginário se somava ao sangue antigo que Milton trazia nas veias desde a infância: "No rádio se ouvia na época tanto tango quanto música portuguesa, francesa, italiana, Édith Piaf e Angela Maria, bolero, música cubana, espanhola, tudo".
Por que vocês não sabem do lixo ocidental?, perguntava o cantor no disco de 1970, numa canção chamada Para Lennon e McCartney, que desembocava em manifesto: Eu sou da América do Sul/ eu sei, vocês não vão saber/ mas agora sou cowboy/ sou do ouro, eu sou vocês/ sou do mundo, sou Minas Gerais.
Os autores, com Milton (**), eram os irmãos Márcio e Lô Borges, de família belo-horizontina numerosa que desde os anos 60 incorporara à casa o agregado Milton, o "Bituca". Outros freqüentadores eram Nelson Ned, depois ídolo romântico, e Martinha, futuro "Queijinho de Minas" da Jovem Guarda.
Clube da Esquina fora, primeiro, uma letra dos dois irmãos, em referência à rua em que os Borges foram morar, no bairro belo-horizontino de Santa Tereza. "Não tinha nada naquela esquina, era um sobrado velho parecendo a Mooca, em São Paulo", evoca Márcio. "Não tem atrativo, é uma esquina de bairro pouco mais que proletário. O nome das ruas é que era legal, Paraisópolis com Divinópolis."
Ele relata a decepção posterior de jazzistas internacionais, como Pat Metheny e Lyle Mays, que, admiradores do som de Minas e de Milton, vinham a Belo Horizonte e faziam questão de conhecer a esquina e o clube. "Lyle Mays chegou, botou a mão na testa e disse 'my God'. Não viu nada, né? De onde esses caras tiraram essa música, tiraram do ar? Estava crente que era um ambiente que fornecia algo, mas foi do ar mesmo", sintetiza a substância etérea que se espalhou por todo canto do mundo.
Não havia clube, sede, nada. Um clube imaginário vinha se formar ao redor de um mineiro (e/ou carioca) imaginário que produzia um som imaginário, intrincado, mestiço. O nome designava então a turma de amigos e vizinhos (não-músicos) de Lô, e só. Aos 19, ele estrearia em disco como co-autor, o único nome creditado abaixo do de Milton na contracapa do essencialmente coletivo Clube da Esquina. Ali, seria cantor e compositor das melodias de Tudo Que Você Podia Ser, Um Girassol da Cor dos Seus Cabelos, Paisagem da Janela.
"Para mim, a grande originalidade do disco é o contraponto das músicas do Milton, ligadas à africanidade, ao samba, à bossa nova, com as minhas, que tinham uma postura mais rock, mais balada, mais Beatles", reavalia Lô.
Ele lembra que, temeroso de enfrentar um time compacto de músicos ligados ao jazz, propôs levar consigo outro jovem roqueiro, Beto Guedes. Mineiro de sotaque baiano de Montes Claros, norte do estado, ele cantara com Lô, aos 14 anos, no programa televisivo local Petilândia, num grupo chamado The Beavers, os castores.
A vinculação que se fez não era só via "beatlemania", diz Beto. "Os Beatles são de águas diferentes, outra cultura. Criança escuta muito o que o pai escuta, eu ouvi choro, samba-canção, marchinha. Mais pra frente, Beatles, Stones, Who, Led Zeppelin, Genesis. E Liszt, Wagner." Gostava menos de bossa nova que de iê-iê-iê.
Para se mudar para o Rio, Lô teve de dobrar a mãe. E o Exército. Rapaz de 17 anos, pediu dispensa sob o argumento de que fora convidado a gravar com Milton Nascimento no Rio. "O capitão me desancou: 'Você não vai servir porque o Exército não quer gente da sua espécie. Seus comunistas de merda, artistas de merda. Diga a seus amigos que o mesmo tanto que eles não gostam da gente nós também não gostamos de vocês'. Eu era apenas um garoto que amava os Beatles, os Rolling Stones e a Jovem Guarda."
Milton conta que ficava "danado" com duas características (negativas) atribuídas a ele desde que despontou num festival de 1967 com Travessia. "Uma era que minha música não era brasileira, porque não era samba, e mineiro não sabia fazer samba. A segunda era que a música era muito difícil, o povo não ia entender."
Tiso constata um paradoxo: "Muitos sambistas cariocas nasceram em Minas. Ataulfo Alves, Joubert de Carvalho, Geraldo Pereira, Ary Barroso". Todos mineiros. Mas todos, de fato, refutados pelo som rebuscado e repleto de alçapões da nova leva mineira, que agrupava ainda, no Clube 1, Toninho Horta e Nelson Angelo.
A relação com a imprensa, por sinal, era de guerra tácita, de parte a parte. "O primeiro Clube foi massacrado", diz Márcio. "Após 20 anos, aparece no Jornal do Brasil: 'O Sgt. Peppers brasileiro completa 20 anos'. Gracinha da imprensa, né?" Para a Folha de S.Paulo, em 12 de novembro de 1972, as músicas de Milton "só se transformaram em sucesso na voz de outros intérpretes".
"A gente foi bem perseguido. Isso não consta dos livros, da história, mas teve muito", diz Milton, algo misteriosamente. "Para suportar o que acontecia, só fazendo muita música, tomando muita birita e muita droga. Não cheguei a ver ninguém careta nas gravações", evoca Lô, que pôs o pé na estrada e se afastou por seis anos após um álbum-solo feito a toque de caixa, ainda em 1972, o difícil e hoje cultuado "disco do tênis". "O show biz me apavorou. Tive anorexia, estava um palito, só queria saber de droga e loucura."
Na estréia do show do Clube, Milton entrou embriagado no palco e desmaiou antes de começar a cantar. A guerra interior mitigava a relação com produtores de shows. "Todos os lugares no Rio e em São Paulo se fecharam para nós. Aqui todo mundo falava mal, mas eu ia a Belém ou a uma cidadezinha fazer show para os estudantes e 10 mil pessoas cantavam em coro." O exílio dentro de casa extravasava pelos interiores, um elo de sociedade secreta se formava entre o "clube" e estratos também marginalizados de público.
Era tempo de desbunde, lisergia e tortura nos porões, mas talvez houvesse mais. Em parte integrado ao black power dos primeiros anos 70, Milton era um líder negro numa coletividade em que predominavam artistas brancos. A empresária do artista, Marilene Gondim, salta à frente para afirmar que nunca detectou viés racista nas críticas detratoras. Em seguida, introduz informação não explicada de todo: "A verdade é que ele sofria e sofre até hoje com discriminação. Mas é social, em situações isoladas. Ainda existem eventos, aqui no Brasil, em que Milton é destratado".
Ele, que na juventude era proibido de entrar nos clubes de Três Pontas por ser negro, mantém-se em silêncio. Diante da fala de Marilene, lembra enfim que, na São Paulo dos anos 60, os músicos do Zimbo Trio romperam com a casa de shows Baiúca quando os proprietários os proibiram de levá-lo ali.
A capa de Clube da Esquina estampava uma imagem loquaz de mestiçagem, dois meninos acocorados lado a lado, um branco e o outro negro. Foi criada pelo fotógrafo Cafi e pelo niteroiense Ronaldo Bastos, outro dos letristas centrais do grupo, autor dos versos de Nada Será Como Antes, Cravo e Canela e Cais.
"Cafi e eu andávamos de Fusquinha pelas estradas, fotografando nuvens e circos mambembes. Numa estradinha de terra nos arredores de Nova Friburgo, vimos aquela cena, paramos e Cafi clicou. Depois virou capa", lembra Ronaldo. Até hoje, muitos pensam que os meninos são eles, Lô e Milton. Os "atores" involuntários que os representaram jamais apareceram nem se identificaram.
A capa nua, sem créditos para título ou nome dos cantores, era outra afronta que o Clube praticava com mansa discrição. Outra ainda era o fato de ser um álbum duplo. Membros do "clube" gostam de lembrar que esse teria sido o primeiro disco duplo do Brasil, se Fatal (1971), de Gal Costa, não tivesse sido lançado com maior rapidez. Ignoram ou esquecem (como, de resto, quase todo mundo) a existência do duplo Show em Simonal, lançado em 1967 pelo depois proscrito Wilson Simonal.
O primeiro Clube era essencialmente masculino. "Era aquele efeito testosterona total no ar, um monte de homem brigando o tempo todo", brinca Márcio. A única participação feminina é da bossa-novista carioca (e negra) Alaíde Costa, parceira de Milton em descaracterizar Me Deixa em Paz, um samba bravo de Monsueto Menezes em estilhaços de ritmos impuros: Se você não me queria/ não devia me procurar/ não devia me iludir/ nem deixar eu me apaixonar. "Era um ambiente muito legal, gente tão jovem fazendo aquele tipo tão diferente de música", elogia Alaíde.
A cantora e compositora carioca Joyce, então casada com Nelson Angelo, circulava nos bastidores do "clube". Ela lança uma hipótese para explicar o ambiente "clube do Bolinha": "Eu achava uma coisa meio misógina, não havia nenhuma cantora significante no grupo. Depois cheguei à conclusão de que a musa era mesmo Bituca, uma figura sedutora, disputada, por quem todos eram musicalmente apaixonados. Todos compunham pensando em como soaria na voz dele. Isso é que é uma musa, não é?"
Como lembra Ronaldo, havia musas mais ou menos secretas, como Nana Caymmi, para quem ele fez a letra de Cais, ou Dina Sfat, inspiradora de Cravo e Canela. E havia Elis Regina, pioneira em gravar Milton e o "clube".
Foi pela voz dela que vieram à luz, nos princípios da abertura política, alguns dos versos-símbolo do Clube 2, feitos por Brant para O Que Foi Feito Devera, que ecoa e reverbera na edição restaurada 35 anos depois. Se muito vale o já feito/ mais vale o que será/ e o que foi feito é preciso conhecer/ para melhor prosseguir.
(*) errata 1: fernando brant nasceu em caldas, e não em poços de caldas; copiei o dado do dicionário cravo albim da música popular brasileira, e... errei!
(**) errata 2: milton nascimento não é co-autor de "para lennon e mccartney" com lô e márcio borges. fernando brant é que é. e dessa vez eu errei por mim mesmo... e meus agradecimentos ao fernando em pessoa por me obrigar às justas erratas.
Sexta-feira, Março 14, 2008
morro dois irmãos
há uma novidade. a princípio rudimentar, ainda insular, peninsular. tateante.
http://pedroalexandresanches.wordpress.com/ é o endereço, neste comecinho. é meu novo blog, um blog musical (cujo nome alguns hão de reconhecer doutros carnavais), vinculado ao site da "carta capital".
minha idéia inicial é usar o novo blog para escrever sobre música, de um modo mais profissional, mais jornalístico, mais compenetrado que as viagens na maionese que volta e meia permeiam o presente e já idoso antepassado.
a propósito, este http://pedroalexandresanches.blogspot.com pretende continuar existindo, firme & forte (& de pernas bambas).
se o novo filhote preferirá se concentrar na paixão pela música, este aqui optará por fazer sei lá o quê. possivelmente seguirá exercitando paixões que, embora talvez nem pareçam, são ainda maiores que a musical (a qual, obviamente, deve continuar presente e dominante) - a paixão pelo jornalismo, a paixão pela escrita, a paixão pela opinião, a paixão pela(s) identidade(s).
e é isso, e vamos ver no que é que vão dar essas novas experiências, esses novos trânsitos e essas novas interligações. as regras lá não serão exatamente as mesmas daqui. a princípio, não pretendo seguir, por exemplo, a regrinha ora libertadora, ora aprisionadora daqui, de responder quase-obrigatoriamente quase-toda mensagem. lá os comentários serão moderados, aqui continuarão livres, a menos que a rota monótona dos abusos (que vez por outra nos rondaram e rondam perigosamente por aqui) me obrigue a fazê-lo. são meandros que irão se definindo e se delineando aos poucos, ao sabor das corredeiras.
enfim, convido a todos que costumam passeam por aqui para dar uns pulinhos também no blog-irmão. já há alguns escritos boiando por ali.
http://pedroalexandresanches.wordpress.com/, é ele.
http://pedroalexandresanches.wordpress.com/ é o endereço, neste comecinho. é meu novo blog, um blog musical (cujo nome alguns hão de reconhecer doutros carnavais), vinculado ao site da "carta capital".
minha idéia inicial é usar o novo blog para escrever sobre música, de um modo mais profissional, mais jornalístico, mais compenetrado que as viagens na maionese que volta e meia permeiam o presente e já idoso antepassado.
a propósito, este http://pedroalexandresanches.blogspot.com pretende continuar existindo, firme & forte (& de pernas bambas).
se o novo filhote preferirá se concentrar na paixão pela música, este aqui optará por fazer sei lá o quê. possivelmente seguirá exercitando paixões que, embora talvez nem pareçam, são ainda maiores que a musical (a qual, obviamente, deve continuar presente e dominante) - a paixão pelo jornalismo, a paixão pela escrita, a paixão pela opinião, a paixão pela(s) identidade(s).
e é isso, e vamos ver no que é que vão dar essas novas experiências, esses novos trânsitos e essas novas interligações. as regras lá não serão exatamente as mesmas daqui. a princípio, não pretendo seguir, por exemplo, a regrinha ora libertadora, ora aprisionadora daqui, de responder quase-obrigatoriamente quase-toda mensagem. lá os comentários serão moderados, aqui continuarão livres, a menos que a rota monótona dos abusos (que vez por outra nos rondaram e rondam perigosamente por aqui) me obrigue a fazê-lo. são meandros que irão se definindo e se delineando aos poucos, ao sabor das corredeiras.
enfim, convido a todos que costumam passeam por aqui para dar uns pulinhos também no blog-irmão. já há alguns escritos boiando por ali.
http://pedroalexandresanches.wordpress.com/, é ele.
Sexta-feira, Março 07, 2008
assaltaram os comandos paragramaticais
aí eu tava lendo a capa da "caros amigos", uma entrevista com o professor e lingüista marcos bagno, autor de livros chamados "preconceito lingüístico" e "a norma oculta".
e olha só que maravilhosas, que supimpas, que do balacobaco, as posições que ele defende sobre esta nossa língua brasileira.
ai, há quanto tempo eu pensava essas coisas e não sabia traduzir em palavras, não sabia explicar, não sabia nem mesmo entender!
seguem trechins, com grifos e itálicos sempre meus, de maringaense contente com o que tô escutando:
"Do ponto de vista científico, a gente nunca fala que existe uma forma mais nobre ou inferior ou mais rebaixada de usar a língua. (...) Do ponto de vista da lingüística científica não existe nenhuma diferença entre 'nós vai' e 'nós vamos'. As duas têm razão de ser, têm uma lógica interna, respondem ao processo de transforamação da própria língua."
"Como indivíduo, o Lula representa uma história muito interessante, porque ele foi se apropriando das normas lingüísticas de prestígio sem abandonar a sua variedade lingüística de origem. É um ator lingüístico de muito boa qualidade, até brincou com isso uma vez: 'Lembram-se quando eu falava 'menas'? Agora falo 'concomitantemente''. Ele não trocou uma coisa pela outra, continua usando esses dois conjuntos de falares quando lhe interessa usar esse ou aquele."
"A discriminação pela linguagem é uma das pouquíssimas coisas que unem o espectro político de ponta a ponta. Numa pessoa de extrema esquerda ou de extrema direita, você vai encontrar as mesmas declarações a respeito da língua: que o brasileiro fala mal o português, que é preciso melhorar a maneira como a gente fala, que estamos estropiando a gramática." [ele não concorda com isso, cê entendeu, né? eu também não concordo.]
"[comandos paragramaticais] É uma expressão que eu criei, tem uma função irônica mesmo, são essas iniciativas que hoje a gente percebe nos grandes meios de comunicação, de defesa, entre aspas, do português correto. Esses comandos paragramaticais são representados principalmente nas colunas de grandes jornais e revistas, têm seus consultórios gramaticais. Programas de televisão, programas de rádio, sites na Internet, livros do tipo Três Milhões de Erros que Você Deve Evitar, coisas assim. Eles vêm na contramão de tudo o que se faz em termos de pesquisa científica e também em termos de políticas oficiais de educação E temos aí um confronto muito grande, porque as diretrizes oficiais de ensino no Brasil já há mais de dez anos vêm trabalhando com concepções muito mais avançadas de linguagem, com o conceito de variação lingüística, com a discussão do preconceito lingüístico. (...) Então temos um discurso educacional, científico, acadêmico, muito mais avançado e, infelizmente, na grande mídia essa tentativa de perpetuar o português falado em Portugal no século 19."
[êita, que dona mídia só toma cacetada mesmo, de tudo quanto é lado, hum? também. quem mandou merecer?]
"(...) o que é variante, o que é estranho, o que é exótico é sempre o outro, o que não está aqui. Então quando vão falar de variação lingüística, vão mostrar o Nordeste, o caipira, sempre uma coisa meio estereotipada. Mas as coisas vão avançando, pelo menos já se fala desse tema nas escolas."
"É que muitas crianças que supostamente têm dificuldades de aprendizagem, na verdade têm dificuldade de compreender a linguagem empregada pelos professores, porque eles são falantes de uma variante lingüística diferente, principalmente quando se trata de zona rural ou de periferias de grandes cidades. São problemas de comunicação dialetal que precisam ser conhecidos pelos professores e, em seguida, enfrentados com um instrumental teórico e pedagógico adequado."
"Agora, as diferentes realidades provocam diferentes desafios para implementar essa idéia. A partir mesmo da formação dos professores, dos seus próprios preconceitos, de sua tradição de achar que é importante saber o que é uma oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de particípio, que tem que saber disso para ser alguém na vida, quando a gente sabe que isso não serve para nada."
"Quando estudamos a história da língua portuguesa percebemos que muitas palavras que hoje têm um encontro consonantal com r, como por exemplo branco, escravo, igreja, prata, praia, na língua de origem, principalmente no latim, aparecia ali um l, então prata em espanhol é plata. Escravo era esclavo, então os habitantes da Lusitânia, onde está Portugal hoje, ao passarem a falar latim, introduziram no latim hábitos fonéticos das suas línguas originais e um desses foi justamente o que a gente chama de rotacismo, que é a passagem do le para re. Então o brasileiro que fala Cráudia, chicrete, Rede Grobo está simplesmente seguindo uma tendência milenar da língua portuguesa." [ah, que bonito, que bonito, que bonito!!!]
"(...) a separação entre essas duas formas é nitidamente social, é uma clivagem social de quem fala 'broco' e quem fala bloco." {opa, que a própria 'caros amigos' (se) clivou, né?, botou aspas no broco e deixou o blocão desaspado...]
"As pessoas chamam de norma culta um padrão lingüístico instituído pelas gramáticas normativas, e também a maneira de falar das pessoas privilegiadas, e existe um abismo entre essas duas coisas porque, se a gente for seguir o padrão das gramáticas normativas, temos que continuar usando vós, mesóclise, coisa que nenhum brasileiro de mente sadia usa, 'esse livro dar-vo-lo-ei amanhã', isso não é português brasileiro, nem português de Portugal, mas é a norma padrão, é o que está lá prescrito."
"O aluno chega na escola já perfeitamente conhecedor da sua língua materna, da sua variedade lingüística, tem toda a gramática da língua na cabeça, então o trabalho da escola vai ser não negar o que ele já sabe, mas partir do que ele já sabe e apresentar a ele outras maneiras, outras formas. (...) Ele já sabe disso intuitivamente, uma criança sabe que não pode falar com outra criança da sua idade da mesma maneira como fala com um adulto, com uma pessoa de quem tem medo ou por quem ela tem respeito."
"É recorrente esse discurso de que a língua de hoje representa um estado deteriorado de uma suposta época de ouro no passado. A gente encontra isso em qualquer língua, em toda a história, desde pelo menos o século 3 a.C., e para o lingüista isso não faz o menor sentido. As línguas se transformam, mudam nem pra melhor, nem pra pior, simplesmente mudam para atender às necessidades cognitivas e interacionais de seus falantes. Porque, se quiséssemos manter a pureza do português, teríamos que falar latim, mas o latim já é uma língua derivada de outra, então, se a gente quisesse manter a pureza do latim, a gente teria que falar indo-europeu, que é uma língua falada 5.000 antos antes de Cristo."
"[a norma padrão no brasil] é fruto de nosso processo colonial, a tentativa das nossas elites desde sempre de se afastar do vulgo, do populacho, da negraiada, da indiada e criar uma casta branca superior, europeizada. E essas bendidas formas brasileiras continuam sendo consideradas erros a ser evitados, e vai o Pasquale Cipro Neto vociferar na televisão e na Folha de S.Paulo que aquilo ali não pode, que é língua de índio, de pobre, de burro."
[ai, putzgrila, eu confesso: eu sou uma pessoa que sofreu a lavagem cerebral do prof. pardale!! me ensinou umas várias coisas úteis e bacanas lá naquelas imersões de doutrinação nas entranhas da "folha", confesso também. mas, ói, em parte por conta dos campinhos de concentração do prof. pasquale, carrego até hoje uma culpa arraigada dentro de mim, toda vez que sinto vontade de falar "esposa", "falecer", "este ano", mil etceteras quetais. arre.]
"A escola é um agente de reprodução dessas formas 'legítimas' de falar, então, principalmente para as camadas populares, ela não permite o acesso às formas privilegiadas e também não reconhece a forma de falar original do estudante; tem aí um problema social muito grave."
"Infelizmente, figuras como Adoniran Barbosa, Patativa do Assaré, Luiz Gonzaga [ops! entrou na nossa playa!, esses artistas mais criativos que souberam trabalhar com a linguagem popular, são sempre apresentados, principalmente nos livros didáticos, como coisas pitorescas, que fizeram um trabalho diferente, divertido, mas estão aí no seu lugar; é para manter a distância, mostrar o que não fazer. [porque joão guimarães rosa, esse pode, né? ãhã, tá bão.] O que existe é um medo das elites, dos que detêm o poder cultural, político, econômico etc., de se deixar contaminar pela cultura, pelo modo de ser, de viver do populacho, do vulgo, como se dizia no século 19. É uma perpetuação, digamos, de uma ideologia que vem desde o período colonial, e da Independência [e, somo eu, do escravagismo, né mesmo?]. A tentativa de preservar esse português puro, correto, é querer impedir que a nossa imensa periferia, que está chegando cada vez mais para o centro, tome conta de todos os aspectos da vida social, inclusive da linguagem [ulalá!!!!]"
"Assim como nós hoje não falamos o português de quinhentos anos atrás, daqui a quinhentos anos ninguém vai falar como a gente. O combate entre a norma que vem de cima e a norma que vem de baixo sempre acaba com a vitória da norma que vem de baixo." [ai, nem sei se é mesmo sempre assim, mas... que bonito, que bonito, que bonito!]
"O que acontece com o fenômeno da crase é que a preposição a caiu em desuso no português brasileiro, na maioria das variedades: 'eu telefono para você', 'eu dei um livro para você', 'eu fui para a Bahia', 'eu cheguei em São Paulo'. 'Eu estou no computador, não 'eu estou ao computador'; 'nós estamos na sombra de uma árvore', não 'nós estamos à sombra de uma árvore'. Se a criatura não tem o hábito de usar essa preposição, dificilmente vai conseguir entender esse processo de que o a craseado significa a preposição a mais o artigo. Porque 'ninguém vai à Bahia', 'vamos na Bahia' ou 'para a Bahia'. O brasileiro não vai 'à', ele vai 'em' ou ele vai 'para', por mais que as gramáticas insistam em dizer que é errado. Esse é o português brasileiro contemporâneo que eu defendo, 'eu cheguei em São Paulo', isso de dizer 'cheguei a São Paulo' é lá em Portugal. A dificuldade que a gente tem para saber onde colocar o acento do indicador de crase é por isso, porque a preposição a caiu em desuso." [ai, que lindo, que lindo, que lindo!]
"O morador do Sudeste, principalmente os paulistas, tem uma idéia do Nordeste e do Norte como o americano tem do Brasil. Daquela coisa exótica. Tem paulista que acha que vai chegar em Salvador e todo mundo vai estar vestido de baiana no meio da rua..."
sensacional, não?!
p.s., trazendo o assunto de volta pra música: cê já reparou que o funk carioca (entre vários outros gêneros musicais "pobres") é a igreja evangélica da igreja católica rica e decadente que é mpb?
e olha só que maravilhosas, que supimpas, que do balacobaco, as posições que ele defende sobre esta nossa língua brasileira.
ai, há quanto tempo eu pensava essas coisas e não sabia traduzir em palavras, não sabia explicar, não sabia nem mesmo entender!
seguem trechins, com grifos e itálicos sempre meus, de maringaense contente com o que tô escutando:
"Do ponto de vista científico, a gente nunca fala que existe uma forma mais nobre ou inferior ou mais rebaixada de usar a língua. (...) Do ponto de vista da lingüística científica não existe nenhuma diferença entre 'nós vai' e 'nós vamos'. As duas têm razão de ser, têm uma lógica interna, respondem ao processo de transforamação da própria língua."
"Como indivíduo, o Lula representa uma história muito interessante, porque ele foi se apropriando das normas lingüísticas de prestígio sem abandonar a sua variedade lingüística de origem. É um ator lingüístico de muito boa qualidade, até brincou com isso uma vez: 'Lembram-se quando eu falava 'menas'? Agora falo 'concomitantemente''. Ele não trocou uma coisa pela outra, continua usando esses dois conjuntos de falares quando lhe interessa usar esse ou aquele."
"A discriminação pela linguagem é uma das pouquíssimas coisas que unem o espectro político de ponta a ponta. Numa pessoa de extrema esquerda ou de extrema direita, você vai encontrar as mesmas declarações a respeito da língua: que o brasileiro fala mal o português, que é preciso melhorar a maneira como a gente fala, que estamos estropiando a gramática." [ele não concorda com isso, cê entendeu, né? eu também não concordo.]
"[comandos paragramaticais] É uma expressão que eu criei, tem uma função irônica mesmo, são essas iniciativas que hoje a gente percebe nos grandes meios de comunicação, de defesa, entre aspas, do português correto. Esses comandos paragramaticais são representados principalmente nas colunas de grandes jornais e revistas, têm seus consultórios gramaticais. Programas de televisão, programas de rádio, sites na Internet, livros do tipo Três Milhões de Erros que Você Deve Evitar, coisas assim. Eles vêm na contramão de tudo o que se faz em termos de pesquisa científica e também em termos de políticas oficiais de educação E temos aí um confronto muito grande, porque as diretrizes oficiais de ensino no Brasil já há mais de dez anos vêm trabalhando com concepções muito mais avançadas de linguagem, com o conceito de variação lingüística, com a discussão do preconceito lingüístico. (...) Então temos um discurso educacional, científico, acadêmico, muito mais avançado e, infelizmente, na grande mídia essa tentativa de perpetuar o português falado em Portugal no século 19."
[êita, que dona mídia só toma cacetada mesmo, de tudo quanto é lado, hum? também. quem mandou merecer?]
"(...) o que é variante, o que é estranho, o que é exótico é sempre o outro, o que não está aqui. Então quando vão falar de variação lingüística, vão mostrar o Nordeste, o caipira, sempre uma coisa meio estereotipada. Mas as coisas vão avançando, pelo menos já se fala desse tema nas escolas."
"É que muitas crianças que supostamente têm dificuldades de aprendizagem, na verdade têm dificuldade de compreender a linguagem empregada pelos professores, porque eles são falantes de uma variante lingüística diferente, principalmente quando se trata de zona rural ou de periferias de grandes cidades. São problemas de comunicação dialetal que precisam ser conhecidos pelos professores e, em seguida, enfrentados com um instrumental teórico e pedagógico adequado."
"Agora, as diferentes realidades provocam diferentes desafios para implementar essa idéia. A partir mesmo da formação dos professores, dos seus próprios preconceitos, de sua tradição de achar que é importante saber o que é uma oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de particípio, que tem que saber disso para ser alguém na vida, quando a gente sabe que isso não serve para nada."
"Quando estudamos a história da língua portuguesa percebemos que muitas palavras que hoje têm um encontro consonantal com r, como por exemplo branco, escravo, igreja, prata, praia, na língua de origem, principalmente no latim, aparecia ali um l, então prata em espanhol é plata. Escravo era esclavo, então os habitantes da Lusitânia, onde está Portugal hoje, ao passarem a falar latim, introduziram no latim hábitos fonéticos das suas línguas originais e um desses foi justamente o que a gente chama de rotacismo, que é a passagem do le para re. Então o brasileiro que fala Cráudia, chicrete, Rede Grobo está simplesmente seguindo uma tendência milenar da língua portuguesa." [ah, que bonito, que bonito, que bonito!!!]
"(...) a separação entre essas duas formas é nitidamente social, é uma clivagem social de quem fala 'broco' e quem fala bloco." {opa, que a própria 'caros amigos' (se) clivou, né?, botou aspas no broco e deixou o blocão desaspado...]
"As pessoas chamam de norma culta um padrão lingüístico instituído pelas gramáticas normativas, e também a maneira de falar das pessoas privilegiadas, e existe um abismo entre essas duas coisas porque, se a gente for seguir o padrão das gramáticas normativas, temos que continuar usando vós, mesóclise, coisa que nenhum brasileiro de mente sadia usa, 'esse livro dar-vo-lo-ei amanhã', isso não é português brasileiro, nem português de Portugal, mas é a norma padrão, é o que está lá prescrito."
"O aluno chega na escola já perfeitamente conhecedor da sua língua materna, da sua variedade lingüística, tem toda a gramática da língua na cabeça, então o trabalho da escola vai ser não negar o que ele já sabe, mas partir do que ele já sabe e apresentar a ele outras maneiras, outras formas. (...) Ele já sabe disso intuitivamente, uma criança sabe que não pode falar com outra criança da sua idade da mesma maneira como fala com um adulto, com uma pessoa de quem tem medo ou por quem ela tem respeito."
"É recorrente esse discurso de que a língua de hoje representa um estado deteriorado de uma suposta época de ouro no passado. A gente encontra isso em qualquer língua, em toda a história, desde pelo menos o século 3 a.C., e para o lingüista isso não faz o menor sentido. As línguas se transformam, mudam nem pra melhor, nem pra pior, simplesmente mudam para atender às necessidades cognitivas e interacionais de seus falantes. Porque, se quiséssemos manter a pureza do português, teríamos que falar latim, mas o latim já é uma língua derivada de outra, então, se a gente quisesse manter a pureza do latim, a gente teria que falar indo-europeu, que é uma língua falada 5.000 antos antes de Cristo."
"[a norma padrão no brasil] é fruto de nosso processo colonial, a tentativa das nossas elites desde sempre de se afastar do vulgo, do populacho, da negraiada, da indiada e criar uma casta branca superior, europeizada. E essas bendidas formas brasileiras continuam sendo consideradas erros a ser evitados, e vai o Pasquale Cipro Neto vociferar na televisão e na Folha de S.Paulo que aquilo ali não pode, que é língua de índio, de pobre, de burro."
[ai, putzgrila, eu confesso: eu sou uma pessoa que sofreu a lavagem cerebral do prof. pardale!! me ensinou umas várias coisas úteis e bacanas lá naquelas imersões de doutrinação nas entranhas da "folha", confesso também. mas, ói, em parte por conta dos campinhos de concentração do prof. pasquale, carrego até hoje uma culpa arraigada dentro de mim, toda vez que sinto vontade de falar "esposa", "falecer", "este ano", mil etceteras quetais. arre.]
"A escola é um agente de reprodução dessas formas 'legítimas' de falar, então, principalmente para as camadas populares, ela não permite o acesso às formas privilegiadas e também não reconhece a forma de falar original do estudante; tem aí um problema social muito grave."
"Infelizmente, figuras como Adoniran Barbosa, Patativa do Assaré, Luiz Gonzaga [ops! entrou na nossa playa!, esses artistas mais criativos que souberam trabalhar com a linguagem popular, são sempre apresentados, principalmente nos livros didáticos, como coisas pitorescas, que fizeram um trabalho diferente, divertido, mas estão aí no seu lugar; é para manter a distância, mostrar o que não fazer. [porque joão guimarães rosa, esse pode, né? ãhã, tá bão.] O que existe é um medo das elites, dos que detêm o poder cultural, político, econômico etc., de se deixar contaminar pela cultura, pelo modo de ser, de viver do populacho, do vulgo, como se dizia no século 19. É uma perpetuação, digamos, de uma ideologia que vem desde o período colonial, e da Independência [e, somo eu, do escravagismo, né mesmo?]. A tentativa de preservar esse português puro, correto, é querer impedir que a nossa imensa periferia, que está chegando cada vez mais para o centro, tome conta de todos os aspectos da vida social, inclusive da linguagem [ulalá!!!!]"
"Assim como nós hoje não falamos o português de quinhentos anos atrás, daqui a quinhentos anos ninguém vai falar como a gente. O combate entre a norma que vem de cima e a norma que vem de baixo sempre acaba com a vitória da norma que vem de baixo." [ai, nem sei se é mesmo sempre assim, mas... que bonito, que bonito, que bonito!]
"O que acontece com o fenômeno da crase é que a preposição a caiu em desuso no português brasileiro, na maioria das variedades: 'eu telefono para você', 'eu dei um livro para você', 'eu fui para a Bahia', 'eu cheguei em São Paulo'. 'Eu estou no computador, não 'eu estou ao computador'; 'nós estamos na sombra de uma árvore', não 'nós estamos à sombra de uma árvore'. Se a criatura não tem o hábito de usar essa preposição, dificilmente vai conseguir entender esse processo de que o a craseado significa a preposição a mais o artigo. Porque 'ninguém vai à Bahia', 'vamos na Bahia' ou 'para a Bahia'. O brasileiro não vai 'à', ele vai 'em' ou ele vai 'para', por mais que as gramáticas insistam em dizer que é errado. Esse é o português brasileiro contemporâneo que eu defendo, 'eu cheguei em São Paulo', isso de dizer 'cheguei a São Paulo' é lá em Portugal. A dificuldade que a gente tem para saber onde colocar o acento do indicador de crase é por isso, porque a preposição a caiu em desuso." [ai, que lindo, que lindo, que lindo!]
"O morador do Sudeste, principalmente os paulistas, tem uma idéia do Nordeste e do Norte como o americano tem do Brasil. Daquela coisa exótica. Tem paulista que acha que vai chegar em Salvador e todo mundo vai estar vestido de baiana no meio da rua..."
sensacional, não?!
p.s., trazendo o assunto de volta pra música: cê já reparou que o funk carioca (entre vários outros gêneros musicais "pobres") é a igreja evangélica da igreja católica rica e decadente que é mpb?
Quarta-feira, Março 05, 2008
amanhã ou depois de amanhã
desde os tempos do onça eu ouço milton nascimento, desde os tempos do ronca. não que eu quisesse ou não, é que ele sempre esteve em toda e qualquer esquina do brasil, quiséssemos nós ou não. é como roberto carlos, você pode até detestar, mas eu tenho certeza absoluta de que passou boa parte da sua vida ouvindo as canções dele(s).
durante muito tempo, a maior parte do tempo, eu ouvi milton nascimento (e, de quebra, toda a constelação rebelde que orbitou ao redor dele no chamado "clube da esquina") com um misto de desinteresse, repulsa, irritação, constangimento, antipatia... mais que tudo, diria que o ouvi desconcertado, e por isso mesmo preferindo fugir a escutar, pensar, assimilar, interagir.
mas isso foi no tempo do ronca (alô, pablo, você que tem o mesmo nome de uma canção do milton). depois, devagarzinho, fui aprendendo a reposicionar milton nascimento (& cia.) dentro do meu ouvido – a ponto de atualmente, em não poucos momentos, ter vontade de chorar quando conecto do meu ouvido para dentro aquele imaginário conturbado e perturbado que ele(s) vocalizava(m) nos tempos do ronca.
porque é - só para ser banal - o milton dos tempos do ronca o que mais me emociona no ano da graça de 2008. é aquele que se confundia e se misturava com lô borges (e com o clube todo, o baile todo, nos bailes da vida) e produzia pétalas de mistério, fragmentos musicais de ponte, de fuga e de estrada como “sentinela”, “beco do mota”, “para lennon e mccartney”, “clube da esquina”, “durango kid”, “tudo que você podia ser”, “cais”, “o trem azul”, “cravo e canela”, “dos cruces”, “um girassol da cor dos seus cabelos”, “san vicente”, “paisagem na janela”, “me deixa em paz”, “nada será como antes”...
publico este textinho impressionista aqui no mesmo momento em que bob dylan deve estar trepado num palco, fazendo um show para os cá de são paulo, e acho que é mais que mera coincidência isso tudo aí. estou, nestes dias mesmo, concluindo uma reportagem sobre o clube da esquina, e me sinto bem mais emocionado e perturbado do que, acho, a reportagem conseguirá expressar no final. como numa nuvem cigana, parece que de repente os tempos do ronca SÃO aqui e agora.
durante muito tempo, a maior parte do tempo, eu ouvi milton nascimento (e, de quebra, toda a constelação rebelde que orbitou ao redor dele no chamado "clube da esquina") com um misto de desinteresse, repulsa, irritação, constangimento, antipatia... mais que tudo, diria que o ouvi desconcertado, e por isso mesmo preferindo fugir a escutar, pensar, assimilar, interagir.
mas isso foi no tempo do ronca (alô, pablo, você que tem o mesmo nome de uma canção do milton). depois, devagarzinho, fui aprendendo a reposicionar milton nascimento (& cia.) dentro do meu ouvido – a ponto de atualmente, em não poucos momentos, ter vontade de chorar quando conecto do meu ouvido para dentro aquele imaginário conturbado e perturbado que ele(s) vocalizava(m) nos tempos do ronca.
porque é - só para ser banal - o milton dos tempos do ronca o que mais me emociona no ano da graça de 2008. é aquele que se confundia e se misturava com lô borges (e com o clube todo, o baile todo, nos bailes da vida) e produzia pétalas de mistério, fragmentos musicais de ponte, de fuga e de estrada como “sentinela”, “beco do mota”, “para lennon e mccartney”, “clube da esquina”, “durango kid”, “tudo que você podia ser”, “cais”, “o trem azul”, “cravo e canela”, “dos cruces”, “um girassol da cor dos seus cabelos”, “san vicente”, “paisagem na janela”, “me deixa em paz”, “nada será como antes”...
publico este textinho impressionista aqui no mesmo momento em que bob dylan deve estar trepado num palco, fazendo um show para os cá de são paulo, e acho que é mais que mera coincidência isso tudo aí. estou, nestes dias mesmo, concluindo uma reportagem sobre o clube da esquina, e me sinto bem mais emocionado e perturbado do que, acho, a reportagem conseguirá expressar no final. como numa nuvem cigana, parece que de repente os tempos do ronca SÃO aqui e agora.
Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008
meu samba encabulado
o tempo anda curto, apertado, nem tenho conseguido parar para escrever algo elaborado cá neste valioso e querido espaço.
ainda na correria, tentemos um paliativo, então. primeiro, segue aí abaixo texto publicado na "carta capital" 484 (27 de fevereiro de 2008), com novidades e memórias sobre cristina buarque.
o relato não se esgotava na curta reportagem, longe disso, e agora tentamos fazer os dutos vazarem para o www.cartacapital.com.br, onde foi inserida, em três partes, a íntegra da entrevista com a (grande, embora discretíssima) artista. os links respectivos aparecem na seqüência, na beiradinha final do tópico. e, como diria aquela loura que foi "famosa" no século passado, a gente volta já, já.
A GARIMPEIRA SECRETA
"Às vezes quero parar, não é uma coisa que eu goste tanto de fazer." A autora da frase é Cristina Buarque, 57 anos, e se refere ao ofício que ela abraça desde os 16 anos de idade, o de cantora. "De show, tenho pavor. Gosto muito de gravar, de estúdio, ensaio, amizade com músicos. Mas daquele negócio de público não gosto, nunca gostei. Gosto de fazer coro, agora estou no de Paulinho da Viola, isso eu adoro. Você fica lá atrás, é mais tranqüilo, menos responsabilidade."
Sem presença ostensiva ou peso comercial na música brasileira, Cristina tem sido uma trabalhadora incansável do samba, ao menos desde 1974, quando lançou um primeiro álbum solo. E, embora invariavelmente discreta, anda em plena atividade, como no álbum duplo O Samba Informal de Mauro Duarte (Deckdisc), que divide com o grupo Samba de Fato, às vezes quase como coadjuvante, mas sempre com elegância e precisão.
"Eu até hoje praticamente não fiz sucesso, né? Insisto, meio contra a vontade, mas não sou assim um noooome... Miúcha tem um pouco mais de nome", ri, citando outra das irmãs cantoras e deixando de banda o mano mais famoso, Chico Buarque. Foi em dueto com ele que fez uma das primeiras gravações, de Sem Fantasia, em 1968. Mas a afinidade com o samba ela credita a outro irmão mais velho, Sergito. "Escutava muito os discos dele, de Aracy de Almeida, Mario Reis, Cyro Monteiro. Desde nova tinha preferência por esse tipo de velharia", ri.
Lembra a primeira gravação, em 1967, num disco em homenagem ao sambista paulista Paulo Vanzolini. "Ele era muito amigo dos meus pais, então minha mãe não reclamou muito. Ela tinha muito medo dessa coisa de ser artista, não gostava, não. Ainda mais eu, que era muito nova, estava estudando, sempre fui meio vagabunda na escola."
Ora, mas não havia, desde então, um vencedor de festival de música dentro de casa? "É, ele já fazia bastante sucesso. Mas sabe como é, é homem, né?", ri mais uma vez. "Estudei, fiz o que mamãe queria, entrei na faculdade de fonoaudiologia. Mas não terminei. Não foi nem por causa de música, eu já estava com muito filho. Na época eram dois, agora são cinco."
Alternou os papéis de mãe e cantora, entre 1974 e 1985, com cinco discos tão pouco difundidos quanto memoráveis e, hoje, influentes entre artistas mais jovens, como a discípula Teresa Cristina. "Ah, Teresa é amiga da gente", minimiza. "Ela às vezes faz um negócio legal, mas não é tudo", avalia, qual mãe protetora e exigente.
O rótulo de pesquisadora, às vezes apenso a ela pela constância com que garimpa e revela temas esquecidos nos baús do samba, é outro que não lhe agrada. "Não gosto muito, porque conheço vários pesquisadores, é um trabalho sério o que fazem. O meu é muito superficial." Tampouco sambista ela se considera: "Sou meio encabulada para ser sambista. Sambista tem que sambar, é uma coisa mais... completa, talvez. Mas eu canto samba", ri por último, do alto da autoridade modesta de mãe, madrinha, cantora, descobridora e redescobridora de sambas.
entrevista, parte 1
entrevista, parte 2
entrevista, parte 3
ainda na correria, tentemos um paliativo, então. primeiro, segue aí abaixo texto publicado na "carta capital" 484 (27 de fevereiro de 2008), com novidades e memórias sobre cristina buarque.
o relato não se esgotava na curta reportagem, longe disso, e agora tentamos fazer os dutos vazarem para o www.cartacapital.com.br, onde foi inserida, em três partes, a íntegra da entrevista com a (grande, embora discretíssima) artista. os links respectivos aparecem na seqüência, na beiradinha final do tópico. e, como diria aquela loura que foi "famosa" no século passado, a gente volta já, já.
A GARIMPEIRA SECRETA
"Às vezes quero parar, não é uma coisa que eu goste tanto de fazer." A autora da frase é Cristina Buarque, 57 anos, e se refere ao ofício que ela abraça desde os 16 anos de idade, o de cantora. "De show, tenho pavor. Gosto muito de gravar, de estúdio, ensaio, amizade com músicos. Mas daquele negócio de público não gosto, nunca gostei. Gosto de fazer coro, agora estou no de Paulinho da Viola, isso eu adoro. Você fica lá atrás, é mais tranqüilo, menos responsabilidade."
Sem presença ostensiva ou peso comercial na música brasileira, Cristina tem sido uma trabalhadora incansável do samba, ao menos desde 1974, quando lançou um primeiro álbum solo. E, embora invariavelmente discreta, anda em plena atividade, como no álbum duplo O Samba Informal de Mauro Duarte (Deckdisc), que divide com o grupo Samba de Fato, às vezes quase como coadjuvante, mas sempre com elegância e precisão.
"Eu até hoje praticamente não fiz sucesso, né? Insisto, meio contra a vontade, mas não sou assim um noooome... Miúcha tem um pouco mais de nome", ri, citando outra das irmãs cantoras e deixando de banda o mano mais famoso, Chico Buarque. Foi em dueto com ele que fez uma das primeiras gravações, de Sem Fantasia, em 1968. Mas a afinidade com o samba ela credita a outro irmão mais velho, Sergito. "Escutava muito os discos dele, de Aracy de Almeida, Mario Reis, Cyro Monteiro. Desde nova tinha preferência por esse tipo de velharia", ri.
Lembra a primeira gravação, em 1967, num disco em homenagem ao sambista paulista Paulo Vanzolini. "Ele era muito amigo dos meus pais, então minha mãe não reclamou muito. Ela tinha muito medo dessa coisa de ser artista, não gostava, não. Ainda mais eu, que era muito nova, estava estudando, sempre fui meio vagabunda na escola."
Ora, mas não havia, desde então, um vencedor de festival de música dentro de casa? "É, ele já fazia bastante sucesso. Mas sabe como é, é homem, né?", ri mais uma vez. "Estudei, fiz o que mamãe queria, entrei na faculdade de fonoaudiologia. Mas não terminei. Não foi nem por causa de música, eu já estava com muito filho. Na época eram dois, agora são cinco."
Alternou os papéis de mãe e cantora, entre 1974 e 1985, com cinco discos tão pouco difundidos quanto memoráveis e, hoje, influentes entre artistas mais jovens, como a discípula Teresa Cristina. "Ah, Teresa é amiga da gente", minimiza. "Ela às vezes faz um negócio legal, mas não é tudo", avalia, qual mãe protetora e exigente.
O rótulo de pesquisadora, às vezes apenso a ela pela constância com que garimpa e revela temas esquecidos nos baús do samba, é outro que não lhe agrada. "Não gosto muito, porque conheço vários pesquisadores, é um trabalho sério o que fazem. O meu é muito superficial." Tampouco sambista ela se considera: "Sou meio encabulada para ser sambista. Sambista tem que sambar, é uma coisa mais... completa, talvez. Mas eu canto samba", ri por último, do alto da autoridade modesta de mãe, madrinha, cantora, descobridora e redescobridora de sambas.
entrevista, parte 1
entrevista, parte 2
entrevista, parte 3
Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008
tropa de elite
(quase) nada a ver com aquele "acidente" que aconteceu lá em berlim, tá?, mas é que há tempos eu andava querendo voltar a "falar" sobre meus estimados volks desde que capturei por aí estas três imagens a mais.
dos três pimpolhos abaixo, o único em que tive oportunidade de passear foi o primeiro (obrigado, taís!). sobre o segundo, pfff, acho que já era, você sabe, né? no terceiro, acho melhor não passear.



mas taí, tropa d'elite ou não d'elite, por mais camuflado, maquiado ou misturado na paisagem que possa estar, não tem jeito. é nóis, somos nós, tá dentro de nós e de nós ninguém tira, nem a torniquete.
dos três pimpolhos abaixo, o único em que tive oportunidade de passear foi o primeiro (obrigado, taís!). sobre o segundo, pfff, acho que já era, você sabe, né? no terceiro, acho melhor não passear.


mas taí, tropa d'elite ou não d'elite, por mais camuflado, maquiado ou misturado na paisagem que possa estar, não tem jeito. é nóis, somos nós, tá dentro de nós e de nós ninguém tira, nem a torniquete.
Sábado, Fevereiro 16, 2008
osso duro de roer
olha, não sei se vai haver barulheira reativa à direita (ou vai haver silêncio ensurdecedor, será?), mas eu fico muito, muito, muito feliz com esta tremenda notícia aqui, ó:
"'Tropa de Elite' vence Urso de Ouro em Berlim
Da Redação
O filme brasileiro 'Tropa de Elite', de José Padilha, foi o vencedor do Urso de Ouro de Melhor Filme em Berlim. O Urso de Prata ficou com o documentário sobre tortura em em Abu Ghraib 'Standard Operating Procedure', do norte-americano Errol Morris.
'É difícil expressar sentimientos em qualquer língua. Costa-Gavras é um herói para todos na América Latina, por todos os filmes que fez', disse o diretor brasileiro ao receber o prêmio das mãos do presidente do júri, o diretor franco-grego Constantin Costa-Gavras.
Apesar da recepção majoritariamente negativa que teve na mídia internacional -a produção brasileira chegou a ser chamada de 'fascista' pela revista americana 'Variety'-, 'Tropa de Elite' desbancou os favoritos 'Sangue Negro', de Paul Thomas Anderson, e a comédia 'Happy-Go-Lucky', de Mike Leigh (...)".
e só fazendo uma ressalva ao texto escrito ali pelo uol: pelo que me conste a "mídia internacional" que tachou "tropa de elite" de fascista foi a americana, quero dizer, a norte-americana, ou melhor, a estadunidense [p.s.: ou eu tô falando bobagem?, a imprensa européia também caiu de pau?, alguém sabe?]. aquela mesma que a gente dificilmente vê tachar de "fascistas", com a mesma desenvoltura, filmes de rambo, filmes (ou governos) de schwarzenegger, guerras no iraque (p.s.: e kill-bills - já reparou a chacina de latinos e orientais que costumam ser os filmes do darling tarantino?) e tal e coisa.
por sinal, o filme que ficou em segundo lugar, ao que dizem, fala sobre tortura em abu ghraib. o vencedor fala sobre tortura no brasil, ou melhor, na américa do sul, quero dizer, na américa latina, digo, na américa, upa, no mundo. aqui, neste "depósito" de "marginais" (ex-)escondido nos "porões" da "américa". não sei se o filme de abu ghraib tem sido "denunciado" como fascista pela "mídia internacional", por quem costuma aceitar, legitimar e financiar silenciosamente torturas e fascismos a granel. do filme que ficou em primeiro lugar, eu sei.
cê tá entendendo?
mas, só para ser ainda mais explícito: meus parabéns a este brasil que quer se ver cada vez mais e se mostrar ao outro cada vez mais. e não àquele brasil sempre sufocado em fumaça, névoa e lacerdismo (que, graças aos orixás, cada vez mais parece encolher). parabéns para o padilha, para tu, para mim, para nós.
"'Tropa de Elite' vence Urso de Ouro em Berlim
Da Redação
O filme brasileiro 'Tropa de Elite', de José Padilha, foi o vencedor do Urso de Ouro de Melhor Filme em Berlim. O Urso de Prata ficou com o documentário sobre tortura em em Abu Ghraib 'Standard Operating Procedure', do norte-americano Errol Morris.
'É difícil expressar sentimientos em qualquer língua. Costa-Gavras é um herói para todos na América Latina, por todos os filmes que fez', disse o diretor brasileiro ao receber o prêmio das mãos do presidente do júri, o diretor franco-grego Constantin Costa-Gavras.
Apesar da recepção majoritariamente negativa que teve na mídia internacional -a produção brasileira chegou a ser chamada de 'fascista' pela revista americana 'Variety'-, 'Tropa de Elite' desbancou os favoritos 'Sangue Negro', de Paul Thomas Anderson, e a comédia 'Happy-Go-Lucky', de Mike Leigh (...)".
e só fazendo uma ressalva ao texto escrito ali pelo uol: pelo que me conste a "mídia internacional" que tachou "tropa de elite" de fascista foi a americana, quero dizer, a norte-americana, ou melhor, a estadunidense [p.s.: ou eu tô falando bobagem?, a imprensa européia também caiu de pau?, alguém sabe?]. aquela mesma que a gente dificilmente vê tachar de "fascistas", com a mesma desenvoltura, filmes de rambo, filmes (ou governos) de schwarzenegger, guerras no iraque (p.s.: e kill-bills - já reparou a chacina de latinos e orientais que costumam ser os filmes do darling tarantino?) e tal e coisa.
por sinal, o filme que ficou em segundo lugar, ao que dizem, fala sobre tortura em abu ghraib. o vencedor fala sobre tortura no brasil, ou melhor, na américa do sul, quero dizer, na américa latina, digo, na américa, upa, no mundo. aqui, neste "depósito" de "marginais" (ex-)escondido nos "porões" da "américa". não sei se o filme de abu ghraib tem sido "denunciado" como fascista pela "mídia internacional", por quem costuma aceitar, legitimar e financiar silenciosamente torturas e fascismos a granel. do filme que ficou em primeiro lugar, eu sei.
cê tá entendendo?
mas, só para ser ainda mais explícito: meus parabéns a este brasil que quer se ver cada vez mais e se mostrar ao outro cada vez mais. e não àquele brasil sempre sufocado em fumaça, névoa e lacerdismo (que, graças aos orixás, cada vez mais parece encolher). parabéns para o padilha, para tu, para mim, para nós.
Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008
as sete vidas de elza
em cartaz neste exato momento, na "carta capital" e/ou no site da revista aqui neste cybermundo paralelo (ou perpendicular?, transverso?):
AS SETE VIDAS DA SAMBISTA
Elza Soares supera crises e vai ao cinema como crooner de gafieira
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
Uma menina mora dentro da Elza Soares que, aos 70 anos, sobe ao palco paulistano do Clube Piratininga na pele de uma crooner de gafieira dedicada a entreter o público predominantemente maduro e idoso que rodopia pelo salão. O baile tem a intenção de apresentar o filme Chega de Saudade, de Laís Bodanzky, que estréia dia 21 de março e é protagonizado por personagens de gafieira vividos sem maquiagem nem glamour global por Tônia Carrero, Leonardo Villar e Betty Faria.
Ao lado do músico mineiro Marku Ribas, Elza interpreta a cantora que anima o baile. E traduz, no dizer da diretora, "a alma do filme", ao surgir cantando a plenos pulmões os versos de Não Deixe o Samba Morrer. No papel de Ana, Elza defronta-se com a menina que foi nos anos 50, quando era crooner de grupos como a Orquestra Tabajara de Severino Araújo em gafieiras como Estudantina e Danúbio Azul.
"Olha, acho que passei por todas as gafieiras que existiram no Rio de Janeiro", ela conta, no minúsculo camarim do Piratininga, após o show. "Não gosto de passado, mas esse foi o início da minha carreira. Não temos mais isso de as pessoas irem para o baile por amor. Virou michê de baile, muitos caras cobram para dançar com as damas. Não sei se o amor que vai volta, mas sou do tempo em que existia amor. As pessoas dançavam porque amavam o baile, a orquestra, os cantores."
Por coincidência, uma das canções selecionadas pelo produtor musical Eduardo BiD para o filme, antes mesmo que a presença de Elza, traz recordações profundas à cantora. É Lama, de versos nostálgicos e amargos como se o meu passado foi lama/ hoje quem me difama/ viveu na lama também, ou se eu errei, se eu pequei/ pouco importa/ se aos teus olhos estou morta/ pra mim morreste também.
"Foi a primeira música que cantei, no programa do Ary Barroso", ela conta. Em seguida, se retrai e fecha o baú de lembranças: "Gozado, eu passei uma borracha no passado. O presente é sempre, passado é passado. Como digo no meu site, my name is now. Eu sou o agora".
Foi com Lama que a adolescente Elza se apresentou, em 1953, no programa do autor de Aquarela do Brasil na Rádio Tupi, Calouros em Desfile. Segundo relata José Louzeiro no livro Elza Soares – Cantando para Não Enlouquecer (Globo, 1997), Ary, espantado com a aparência da menina, perguntou de que planeta ela vinha. "Do planeta fome", ela respondeu.
O "planeta fome" chamava-se Moça Bonita, depois Vila Vintém, uma das primeiras favelas do Rio de Janeiro. O pai trabalhava em pedreira, a mãe era lavadeira, o primeiro marido (com quem se casou, obrigada, aos 12 anos) vivia entre o desemprego e o trabalho informal. Aos 20 anos, Elza havia tido cinco filhos. Um morreu de fome quando ela tinha 15 anos, outro foi doado quando tinha 19. Mãe e menina, trabalhou em hospital psiquiátrico e chegou a pedir comida e dinheiro pelas ruas.
A virada começou no auditório de Ary Barroso, mas foi paulatina. Só foi consolidar presença na música a partir de 1959, quando fez a primeira gravação, Se Acaso Você Chegasse, de Lupicinio Rodrigues. O Brasil vivia o advento da bossa nova e a moda foi utilizada pela Odeon para impulsionar a cantora. O rótulo "a bossa negra" ilustrou os dois primeiros LPs.
Elza nada tinha a ver com a revolução de maciez vocal e musical liderada por João Gilberto e Tom Jobim, mas não deixava de promover, por caminhos mais ríspidos, uma fusão entre samba e jazz comparável àquela dos papas da bossa branca. Desde o início, desafiou os purismos do samba dito "de raiz" e fundiu o ambiente dos morros cariocas a standards como Mack the Knife (de Brecht) e In the Mood (ou Edmundo, em português).
O cruzamento de gêneros tem sido a tônica da obra da artista há 50 anos, como atesta o jovem produtor paulistano Arthur Joly, que em 2003 conduziu a adesão da artista ao funk carioca e à música eletrônica, em Vivo Sonhando [p.s.: aqui cometi um erro, ato falho ou o que seja: o nome do disco é vivo feliz, ô, anta!]. "Ela é uma pessoa intensa, ansiosa, às vezes parece uma criança", diz Joly. "Sou quatro décadas mais novo, mas posso dizer que ela, em alguns momentos, fazia eu me sentir velho. É aberta a novas experiências, sabe fugir do comum, sabe querer ser diferente."
É recorrente a relação com os mais jovens. No Piratininga, canta com o olho atento e respeitoso à orientação do produtor BiD, postado na platéia. Há sete anos vive com o ator Anderson Lugão, de 30 anos. Há pouco, convenceu-o a se tornar cantor, num disco que ela produzirá. E aborda de modo crítico a profissão anterior do marido: "Sou atriz, Grande Otelo foi meu professor (estreou no teatro de revista, em 1955, ao lado dele). Mas a música é bem melhor, porque para negro, em tevê, só tem chibata. Não quero fazer papel de cozinheira, nem levar chibatada".
Anderson, ela diz, foi presença crucial em 2007, um ano especialmente difícil. Em março, à véspera da gravação marcada do CD e DVD Beba-Me, foi hospitalizada com diverticulite. Conta Lugão: "Ela disse 'aqui não fico, tenho de gravar DVD'. O médico disse 'ou você vai, grava e morre, ou fica aqui e vive', aí ela ficou".
O trabalho, bancado pela Biscoito Fino e pelo Canal Brasil, concretizou-se com Elza ainda convalescente, com uma bolsa de colostomia presa ao corpo. Elza canta Volta por Cima, Dura na Queda, A Carne (a carne mais barata do mercado/ é a carne negra) e o Rap da Felicidade (eu só quero é ser feliz/ andar tranqüilamente na favela em que nasci) com expressão de dor, apoiada numa cadeira como suposto objeto de cena. Após a gravação, passou por nova hospitalização e outra cirurgia.
"Eu não queria fazer, por mim não teria feito. Mas fiz, porque a pessoa que queria que fizesse pensava que eu fosse morrer", diz. Coordenador do projeto pela Biscoito Fino, Martinho Filho define Elza como "um norte para o samba" e conta o episódio sob outro prisma: "Estávamos prontos a adiar, mas ela queria gravar".
Agora, o ritmo volta a se acelerar. No dia seguinte ao show de lançamento do CD de Chega de Saudade, partiu para o Recife, onde abriu o carnaval com Naná Vasconcelos. Diante dos altos e baixos, ela simula indiferença. Eles são componentes inseparáveis de sua vida e obra, mesmo após a superação da origem pobre.
Novas tempestades vieram logo após o estouro como cantora, quando iniciou rumoroso romance com o mítico jogador de futebol Garrincha (1933-1983), então casado. Em 1963, gravou Eu Sou a Outra e virou alvo da ira da imprensa, como suposta "destruidora de lares".
Ficou com Garrincha entre 1962 e 1978, quando enfrentou repetidos períodos de ostracismo e o alcoolismo do marido. O filho Garrinchinha morreu num acidente em 1986, aos 9 anos, na volta de uma viagem para conhecer a terra natal do pai. Passou a cantar Meu Guri, de Chico Buarque, outra das muitas canções que em sua voz soam autobiográficas.
Chega de Saudade, em que atua quase como figurante, parece se incorporar à autobiografia involuntária de Elza. "Ela é uma mulher muito sofisticada, que parece nem ter noção de quem é. É tão simples, tão humilde no trabalho, não dá para acreditar que essa mulher, com essa voz, possa se comportar assim", elogia Laís.
A cineasta registra o rosto transformado por sofrimentos e cirurgias plásticas em close, quase entrando pela garganta da cantora, enquanto versos como antes de me despedir/ deixo ao sambista mais novo/ o meu pedido final:/ não deixe o samba morrer/ não deixe o samba acabar emolduram o espírito conturbado do filme, e da própria Elza.
AS SETE VIDAS DA SAMBISTA
Elza Soares supera crises e vai ao cinema como crooner de gafieira
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
Uma menina mora dentro da Elza Soares que, aos 70 anos, sobe ao palco paulistano do Clube Piratininga na pele de uma crooner de gafieira dedicada a entreter o público predominantemente maduro e idoso que rodopia pelo salão. O baile tem a intenção de apresentar o filme Chega de Saudade, de Laís Bodanzky, que estréia dia 21 de março e é protagonizado por personagens de gafieira vividos sem maquiagem nem glamour global por Tônia Carrero, Leonardo Villar e Betty Faria.
Ao lado do músico mineiro Marku Ribas, Elza interpreta a cantora que anima o baile. E traduz, no dizer da diretora, "a alma do filme", ao surgir cantando a plenos pulmões os versos de Não Deixe o Samba Morrer. No papel de Ana, Elza defronta-se com a menina que foi nos anos 50, quando era crooner de grupos como a Orquestra Tabajara de Severino Araújo em gafieiras como Estudantina e Danúbio Azul.
"Olha, acho que passei por todas as gafieiras que existiram no Rio de Janeiro", ela conta, no minúsculo camarim do Piratininga, após o show. "Não gosto de passado, mas esse foi o início da minha carreira. Não temos mais isso de as pessoas irem para o baile por amor. Virou michê de baile, muitos caras cobram para dançar com as damas. Não sei se o amor que vai volta, mas sou do tempo em que existia amor. As pessoas dançavam porque amavam o baile, a orquestra, os cantores."
Por coincidência, uma das canções selecionadas pelo produtor musical Eduardo BiD para o filme, antes mesmo que a presença de Elza, traz recordações profundas à cantora. É Lama, de versos nostálgicos e amargos como se o meu passado foi lama/ hoje quem me difama/ viveu na lama também, ou se eu errei, se eu pequei/ pouco importa/ se aos teus olhos estou morta/ pra mim morreste também.
"Foi a primeira música que cantei, no programa do Ary Barroso", ela conta. Em seguida, se retrai e fecha o baú de lembranças: "Gozado, eu passei uma borracha no passado. O presente é sempre, passado é passado. Como digo no meu site, my name is now. Eu sou o agora".
Foi com Lama que a adolescente Elza se apresentou, em 1953, no programa do autor de Aquarela do Brasil na Rádio Tupi, Calouros em Desfile. Segundo relata José Louzeiro no livro Elza Soares – Cantando para Não Enlouquecer (Globo, 1997), Ary, espantado com a aparência da menina, perguntou de que planeta ela vinha. "Do planeta fome", ela respondeu.
O "planeta fome" chamava-se Moça Bonita, depois Vila Vintém, uma das primeiras favelas do Rio de Janeiro. O pai trabalhava em pedreira, a mãe era lavadeira, o primeiro marido (com quem se casou, obrigada, aos 12 anos) vivia entre o desemprego e o trabalho informal. Aos 20 anos, Elza havia tido cinco filhos. Um morreu de fome quando ela tinha 15 anos, outro foi doado quando tinha 19. Mãe e menina, trabalhou em hospital psiquiátrico e chegou a pedir comida e dinheiro pelas ruas.
A virada começou no auditório de Ary Barroso, mas foi paulatina. Só foi consolidar presença na música a partir de 1959, quando fez a primeira gravação, Se Acaso Você Chegasse, de Lupicinio Rodrigues. O Brasil vivia o advento da bossa nova e a moda foi utilizada pela Odeon para impulsionar a cantora. O rótulo "a bossa negra" ilustrou os dois primeiros LPs.
Elza nada tinha a ver com a revolução de maciez vocal e musical liderada por João Gilberto e Tom Jobim, mas não deixava de promover, por caminhos mais ríspidos, uma fusão entre samba e jazz comparável àquela dos papas da bossa branca. Desde o início, desafiou os purismos do samba dito "de raiz" e fundiu o ambiente dos morros cariocas a standards como Mack the Knife (de Brecht) e In the Mood (ou Edmundo, em português).
O cruzamento de gêneros tem sido a tônica da obra da artista há 50 anos, como atesta o jovem produtor paulistano Arthur Joly, que em 2003 conduziu a adesão da artista ao funk carioca e à música eletrônica, em Vivo Sonhando [p.s.: aqui cometi um erro, ato falho ou o que seja: o nome do disco é vivo feliz, ô, anta!]. "Ela é uma pessoa intensa, ansiosa, às vezes parece uma criança", diz Joly. "Sou quatro décadas mais novo, mas posso dizer que ela, em alguns momentos, fazia eu me sentir velho. É aberta a novas experiências, sabe fugir do comum, sabe querer ser diferente."
É recorrente a relação com os mais jovens. No Piratininga, canta com o olho atento e respeitoso à orientação do produtor BiD, postado na platéia. Há sete anos vive com o ator Anderson Lugão, de 30 anos. Há pouco, convenceu-o a se tornar cantor, num disco que ela produzirá. E aborda de modo crítico a profissão anterior do marido: "Sou atriz, Grande Otelo foi meu professor (estreou no teatro de revista, em 1955, ao lado dele). Mas a música é bem melhor, porque para negro, em tevê, só tem chibata. Não quero fazer papel de cozinheira, nem levar chibatada".
Anderson, ela diz, foi presença crucial em 2007, um ano especialmente difícil. Em março, à véspera da gravação marcada do CD e DVD Beba-Me, foi hospitalizada com diverticulite. Conta Lugão: "Ela disse 'aqui não fico, tenho de gravar DVD'. O médico disse 'ou você vai, grava e morre, ou fica aqui e vive', aí ela ficou".
O trabalho, bancado pela Biscoito Fino e pelo Canal Brasil, concretizou-se com Elza ainda convalescente, com uma bolsa de colostomia presa ao corpo. Elza canta Volta por Cima, Dura na Queda, A Carne (a carne mais barata do mercado/ é a carne negra) e o Rap da Felicidade (eu só quero é ser feliz/ andar tranqüilamente na favela em que nasci) com expressão de dor, apoiada numa cadeira como suposto objeto de cena. Após a gravação, passou por nova hospitalização e outra cirurgia.
"Eu não queria fazer, por mim não teria feito. Mas fiz, porque a pessoa que queria que fizesse pensava que eu fosse morrer", diz. Coordenador do projeto pela Biscoito Fino, Martinho Filho define Elza como "um norte para o samba" e conta o episódio sob outro prisma: "Estávamos prontos a adiar, mas ela queria gravar".
Agora, o ritmo volta a se acelerar. No dia seguinte ao show de lançamento do CD de Chega de Saudade, partiu para o Recife, onde abriu o carnaval com Naná Vasconcelos. Diante dos altos e baixos, ela simula indiferença. Eles são componentes inseparáveis de sua vida e obra, mesmo após a superação da origem pobre.
Novas tempestades vieram logo após o estouro como cantora, quando iniciou rumoroso romance com o mítico jogador de futebol Garrincha (1933-1983), então casado. Em 1963, gravou Eu Sou a Outra e virou alvo da ira da imprensa, como suposta "destruidora de lares".
Ficou com Garrincha entre 1962 e 1978, quando enfrentou repetidos períodos de ostracismo e o alcoolismo do marido. O filho Garrinchinha morreu num acidente em 1986, aos 9 anos, na volta de uma viagem para conhecer a terra natal do pai. Passou a cantar Meu Guri, de Chico Buarque, outra das muitas canções que em sua voz soam autobiográficas.
Chega de Saudade, em que atua quase como figurante, parece se incorporar à autobiografia involuntária de Elza. "Ela é uma mulher muito sofisticada, que parece nem ter noção de quem é. É tão simples, tão humilde no trabalho, não dá para acreditar que essa mulher, com essa voz, possa se comportar assim", elogia Laís.
A cineasta registra o rosto transformado por sofrimentos e cirurgias plásticas em close, quase entrando pela garganta da cantora, enquanto versos como antes de me despedir/ deixo ao sambista mais novo/ o meu pedido final:/ não deixe o samba morrer/ não deixe o samba acabar emolduram o espírito conturbado do filme, e da própria Elza.
Terça-feira, Janeiro 29, 2008
no wonder there's panic in the industry...
"carta capital" 480, 30 de janeiro de 2008.
o título da reportagem, you know, é recolhido de um verso de britney spears.
e, falar nisso, diz que(-diz-que-) o fábio assumpção, da rede globo, também andou indo para o "rehab", para a mesma clínica "rehab" das estrelas de hollywood, por que será, né?...
será que as indústrias, as "firmas", andam desparafusando o dispositivo trágico de enlouquecer as pessoas, às raias da síndrome do pânico? e, sabida a responsabilidade psicopata das indústrias na volta do parafuso, será que elas próprias, as pessoas (que, you know, somos "nozes") não têm sua cota de responsa íntima, particular e intransferível na volta do parafusão, na rebimboca da parafuseta?
não somos racistas? não somos sexistas? não somos capitalistas? não somos canibais? não criamos nossos próprios monstros, monstrinhos e monstrões?
PÂNICO NA INDÚSTRIA
A EMI anuncia que demitirá até 2 mil funcionários, e a greve em Hollywood ameaça se alastrar para gravadoras
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
Tradicional casa fonográfica dos Beatles e dos Rolling Stones, a gravadora britânica EMI anunciou em 15 de janeiro uma reestruturação que implicará na demissão de 1,5 mil a 2 mil de seus funcionários nos próximos seis meses. Considerado o total de 5,5 mil contratados no mundo todo, o encolhimento resultante será de cerca de um terço.
Poucos dias antes, a empresa havia sido publicamente ameaçada por um dos líderes de vendagens de discos, o cantor de pop dançante Robbie Williams. Provavelmente inspirado pela greve de roteiristas que há três meses abala Hollywood, Williams se declarou em greve contra a EMI e afirmou que não entregará o álbum que deve à casa, com lançamento previsto para setembro.
Segundo o jornal britânico The Times, um dos grupos de rock mais populares do planeta, o Coldplay, estaria disposto a aderir à greve. "Artistas querem trabalhar com gente de música, não com homens de negócios", afirmou o empresário da banda, Dave Holmes, em referência à recente aquisição da EMI pelo fundo de investimentos britânico Terra Firma, em meio a crise de vendas e denúncias de fraude na gestão anterior.
No dia 17, o anúncio de que os Rolling Stones lançarão um CD por outra gravadora (a norte-americana Universal) forneceu indicação de que não será renovada a parceria de 16 anos com a EMI, que expira em maio. No ano passado, Paul McCartney rompeu uma ligação de quatro décadas e meia com a multinacional, que vive às voltas com litígios judiciais com o espólio dos Beatles. O CD mais recente de Paul foi lançado em parceria com a rede de cafés Starbucks.
"O foco da redução de pessoal é eliminar possíveis áreas de duplicidade de funções dentro do grupo, permitindo mais agilidade nas tomadas de decisão e uma estrutura mais sustentável dentro do novo cenário", ameniza Marcelo Castello Branco, presidente do escritório brasileiro da EMI, que esteve no epicentro das denúncias de fraude em 2006. Segundo ele, a filial local (que tem Marisa Monte e Charlie Brown Jr. entre os nomes mais rentáveis) passou por ajustes recentes e, assim, supostamente não seria colhida pelas novas turbulências na matriz.
Os conflitos na EMI formam a ponta mais estridente de um cenário a cada dia mais grave, o da derrocada das grandes gravadoras de discos frente a pirataria, downloads, circulação virtual de música e inadaptação aos novos tempos.
Parece sintomático que outra das maiores gravadoras, a Sony BMG, busque âncora salvadora no "disco mais vendido de todos os tempos", Thriller, de Michael Jackson, com 105 milhões de cópias desde o lançamento, em 1982, até hoje. Prepara para março uma reedição pomposa, acrescida de DVD, gravações inéditas e novas versões de Billie Jean, Beat It e outras músicas, pilotadas por artistas da moda na black music, como will.i.am, Akon, Fergie e Kanye West. Tão assolado por escândalos quanto a indústria por rombos, Michael em pessoa permanece calado e em constrante crise criativa.
Outra figura-símbolo do atual momento do mundo da música se chama Britney Spears, também da Sony BMG. Ex-atriz mirim do Clube do Mickey, ela colabora com o pão nosso de cada dia da mídia sensacionalista com uma sucessão interminável de dramas pessoais, atitudes descontroladas e ameaças suicidas.
Tratada como piada enquanto se autodestrói em público, Britney faz "sucesso" por razões que nada têm a ver com música. Mas em Blackout, CD ultracomercial lançado no final de 2007, espalha pistas sobre seu estado e o das gravadoras. Não é surpresa este pânico na indústria, canta, entre lamúrias como vocês não vão prestar atenção em mim? e vocês querem um pedaço de mim? Vendeu até agora cerca de 2 milhões de exemplares, contra 22 milhões do recorde da artista, em 1999.
O estado de espírito não é só dela, mas da maioria dos nomes de ponta no atual mercadão musical. Britney, Robbie Williams e as jovens Amy Winehouse e Lily Allen marcam presença menos pela música que pelas incessantes idas a clínicas de reabilitação e desintoxicação. Rehab, interpretada por Amy com vozeirão de cantora antiga de jazz, foi uma das canções mais expressivos de 2007. Querem me levar para a reabilitação/ e eu digo não, não, não, ela canta, entre uma e outra internação.
Outro dos pontos controversos da propalada reestruturação da EMI diz respeito à busca de patrocinadores privados para os artistas sob contrato. "Isso não é novidade. Artistas como Marisa Monte, Caetano Veloso e Ivete Sangalo atuam exemplarmente dentro dessas possibilidades", diz Castello Branco. "Queremos ser um driver dessas alternativas e atuar em parcerias que contribuam para a maior visibilidade de nossos projetos."
Pode não ser novidade, mas o fato é que, pressionadas pela insuficiência de lucro nas lojas, as gravadoras cada vez mais tentam abocanhar outras fontes de receitas dos artistas, como as de shows e contratos publicitários. A Sony BMG, por exemplo, anunciou a criação da subsidiária Day 1 Entertainment, uma "agência de talentos" para gerenciar as carreiras de músicos e, talvez, jogadores de futebol.
"A previsão é de que neste primeiro ano a Day 1 faça de 300 a 400 shows e contrate de três a cinco artistas no Brasil. Só na América Latina já chegamos a 50 artistas", comemora o gerente-geral local da Sony BMG, Alexandre Schiavon. "Apesar de outra grande queda de mercado neste ano, que, creio, deva ficar em 30%, fechamos o segundo ano consecutivo com lucro e 21% acima do ano anterior."
Devem estar relacionadas a esse novo contexto afirmações do empresário de Robbie Williams, Tim Clark, de que o novo todo-poderoso da EMI, Guy Hands, age como um "fazendeiro" que "escraviza" seus contratados. No ano passado, Williams teve de amargar o fato de a EMI usar o relativo fracasso comercial do álbum Rudebox como um dos bodes expiatórios da crise que levou à venda ao fundo de investimentos. Agora, um editorialista financeiro do Times tomou partido da EMI e classificou como "risível" a queixa sobre escravidão. Astros do rock, lembrou, estão entre os seres humanos mais ricos e paparicados do planeta.
Mas não são inéditas acusações como a de Williams. Em 1994, George Michael processou a Sony por um suposto "contrato de escravidão". E perdeu. Em 1993, Prince estampou na bochecha o termo "escravo", em protesto contra sua gravadora na época, Warner. Em 2007, ele distribuiu o CD mais recente gratuitamente, em shows e encartado numa edição do jornal britânico Daily Mail.
Contra o modelo criado pelas gravadoras, insurge-se um novo, capitaneado por outro nome ejetado da constelação da EMI, o Radiohead. No final do ano passado, o grupo alvoroçou a indústria mundial ao lançar o álbum In Rainbows de modo independente e virtual. Inicialmente disponível apenas no site da banda, foi comercializado em download, por um preço a ser definido individualmente por cada consumidor, e que poderia ser igual a zero.
Os resultados concretos do levante do Radiohead ainda são controversos, mas é fato que o grupo conquisou repercussão ímpar e se libertou da faixa média de direitos autorais praticada pela indústria cultural (em regra, cerca de 10% do total das vendas) e ficou com a totalidade do valor arrecadado no sistema "faça você mesmo".
Outro exemplo de mudança de foco nas relações entre a música e a indústria fonográfica foi dado pelo brasileiro Gilberto Gil, que no último dia 21 se despiu das vestes de ministro da Cultura para anunciar, numa entrevista coletiva no escritório brasileiro do Google, a criação de um canal exclusivo dentro do site de compartilhamento de vídeos YouTube.
O endereço www.youtube.com.br/gilbertogil passa a disponibilizar, gratuitamente, a produção audiovisual do músico, o que inclui desde vídeos históricos a gravações inéditas de ensaios, cenas caseiras, bastidores e colaborações de fãs. Em apresentações recentes, o artista tem fugido à praxe proibitiva de casas de espetáculos para pedir que os espectadores filmem os shows em câmeras e celulares e os publiquem eles mesmos na internet.
Segundo Gil, o acordo com o Google não significa o abandono de um contrato de 30 anos com a Warner. "Acho que meu próximo disco, Cordel Banda Larga, será o último no antigo formato. Mas pretendo manter o vínculo com a Warner, até porque é instrutivo para eles, para que possam vivenciar comigo novos modelos de negócio", diz.
O músico-ministro contorna a questão ética por trás da duplicidade de funções que exerce e de um possível uso político do canal exclusivo no site do Google: "Me atenho ao lado artístico e empresarial. Se alguém filmar uma solenidade e publicar, a gerência do canal vai entender se é conveniente ou não manter". A gerência é feita pela equipe que faz o site de Gil, coordenada por sua esposa, Flora.
Como acontece em todo o YouTube, o canal se move na linha tênue entre a oficialidade e a informalidade, já que é farta a quantidade de pirataria em circulação, como em fonogramas pertencentes a gravadoras e editoras ou imagens antigas de propriedade de emissoras de tevê. "Alguém me mostrou um vídeo de Gil com os Mutantes no festival da Record (de 1967). É o caso de conversar com a emissora e legalizar o que ainda não for legal", afirma o presidente do Google Brasil, Alexandre Hohagen, que chefia uma equipe de 200 funcionários, iniciada há 30 meses. Na semana de estréia, o vídeo estava livremente disponível no canal.
A diretora de marketing do Google local, Patrícia Pflaeging, admite a tensão por trás da mudança de modelos, falando do susto da gravadora diante da proposta de liberar a obra de Gil no YouTube: "Na primeira reunião, a Warner queria morrer". O músico afirma: "É um exercício menos para o artista que para a gravadora, que precisa desesperadamente encontrar modelos ágeis, sair daquela coisa mastodôntica das 'majors'’ e entrar um pouco no universo das 'minors'".
Patrícia diz que uma carta-acordo foi assinada pelo Google e por Gil, mas o artista e Hohagen são uníssonos em afirmar que não existe um contrato em termos comerciais, nem geração de receitas para nenhuma das partes. "É uma ação que não visa lucro nenhum. Nesse momento, o objetivo é puramente artístico", diz o presidente do Google.
Se é assim mesmo, nesse ponto os 10% de direitos autorais pagos por gravadoras aos criadores são trocados por um redondo zero via internet. Quanto ao Google e cyber-empresas correlatas, entra-se num território de lucro mais ou menos impalpável. "Se atrair mais usuários, posso expandir o negócio, levar mais visitas ao site do Gil", afirma Hohagen, sem quantificar.
Mas, ao contrário do que Gil sugere, conglomerados de nome Google, Microsoft ou Apple nada têm de "minors". E são eles os adversários posicionados atrás das ruínas das velhas e palpáveis fábricas de discos.
o título da reportagem, you know, é recolhido de um verso de britney spears.
e, falar nisso, diz que(-diz-que-) o fábio assumpção, da rede globo, também andou indo para o "rehab", para a mesma clínica "rehab" das estrelas de hollywood, por que será, né?...
será que as indústrias, as "firmas", andam desparafusando o dispositivo trágico de enlouquecer as pessoas, às raias da síndrome do pânico? e, sabida a responsabilidade psicopata das indústrias na volta do parafuso, será que elas próprias, as pessoas (que, you know, somos "nozes") não têm sua cota de responsa íntima, particular e intransferível na volta do parafusão, na rebimboca da parafuseta?
não somos racistas? não somos sexistas? não somos capitalistas? não somos canibais? não criamos nossos próprios monstros, monstrinhos e monstrões?
PÂNICO NA INDÚSTRIA
A EMI anuncia que demitirá até 2 mil funcionários, e a greve em Hollywood ameaça se alastrar para gravadoras
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
Tradicional casa fonográfica dos Beatles e dos Rolling Stones, a gravadora britânica EMI anunciou em 15 de janeiro uma reestruturação que implicará na demissão de 1,5 mil a 2 mil de seus funcionários nos próximos seis meses. Considerado o total de 5,5 mil contratados no mundo todo, o encolhimento resultante será de cerca de um terço.
Poucos dias antes, a empresa havia sido publicamente ameaçada por um dos líderes de vendagens de discos, o cantor de pop dançante Robbie Williams. Provavelmente inspirado pela greve de roteiristas que há três meses abala Hollywood, Williams se declarou em greve contra a EMI e afirmou que não entregará o álbum que deve à casa, com lançamento previsto para setembro.
Segundo o jornal britânico The Times, um dos grupos de rock mais populares do planeta, o Coldplay, estaria disposto a aderir à greve. "Artistas querem trabalhar com gente de música, não com homens de negócios", afirmou o empresário da banda, Dave Holmes, em referência à recente aquisição da EMI pelo fundo de investimentos britânico Terra Firma, em meio a crise de vendas e denúncias de fraude na gestão anterior.
No dia 17, o anúncio de que os Rolling Stones lançarão um CD por outra gravadora (a norte-americana Universal) forneceu indicação de que não será renovada a parceria de 16 anos com a EMI, que expira em maio. No ano passado, Paul McCartney rompeu uma ligação de quatro décadas e meia com a multinacional, que vive às voltas com litígios judiciais com o espólio dos Beatles. O CD mais recente de Paul foi lançado em parceria com a rede de cafés Starbucks.
"O foco da redução de pessoal é eliminar possíveis áreas de duplicidade de funções dentro do grupo, permitindo mais agilidade nas tomadas de decisão e uma estrutura mais sustentável dentro do novo cenário", ameniza Marcelo Castello Branco, presidente do escritório brasileiro da EMI, que esteve no epicentro das denúncias de fraude em 2006. Segundo ele, a filial local (que tem Marisa Monte e Charlie Brown Jr. entre os nomes mais rentáveis) passou por ajustes recentes e, assim, supostamente não seria colhida pelas novas turbulências na matriz.
Os conflitos na EMI formam a ponta mais estridente de um cenário a cada dia mais grave, o da derrocada das grandes gravadoras de discos frente a pirataria, downloads, circulação virtual de música e inadaptação aos novos tempos.
Parece sintomático que outra das maiores gravadoras, a Sony BMG, busque âncora salvadora no "disco mais vendido de todos os tempos", Thriller, de Michael Jackson, com 105 milhões de cópias desde o lançamento, em 1982, até hoje. Prepara para março uma reedição pomposa, acrescida de DVD, gravações inéditas e novas versões de Billie Jean, Beat It e outras músicas, pilotadas por artistas da moda na black music, como will.i.am, Akon, Fergie e Kanye West. Tão assolado por escândalos quanto a indústria por rombos, Michael em pessoa permanece calado e em constrante crise criativa.
Outra figura-símbolo do atual momento do mundo da música se chama Britney Spears, também da Sony BMG. Ex-atriz mirim do Clube do Mickey, ela colabora com o pão nosso de cada dia da mídia sensacionalista com uma sucessão interminável de dramas pessoais, atitudes descontroladas e ameaças suicidas.
Tratada como piada enquanto se autodestrói em público, Britney faz "sucesso" por razões que nada têm a ver com música. Mas em Blackout, CD ultracomercial lançado no final de 2007, espalha pistas sobre seu estado e o das gravadoras. Não é surpresa este pânico na indústria, canta, entre lamúrias como vocês não vão prestar atenção em mim? e vocês querem um pedaço de mim? Vendeu até agora cerca de 2 milhões de exemplares, contra 22 milhões do recorde da artista, em 1999.
O estado de espírito não é só dela, mas da maioria dos nomes de ponta no atual mercadão musical. Britney, Robbie Williams e as jovens Amy Winehouse e Lily Allen marcam presença menos pela música que pelas incessantes idas a clínicas de reabilitação e desintoxicação. Rehab, interpretada por Amy com vozeirão de cantora antiga de jazz, foi uma das canções mais expressivos de 2007. Querem me levar para a reabilitação/ e eu digo não, não, não, ela canta, entre uma e outra internação.
Outro dos pontos controversos da propalada reestruturação da EMI diz respeito à busca de patrocinadores privados para os artistas sob contrato. "Isso não é novidade. Artistas como Marisa Monte, Caetano Veloso e Ivete Sangalo atuam exemplarmente dentro dessas possibilidades", diz Castello Branco. "Queremos ser um driver dessas alternativas e atuar em parcerias que contribuam para a maior visibilidade de nossos projetos."
Pode não ser novidade, mas o fato é que, pressionadas pela insuficiência de lucro nas lojas, as gravadoras cada vez mais tentam abocanhar outras fontes de receitas dos artistas, como as de shows e contratos publicitários. A Sony BMG, por exemplo, anunciou a criação da subsidiária Day 1 Entertainment, uma "agência de talentos" para gerenciar as carreiras de músicos e, talvez, jogadores de futebol.
"A previsão é de que neste primeiro ano a Day 1 faça de 300 a 400 shows e contrate de três a cinco artistas no Brasil. Só na América Latina já chegamos a 50 artistas", comemora o gerente-geral local da Sony BMG, Alexandre Schiavon. "Apesar de outra grande queda de mercado neste ano, que, creio, deva ficar em 30%, fechamos o segundo ano consecutivo com lucro e 21% acima do ano anterior."
Devem estar relacionadas a esse novo contexto afirmações do empresário de Robbie Williams, Tim Clark, de que o novo todo-poderoso da EMI, Guy Hands, age como um "fazendeiro" que "escraviza" seus contratados. No ano passado, Williams teve de amargar o fato de a EMI usar o relativo fracasso comercial do álbum Rudebox como um dos bodes expiatórios da crise que levou à venda ao fundo de investimentos. Agora, um editorialista financeiro do Times tomou partido da EMI e classificou como "risível" a queixa sobre escravidão. Astros do rock, lembrou, estão entre os seres humanos mais ricos e paparicados do planeta.
Mas não são inéditas acusações como a de Williams. Em 1994, George Michael processou a Sony por um suposto "contrato de escravidão". E perdeu. Em 1993, Prince estampou na bochecha o termo "escravo", em protesto contra sua gravadora na época, Warner. Em 2007, ele distribuiu o CD mais recente gratuitamente, em shows e encartado numa edição do jornal britânico Daily Mail.
Contra o modelo criado pelas gravadoras, insurge-se um novo, capitaneado por outro nome ejetado da constelação da EMI, o Radiohead. No final do ano passado, o grupo alvoroçou a indústria mundial ao lançar o álbum In Rainbows de modo independente e virtual. Inicialmente disponível apenas no site da banda, foi comercializado em download, por um preço a ser definido individualmente por cada consumidor, e que poderia ser igual a zero.
Os resultados concretos do levante do Radiohead ainda são controversos, mas é fato que o grupo conquisou repercussão ímpar e se libertou da faixa média de direitos autorais praticada pela indústria cultural (em regra, cerca de 10% do total das vendas) e ficou com a totalidade do valor arrecadado no sistema "faça você mesmo".
Outro exemplo de mudança de foco nas relações entre a música e a indústria fonográfica foi dado pelo brasileiro Gilberto Gil, que no último dia 21 se despiu das vestes de ministro da Cultura para anunciar, numa entrevista coletiva no escritório brasileiro do Google, a criação de um canal exclusivo dentro do site de compartilhamento de vídeos YouTube.
O endereço www.youtube.com.br/gilbertogil passa a disponibilizar, gratuitamente, a produção audiovisual do músico, o que inclui desde vídeos históricos a gravações inéditas de ensaios, cenas caseiras, bastidores e colaborações de fãs. Em apresentações recentes, o artista tem fugido à praxe proibitiva de casas de espetáculos para pedir que os espectadores filmem os shows em câmeras e celulares e os publiquem eles mesmos na internet.
Segundo Gil, o acordo com o Google não significa o abandono de um contrato de 30 anos com a Warner. "Acho que meu próximo disco, Cordel Banda Larga, será o último no antigo formato. Mas pretendo manter o vínculo com a Warner, até porque é instrutivo para eles, para que possam vivenciar comigo novos modelos de negócio", diz.
O músico-ministro contorna a questão ética por trás da duplicidade de funções que exerce e de um possível uso político do canal exclusivo no site do Google: "Me atenho ao lado artístico e empresarial. Se alguém filmar uma solenidade e publicar, a gerência do canal vai entender se é conveniente ou não manter". A gerência é feita pela equipe que faz o site de Gil, coordenada por sua esposa, Flora.
Como acontece em todo o YouTube, o canal se move na linha tênue entre a oficialidade e a informalidade, já que é farta a quantidade de pirataria em circulação, como em fonogramas pertencentes a gravadoras e editoras ou imagens antigas de propriedade de emissoras de tevê. "Alguém me mostrou um vídeo de Gil com os Mutantes no festival da Record (de 1967). É o caso de conversar com a emissora e legalizar o que ainda não for legal", afirma o presidente do Google Brasil, Alexandre Hohagen, que chefia uma equipe de 200 funcionários, iniciada há 30 meses. Na semana de estréia, o vídeo estava livremente disponível no canal.
A diretora de marketing do Google local, Patrícia Pflaeging, admite a tensão por trás da mudança de modelos, falando do susto da gravadora diante da proposta de liberar a obra de Gil no YouTube: "Na primeira reunião, a Warner queria morrer". O músico afirma: "É um exercício menos para o artista que para a gravadora, que precisa desesperadamente encontrar modelos ágeis, sair daquela coisa mastodôntica das 'majors'’ e entrar um pouco no universo das 'minors'".
Patrícia diz que uma carta-acordo foi assinada pelo Google e por Gil, mas o artista e Hohagen são uníssonos em afirmar que não existe um contrato em termos comerciais, nem geração de receitas para nenhuma das partes. "É uma ação que não visa lucro nenhum. Nesse momento, o objetivo é puramente artístico", diz o presidente do Google.
Se é assim mesmo, nesse ponto os 10% de direitos autorais pagos por gravadoras aos criadores são trocados por um redondo zero via internet. Quanto ao Google e cyber-empresas correlatas, entra-se num território de lucro mais ou menos impalpável. "Se atrair mais usuários, posso expandir o negócio, levar mais visitas ao site do Gil", afirma Hohagen, sem quantificar.
Mas, ao contrário do que Gil sugere, conglomerados de nome Google, Microsoft ou Apple nada têm de "minors". E são eles os adversários posicionados atrás das ruínas das velhas e palpáveis fábricas de discos.
Quinta-feira, Janeiro 24, 2008
a "sombra" do r...e...i...
esta saiu na "carta capital" 478, de 16 de janeiro de 2008.
boa praça pra caramba, o sujeito...
A SOMBRA DO "REI"
"Roberto Carlos não é o meu ídolo", diz Eduardo Lages, maestro que há 29 anos dirige a orquestra do cantor
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
É quase irreconhecível o homem que chega de calça jeans e camisa de botão de veraneio. Quem o vê nos ternos brancos, nas gravatas berrantes, no cabelo acaju e na postura pomposa que costuma usar na regência dos shows de Roberto Carlos não imagina que o maestro Eduardo Lages possa usar outro tipo de figurino ou se movimentar por outro tipo de cenário.
"Às vezes fico aborrecido quando saio, 'pô, ninguém vai me reconhecer hoje?'. Mas, de chinelo, bermudão, no supermercado, como vão me reconhecer?", comenta, brincalhão, num hotel no Brooklin paulistano, onde se hospeda numa segunda-feira de dezembro em que participará do programa de Hebe Camargo. Escudeiro iluminado e eclipsado pela popularidade do "rei", ele afirma que tem o privilégio de poder desfrutar simultaneamente do melhor da fama e do melhor do anonimato.
Lages trabalha à sombra de Roberto Carlos há quase três décadas, desde 1979, e ultimamente tem tentado deslanchar uma carreira própria como pianista e orquestrador. Desde 2005, lançou três discos solo consecutivos pela Som Livre, a gravadora da Rede Globo, da qual era funcionário fixo antes de se alistar na trupe do cantor mais popular do País. Daqui a poucas horas, apresentará à platéia de Hebe o resultado do recém-lançado CD e DVD Com Amor, que gravou ao vivo no Teatro Municipal da cidade onde nasceu há 60 anos, Niterói (RJ).
Não raro interpretado como um possível bode expiatório por trás do ambiente burocrático e aparentemente estático que envolve há décadas a aura de Roberto Carlos, Eduardo Lages se autodefine como um sujeito "muito normal". "Sempre fui uma pessoa feliz, bem-resolvida, filho de classe média, de médico com professora. Sempre tive muita sorte e oportunidades, meu mérito foi saber aproveitá-las na medida do possível", afirma, com gentileza.
Responde de viés sobre se a firmeza profissional de RC em nunca querer mudar corresponde a uma característica dele, o homem atrás dos arranjos estáveis e imóveis de Emoções, Detalhes, Jesus Cristo... "Às vezes é frustrante", diz, duas vezes seguidas. "Mas estou sempre querendo (hesita) impor o meu ponto de vista. Não impor, mas apresentar para ele. Claro, na maioria das vezes prevalece o que ele acha, porque ele é a estrela, o grande artista. Estou ali para atendê-lo."
Ao se referir ao chefe, pronuncia de preferência o nome duplo, na íntegra, sem afetar maiores intimidades. E conclui o raciocínio: "Procuro levar para
boa praça pra caramba, o sujeito...
A SOMBRA DO "REI"
"Roberto Carlos não é o meu ídolo", diz Eduardo Lages, maestro que há 29 anos dirige a orquestra do cantor
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
É quase irreconhecível o homem que chega de calça jeans e camisa de botão de veraneio. Quem o vê nos ternos brancos, nas gravatas berrantes, no cabelo acaju e na postura pomposa que costuma usar na regência dos shows de Roberto Carlos não imagina que o maestro Eduardo Lages possa usar outro tipo de figurino ou se movimentar por outro tipo de cenário.
"Às vezes fico aborrecido quando saio, 'pô, ninguém vai me reconhecer hoje?'. Mas, de chinelo, bermudão, no supermercado, como vão me reconhecer?", comenta, brincalhão, num hotel no Brooklin paulistano, onde se hospeda numa segunda-feira de dezembro em que participará do programa de Hebe Camargo. Escudeiro iluminado e eclipsado pela popularidade do "rei", ele afirma que tem o privilégio de poder desfrutar simultaneamente do melhor da fama e do melhor do anonimato.
Lages trabalha à sombra de Roberto Carlos há quase três décadas, desde 1979, e ultimamente tem tentado deslanchar uma carreira própria como pianista e orquestrador. Desde 2005, lançou três discos solo consecutivos pela Som Livre, a gravadora da Rede Globo, da qual era funcionário fixo antes de se alistar na trupe do cantor mais popular do País. Daqui a poucas horas, apresentará à platéia de Hebe o resultado do recém-lançado CD e DVD Com Amor, que gravou ao vivo no Teatro Municipal da cidade onde nasceu há 60 anos, Niterói (RJ).
Não raro interpretado como um possível bode expiatório por trás do ambiente burocrático e aparentemente estático que envolve há décadas a aura de Roberto Carlos, Eduardo Lages se autodefine como um sujeito "muito normal". "Sempre fui uma pessoa feliz, bem-resolvida, filho de classe média, de médico com professora. Sempre tive muita sorte e oportunidades, meu mérito foi saber aproveitá-las na medida do possível", afirma, com gentileza.
Responde de viés sobre se a firmeza profissional de RC em nunca querer mudar corresponde a uma característica dele, o homem atrás dos arranjos estáveis e imóveis de Emoções, Detalhes, Jesus Cristo... "Às vezes é frustrante", diz, duas vezes seguidas. "Mas estou sempre querendo (hesita) impor o meu ponto de vista. Não impor, mas apresentar para ele. Claro, na maioria das vezes prevalece o que ele acha, porque ele é a estrela, o grande artista. Estou ali para atendê-lo."
Ao se referir ao chefe, pronuncia de preferência o nome duplo, na íntegra, sem afetar maiores intimidades. E conclui o raciocínio: "Procuro levar para
