Quinta-feira, Junho 25, 2009

Simonal e a ditabranca

O que segue aqui, até que enfim, é uma reportagem 100% inédita sobre a fábula de Wilson Simonal, que anda novamente na moda por estes tempos. Trabalhei nela durante a primeira metade de 2008, mas a dita cuja acabou nunca sendo publicada.

Em linhas gerais, o texto final aqui abaixo é fiel ao que parei de escrever em 22 de julho de 2008. Recebeu alguns acréscimos porque estava inconcluso, mas acréscimos que dizem respeito basicamente a atualizações necessárias e à inserção de mais depoimentos.

Enquanto adicionava tais depoimentos tendo este blog em mente, percebi que alguns deles eu não teria colocado no texto se fosse destinado a algum veículo da “grande” imprensa - não sei se por falta de coragem minha ou se porque não seriam publicados mesmo (bem, nem o texto seria publicado grande assim, não é mesmo?). A propósito, os dois últimos parágrafos não existiam, foram escritos agora.

Será fácil perceber que o título acima não se ajusta perfeitamente ao conteúdo do texto (na imprensa tradicional isso também acontece com frequência). Mas, dados acontecimentos dos últimos dias, não me parece impertinente, e agradeço ao Rick por ter inspirado o insight. E agradeço também à Meire Bottura, pelas maravilhosas capas de revistas e jornais que ela coleciona.

[Apenas dois lembretes, adicionados às 21h40: a) eu não tinha me ligado nisso, mas publiquei este texto neste 25 de junho de 2009, o mesmo dia do aniversário da morte de Simonal; b) cerca de uma hora depois de este texto estar aqui, morreu Michael Jackson, no mesmo dia da morte de Simonal. Como Wilson, Michael sofreu intensamente durante uma parte considerável do tempo que passou aqui. E, negro tragicamente embranquecido, foi-se pouco tempo depois da chegada de Barack Obama.]

E chega de procrastinar, agora vamos lá.


SIMONAL, O BODE

copyleft PEDRO ALEXANDRE SANCHES


1999. Tocou o meu ramal telefônico no quarto andar da redação. Atendi. Era ligação lá de baixo, de uma das recepcionistas da Folha de S.Paulo, onde eu trabalhava. O cantor Wilson Simonal estava no saguão do jornal. Furioso, fora de si.

Pretenso Clark Kent de caricatura, vesti minha capa fajuta de super-herói de araque e desci para conversar com ele. Já que eu era o autor da entrevista que enfurecera um dos dois cantores brasileiros mais populares dos anos 1960 (o outro se chama Roberto Carlos), cabia a mim proteger e defender o jornal, a instituição, o prédio, os proprietários – e, bem, a mim mesmo – contra a (suposta) fera.

O que eu e Simonal conversamos, não faço a mínima idéia. Apaguei da memória, bloqueei. Só sei que não tive a gentileza e a generosidade de convidá-lo para entrar, sentar-se, tomar um café (bem, acho que eu não me sentia mesmo muito “dono” da “casa”...). E que aparei sozinho, ali mesmo no saguão, a emoção e a revolta do artista contra a entrevista que a Folha publicara no dia 21 de maio daquele ano e, de modo bem mais amplo, contra o exílio, o banimento, a morte de corpo presente que o Brasil lhe impunha desde ao menos 1974.

Lembro que, de transtornado no início, ele foi pouco a pouco serenando, ou melhor, deixando-se vencer pelo cansaço de uma situação que se repetia a cada nova entrevista, a cada vez que os jornalistas lembrávamos que ele ainda existia. Não esqueço, e jamais esquecerei, a expressão de desconsolo em seus olhos, do início ao fim da “conversa”.

Naqueles dias, eu, por minha parte, sabia pouco, ou quase nada, sobre tudo que acontecera a Simonal entre 1963 e 1974, hiato que o remeteu da ascensão e da fama absoluta ao mais indestrutível ostracismo. Como outros repórteres antes e depois, tateava a “notícia” (ou a não-notícia?) em “investigações” (investigações?) superficiais, desinformadas, crente de que sabia de tudo, sem saber de nada.

Aquela foi uma das quatro ocasiões de minha vida em que estive diante de Wilson Simonal. Logo depois, fui ao show motivador da reportagem “Proscrito, Simonal tenta cantar em SP”, que ele então estreava no teatro do hotel Crowne Plaza. Ao final de uma sôfrega e melancólica apresentação, fui cumprimentá-lo no minúsculo camarim, e o encontrei abandonado numa cadeira, passando mal, de cabeça baixa, olhando o chão. Aceitou meu cumprimento indiferente, sem esboçar reação.

Havia o visto pela primeira vez numa situação fúnebre, em 4 de fevereiro de 1998, quando fui, a trabalho, ao velório de Silvio Caldas (1907-1998), cantor e co-autor de Chão de Estrelas. Simonal me chamou a atenção porque, apesar de ter sido um ídolo dos anos 1960, vestia-se como cantor de tempos ainda mais idos - terno branco, lenço na lapela e sapato de bico, ou algo parecido (não posso me recordar com precisão). Deixou-me intrigado também porque percebi que eu sabia, mas não sabia, quem era aquela figura extravagante.

Não tinha a menor ideia de que pertencia ao repertório dele em 1967 a píncara pilantragem (Simonal era então o “rei da pilantragem”) Para, Pedro (“esse Pedro é uma parada/ para, Pedro, Pedro, para”), que minha mãe interiorana cantava rotineiramente para mim quando eu era pequeno. Bem, em 1998 nem minha mãe lembrava mais que um dia havia existido um homem chamado Wilson Simonal.

Fúnebre seria, mais uma vez, a derradeira ocasião em que estive perto dele. Foi no cemitério do Morumby, em 26 de junho de 2000, no seu enterro. Morreu aos 61 anos, de falência hepática decorrente de alcoolismo.

Noutras palavras, a morte perpassou todo e qualquer contato que tive com o Roberto Carlos negro, enquanto ele vivia.

2009. Todas essas imagens zanzam por minha mente sempre que assisto ao excepcional documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei, dirigido por Claudio Manoel, o Seu Creysson do humorístico global Casseta & Planeta, em parceria com os jovens Micael Langer e Calvito leal, ex-funcionários da Conspiração Filmes.

O documentário não fornece apenas dados novos sobre a tragédia de erros e a sucessão de abusos que levaram o Frank Sinatra brasileiro (e preto) ao desterro, ao autodesterro e ao desterro outra vez, em moto-contínuo. É precioso, também, porque oferece a primeira oportunidade, desde 1971, de (re)ver Simonal cheio de vida, em movimento, em cores ou em preto-e-branco, em diversas cenas de alto impacto musical.


Para quem, como eu, não viu Simonal ao vivo e em ação, há de ser a primeira chance para chegar perto de entender o poder comunicativo de um cantor-entertainer-apresentador televisivo que condensava, em si, qualidades (e/ou cacoetes) de personagens tão variados quanto Frank Sinatra, Agostinho dos Santos, Sammy Davis Jr., Cyro Monteiro, Ray Charles, Lúcio Alves, Harry Belafonte, Dick Farney, Chris Montez, João Gilberto, Chacrinha, Hebe Camargo, Silvio Santos, Roberto Carlos, Elis Regina, Sergio Mendes, Jorge Ben etc. e tal. De quebra, é senha perturbadora e incômoda para a compreensão um pouquinho menos superficial de um Brasil ditatorial que ainda reluta em se extinguir por completo.

“O filme se chama Ninguém Sabe o Duro Que Dei, mas também poderia ser Ninguém Sabe o Mole Que Dei”, diz Claudio Manoel. O que voltou à tona agora em imagens subsidiadas pela Globo Filmes e pela produtora TVZero (do perfurante documentário A Pessoa É para o Que Nasce) teria feição de drama shakesperariano ou freudiano, ou de tragédia épica hollywoodiana, se não fosse ambientado na chamada “vida real”, aqui no Brasil, poucas décadas atrás.

Não foi ficção, embora pareça fábula. Uma eletrizante história de ascensão e queda levou ao estrelato o garoto pobre que passou por favela, fome e rua, filho de mãe empregada doméstica e pai ausente. Simonal despontou em 1961, e por essa época a rotunda crítica teatral (branca) Bárbara Heliodora foi patroa de dona Maria (negra), que queria ver o filho cadete seguir carreira no Exército e, de início, rejeitava suas atividades musicais.

Na curva de ascensão e queda desse Ziggy Stardust tropical (e preto), o pico aconteceu em 1969, quando, escalado para abrir um show de Sergio Mendes no Maracanãzinho, Simonal papou o dono da noite, perfeitamente sintonizado com uma platéia de mais de 20 mil espectadores. O vale da curva aconteceria em novembro de 1974, quando foi condenado e preso, como numa confirmação definitiva da pecha de delator, disseminada em 1971 a partir do semanário O Pasquim. Entendido como informante da ditadura, foi condenado a cinco anos e quatro meses, por crime de extorsão. Atenção: pela Justiça da mesma ditadura de quem seria colaborador.

Se é ponto pacífico que 1969 foi o ápice comercial do artista, Marcos Valle tem uma história que amplia esse arco. Aconteceu em 1963, quando Valle foi levado a mostrar suas músicas à gravadora Odeon (onde Simonal iniciara trajetória fonográfica). “Quando cheguei à sala do diretor musical, Milton Miranda, ali estavam ele, um outro diretor chamado Ribamar, Roberto Menescal e Simonal”, lembra. “Simonal era considerado naquele momento, pelo que vi, o artista principal, a que estavam dando mais atenção. E estava ali para me ouvir. Como era da moderna música brasileira pediram que fosse me ouvir.”

O jovem Valle se considerava compositor (de bossa nova) e nem pensava em se tornar cantor. Mas Miranda anunciou ali mesmo sua contratação, também para cantar. “Ele disse: ‘Você está contratado’. Meu primeiro susto foi grande. Mas o Simonal foi adiante e falou: ‘É isso mesmo, garoto. Você está contratado’. Quer dizer, ele tinha uma força muito grande ali.”

O sucesso de Simonal começou a se consolidar quando ele deixou de lado o início nos redutos “sofisticados” da bossa e do Beco das Garrafas e partiu para um sólido projeto de popularização e se forjou em relações simbióticas com a política e a polícia da ditadura militar.

Nisso, teve como outra parceira simbiótica e co-protagonista crucial uma personagem quase sempre protegida pela penumbra de auto-imposta invisibilidade, que nem era tão conhecida por este nome no tempo de Simonal, mas hoje chamamos de Mídia, com M grande nem sempre merecido. Foi o conjunto dos meios de comunicação – música, televisão, rádio, jornalismo, publicidade, futebol – que constituiu os tentáculos do polvo Simonal, e enforcou-o (ou amputou um de seus próprios tentáculos) quando, na corcova entre os generais Médici e Geisel, a barra pesou de vez. Vejamos.

1966. Simonal iniciava a etapa mais fulminante de sua ascensão. Apresentava o programa Show em Simonal na então hegemônica TV Record, do qual os progressistas Jô Soares e Chico Anysio eram redatores. Numa cena do documentário, os também progressistas Geraldo Vandré e Gilberto Gil (esse às gargalhadas) aparecem integrados à platéia enlevada de um show em Simonal.

Foi ali que ele se encontrou com o conjunto (inicialmente) samba-jazz Som 3, de Cesar Camargo Mariano, futuro arranjador e marido de uma pupila de Simonal chamada Elis Regina. O primeiro produto dessa associação em LP foi Vou Deixar Cair... , pedra fundadora do estilo pilantragem, sob a retaguarda do comunicador Carlos Imperial (que conduzira os primeiros passos artísticos de Roberto Carlos e tivera como secretários particulares os jovens Simonal e Erasmo Carlos) e do compositor Nonato Buzar. Na capa do LP, o bonequinho Mug aparecia como artefato mercadológico de vanguarda, matraqueado em palcos e telas por Simonal e Chico Buarque, ambos empresariados à época por Roberto Colossi.

Nonato Buzar fala, 43 anos depois, sobre a invenção daquele novo estilo: “Pilantragem é um nome que abomino até hoje. Estávamos eu e Simonal tocando violão, surgiu o estilo, que pertence a mim e a ele. O nome que eu queria era bossa brasileira. O nome não era pejorativo, mas algo me falou dentro que ia ficar pejorativo, tanto que ficou. Pilantra é a pessoa que não presta. Se o nome fosse bossa brasileira, até hoje existiria, porque era um estilo bom, humano, que ressuscitava clássicos da música brasileira sem mudar uma nota sequer do original”.


Ainda em 1966, pop, iê-iê-iê, soul, pitadas de bossa-jazz e doses cavalares de alegria infanto-juvenil catapultaram para o gosto popular Meu Limão, Meu Limoeiro, Carango (dos versos “ninguém sabe o duro que dei/ pra ter fonfom trabalhei, trabalhei”) e Mamãe Passou Açúcar em Mim. E o domínio de Simonal sobre o público ampliou-se entre pilantragens em profusão, como Os Escravos de Jó, Vesti Azul, Nem Vem Que Não Tem (todas de 1967), Zazueira (1968) e País Tropical (1969). Nessa última, criada por Jorge Ben, Simonal encurtava palavras e transformava em jargão nacional o apelido Patropi como sinônimo de Brasil.

Eram os tempos do bordão (e da série de discos) “alegria! alegria!”, que Caetano Veloso tomaria emprestado para cimentar a gênese da tropicália. Um Simonal cada dia mais sorridente, rico e poderoso surfava na marola e definia a tropicália como uma forma de pilantragem. Carlos Imperial tentava rivalizar com o grupo baiano e lançava, em 1968, o disco Pilantrália, creditado à Superior Ordem da Pilantragem Avançada, S.O.P.A. (“nem vem de garfo que hoje é dia de sopa”, ou “de S.O.P.A.”, cantava Simonal desde o ano anterior, em Nem Vem Que Não Tem).

O programa de primeiro aniversário do Show em Simonal ficou eternizado naquele que deve ser o primeiro LP duplo da indústria fonográfica brasileira, primazia mais tarde reivindicada, a bordo dos esquecimentos, por Fatal (1971), de Gal Costa, e até pelo posterior Clube da Esquina (1972), de Milton Nascimento e Lô Borges.

Ouvido hoje, o disco de 1967 espanta. Durante a leitura de um fictício exemplar do Jornal da Tarde no ano 2000, o entertainer celebrava “o imperialismo do samba de breque”, citava o ex-presidente Juscelino Kubitschek (cassado pelo regime militar em 1964) e cutucava a ditadura, não se sabe se com ou sem intenção, ao ler a falsa notícia de que “o prefeito Faria Lima anuncia que ficará só mais seis meses no poder”.

Primor de ambigüidade e ironia, o LP intercalava inflamadas canções de protesto de Vandré, João do Vale e Marcos Valle com slogans e jingles comerciais de Philips, Kolynos, Gilette, Lux e TV Record. Sarcástico, Simonal oferecia duas opções ao ouvinte: “Você precisa confiar nos seus compositores” e “na música brasileira”, ou então “você pode confiar na Shell”.

Fortalecido, Simonal se dava a tais ousadias, e passou a sublinhar o racismo brasileiro em toda entrevista que concedia, e também na tela da TV. Ninguém Sabe o Duro Que Dei coleciona imagens fortes a esse respeito. Na mais leve delas, o cantor aparece num programa caracterizado como Lobo Bobo, junto à “Chapeuzinho” Vanusa. Na mais chocante, lidera uma pantomima em que aparece acuado por uma turba de brancos, enquanto canta: “Minha pele é escura/ e mais negra minha vida/ negro sem cultura/ vai ganhar bebida/ eu sou preto, negro, negro, mas, por Deus, também sou gente”.


O ápice do Simonal anti-racista se deu ainda em 1967, na gravação de Tributo a Martin Luther King (“cada negro que for/ mais um negro virá/ para lutar com sangue ou não”), dele e de Ronaldo Bôscoli. Na entrevista de 1999, me contou (e eu publiquei sem muita noção e com incrédula parcimônia) que a canção lhe rendeu uma das primeiras “visitas” ao famigerado Departamento de Ordem Política e Social (Dops), futuro nicho clandestino de tortura e terror de Estado. “Quiseram censurar a música, alegaram que era racista e que eu estava botando os negros contra os brancos”, afirmou. “Ouvi o que o censor falou. Falou, falou, falou, ah, porque o ambiente artístico, não sei o quê.”

1969. Em julho, pouco depois da primeira consagração no Maracanãzinho, o artista foi a estrela da edição nº 4 d’O Pasquim, que nos primeiros tempos parecia ambiguamente fascinado pelo ídolo negro. A chamada daquela edição era “Simonal: ‘Não sou racista’ (Simonal conta tudo)”. A anárquica patota, formada por Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral (pai do atual governador do Rio de Janeiro) e Pinheiro Guimarães, o entrevistou em tom jocoso, e insinuava que, sim, ele era racista. “A imagem pública que se tem de você é a do cara que está tranqüilo e que tem mordomo que acorda você às duas da tarde, com caviar etc.”, contra-atacava Tarso.


Ainda assim, o tablóide propagandeou à farta o filme É Simonal, de outro membro da turma, Domingos de Oliveira. Construída como uma versão negra dos filmes de matinê de Roberto Carlos, a produção implodiria em 1971 diante do início da derrocada do protagonista. Esta reportagem procurou Domingos, que se declarou “suspeito para opinar sobre esse assunto” e mais preferiu não falar.

“O público pagou, alguém tem que morrer”, Simonal profetizava na chanchada meio autobiográfica, até hoje semi-inédita. “Eu convivia com os caras do Pasquim. Era um porre, eles brigavam tanto entre eles”, me disse o cantor na entrevista de 1999. Por favor, peço atenção, este ponto é importante, embora eu não tivesse bagagem para percebê-lo dez anos atrás: “Eu convivia com os caras do Pasquim”.

Na esteira do Maracanãzinho, o cantor assinou contrato de vulto para ser garoto-propaganda da Shell. O patrocínio a Simonal se misturava com o patrocínio à seleção brasileira da Copa de 1970: a Shell o levaria ao México com seu grande amigo Pelé e cia., ele na condição de cantor oficial do Brasil na competição.


Na imprensa, Simonal aparecia ao lado do “gerente de comunicações e marketing” da Shell, João Carlos Magaldi, futuro diretor da Central Globo de Comunicações. O Jornal da Tarde noticiou o acordo, em 17 de setembro de 1969, como “o mais fabuloso contrato de publicidade já assinado” – se hoje certa cultura brasileira é fortemente subsidiada pela Petrobras, naquele tempo a música de Simonal já era, em parte, subproduto do petróleo.

Magaldi fora um dos vértices da agência publicitária Magaldi, Maia & Prosperi (MM&P), que em 1965 esculpiu a coqueluche nacional do programa Jovem Guarda, comandado por Roberto, Erasmo e Wanderléa na Record. Reza uma entre várias lendas que Carlito Maia, funcionário da Globo a partir de 1974 e futuro fundador do PT, extraíra o nome de batismo “jovem guarda” de uma frase do líder socialista russo Lênin. Carlos Prosperi, o outro publicitário da trinca, seria um dos fundadores d’O Pasquim, lançado em junho de 1969. Segundo escreve Jaguar no primeiro volume da antologia do tablóide, editado em 2006, O Pasquim foi gestado “na casa do Magaldi, diretor da TV Globo”.

A montagem das peças desse jogo de xadrez tira o chão da versão maniqueísta da história, quase sempre predominante, de que a origem dos anos de chumbo de Simonal estaria na oposição inegociável entre ele, à direita, e o exército d’O Pasquim, à esquerda. De Simonal e Roberto Carlos a Ziraldo e Jaguar, de homens de negócios e publicitários a jornalistas e músicos, de esquerdistas a direitistas ou “apolíticos”, todos eram filhotes da mesma ninhada (não custa repetir, Simonal dividira até empresário com Chico Buarque, futuro herói vitalício da esquerda). Em depoimento ao documentário, Jaguar parece desenhar instintivamente essa conclusão, ao afirmar num riso tristonho, diante de uma garrafa de cerveja Jaguar: “Ele morreu de cirrose, podia ter sido eu”.

1970. Começava a se desenhar o enredo intrincado que culminaria no grande cisma e no coroamento (e autocoroamento) de Simonal como bode expiatório prefererencial da “elite pensante” brasileira, num arco que apanharia todo o espectro ideológico. No meio do ano, faturamos o caneco no México, e o presidente Médici ganhou fôlego ilimitado para galvanizar a retórica radical do ufanismo pelo “Brasil grande”, “ame-o ou deixe-o”.

Em outubro, o V Festival Internacional da Canção (FIC) serviria de plataforma para uma ascendente Rede Globo transmitir imagens do “Brasil grande” para o planeta. Médici orquestrava o coro dos contentes, em entrevistas coletivas à imprensa internacional e em foto cumprimentando o vencedor da etapa nacional do festival, Toni Tornado, cantor (negro) de BR-3. Os compositores da canção vencedora eram Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, também autores (brancos) de um dos maiores sucessos de Simonal, Sá Marina (1968). Mas, poses fotográficas à parte, alguma coisa fugia ao controle do ambíguo consórcio verde-amarelo Globo-ditadura.


Inesperadamente, a bandeira brasileira se tingia de preto. Um tufão black power varria o FIC, e não era só Toni Tornado com o símbolo dos Panteras Negras desenhado no peito nu e namorando às escondidas uma das apresentadoras do festival, a atriz (e loira) Arlete Salles. Outro tornado no V FIC era Erlon Chaves, maestro (negro) ligado a Simonal, a Elis e à Globo e um dos contratados da Simonal Produções Artísticas, a mais nova empreitada do rei da pilantragem. Namorado eventual da ex-miss Brasil (loira) Vera Fischer, Erlon regeu uma interpretação anárquica de Eu Também Quero Mocotó, do soft-black Jorge Ben, à frente de um grande coral vestido em batas africanas.

Na etapa nacional, o Mocotó de Erlon Chaves conseguiu apenas a sexta colocação. Mesmo assim, foi convocado a se reapresentar na final internacional. Dessa vez, mulheres seminuas (brancas e louras) se integraram ao número, rodeando o maestro e cobrindo-o de beijos, para escândalo da face mais conservadora da sociedade, aí inclusas esposas de generais ancorados em Brasília. Na memória de um dos músicos presentes no palco, João Parahyba, do então nascente Trio Mocotó, a rebeldia foi além: alguns dos integrantes do coro teriam levantado suas batas sem mais nada por baixo, exibindo as bundas ao vivo, em cadeia internacional. Não se conhece registro visual do incidente, e Parahyba parece solitário na lembrança desse detalhe.

Poucos dias depois, Erlon deveria repetir a apresentação a pedido do apresentador Flávio Cavalcanti, em seu programa dominical na TV Tupi. Foi preso antes que o fizesse, como conta Flávio Cavalcanti Jr., hoje diretor da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert): “Erlon estava ensaiando, chegaram policiais sem farda. Tiraram ele do chão literalmente, encapuzaram, jogaram numa Veraneio. Ficou num batalhão quatro ou cinco dias, e depois soltaram”.

Cavalcanti Jr. nega a versão de que Erlon tenha sido maltratado na prisão. “Deram um susto nele. Não sofreu tortura, nem entrevista, inquérito, nada. Mas ficou muito apavorado, saiu de lá arrasado, querendo ir embora do Brasil.” De um modo ou de outro, todos os “vitoriosos” daquele FIC perderam o rebolado diante da pesada repressão que se abateu sobre o súbito levante black, ao qual naquele momento até os branquelos Ivan Lins e Wanderléa aderiram.

Ivan, outro contratado da Simonal Produções, emplacou O Amor É o Meu País como vice-campeã da fase nacional do V FIC. Mas a canção despertou discórdia à esquerda, pela ambigüidade exprimida pelo artista iniciante, meio perdido entre o soul inofensivo de amor e a adesão ao “ame-o ou deixe-o”. “A repressão e a censura estavam muito violentas. A classe pensante estava totalmente desorientada. E os militares se apossaram de nossos símbolos – bandeira, hinos, cores, até a palavra ‘país’. Sofri muito com a patrulha. Parei de cantar a canção”, diz hoje Ivan, que, no entanto, conseguiu aos poucos driblar a patrulha e se reinventar.

De resto, a carreira musical de Tornado foi abortada, ou se auto-abortou, no nascedouro (ele se tornaria mais tarde ator de novelas da Globo). “Estavam com medo que ele fosse um líder negro que pudesse insuflar a massa negra, causar a turbulência nacional”, diz Tibério Gaspar.

Antonio Adolfo afirma que só recentemente tomou consciência das implicações comportamentais, raciais e políticas em que sua BR-3 esteve envolvida – quando leu A Era dos Festivais – Uma Parábola (Editora 34, 2003), de Zuza Homem de Mello. “Eu não tinha consciência de black power, talvez Tibério tivesse”, diz. “Tinha a coisa do Martin Luther King, os Panteras Negras, mas eu nem sabia que aquele símbolo que o Toni usava era dos Panteras Negras. Para mim era coisa de índio.” Mas observa: “Jorge Ben saiu ileso daquilo tudo, é engraçado. Até Jair Rodrigues foi perseguido. Elis Regina teve que fazer média para não ser presa, lembro dela fazendo propaganda para o Exército”.

Tibério demonstra que, de fato, tinha maior consciência: “O black power começou a aparecer com a gente. Fui chamado no SNI, interrogado por quatro coronéis. Havia um dossiê meu, esquerda, fichário, negócio meio grave, eu quase dancei mesmo”. Segundo ele, o colunista social Ibrahim Sued, d’O Globo, teria espalhado a seguir a falsa informação de que BR-3 era, na verdade, uma canção sobre drogas, sobre injetar heroína na veia.

Em 1970, a turma d’O Pasquim também entrou na dança. Em novembro, logo após a publicação de uma charge de Jaguar na qual D. Pedro I aparecia gritando “eu quero mocotó!!” às margens do Ipiranga, quase toda a redação foi em cana. Como expôs a historiadora Beatriz Kushnir no livro Cães de Guarda – Jornalistas e Censores, do AI-5 À Constituição de 1988 (Boitempo, 2004), adiante o governo plantaria agentes dentro da redação para fazer a censura prévia da produção d’O Pasquim. Um deles era o general Juarez Paes Pinto, pai de Helô Pinhero, a “garota de Ipanema” eternizada em música e letra por Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Numa relação que poderia surpreender os mais maniqueístas, o censor privava do convívio com os jornalistas, dava conselhos e os chamava de “meus meninos”.

Eminência parda do VI FIC, Simonal via pela primeira vez à sua frente uma maré desfavorável. Segundo defende Toni Tornado em depoimento ao documentário, a virada da maré começara um ano antes, na apresentação com Sergio Mendes no Maracanãzinho: “Foi aí que ele arrasou, foi aí que ele causou a tal da inveja, foi aí que começou a bronca”.

“Ele fazia o jogo, era submisso. Não tinha visão política. Temiam que Toni Tornado tivesse”, opina Tibério. “Mas Simonal ficou ameaçado. Era o maior cantor do Brasil e estava prestes a deslanchar uma carreira internacional. Era a bola da vez.”

De fato, 1970 poderia ter marcado o início da internacionalização de Simonal, se o pássaro negro não acabasse abatido em pleno vôo. Stevie Wonder abria seu show naquele ano cantando Sá Marina em inglês, com o nome Pretty World (está gravada em Stevie Wonder Live, 1970). E esteve com ele aqui no Brasil, como lembra o filho mais velho do homem, Wilson Simoninha: “Houve um almoço para ele, eu me lembro porque era um cego andando ali pela minha casa. Miele e Ronaldo Bôscoli falavam que à noite eles fizeram uma jam que foi até o dia raiar, meu pai, Elis e Stevie Wonder”.

No mesmo ano, em visita ao Brasil, uma Sarah Vaughan embevecida (e negra) duetou com Simonal na TV, em imagens entortantes, de emocionar, recuperadas em Ninguém Sabe o Duro Que Dei. Ao mesmo tempo, a atriz louríssima Brigitte Bardot, também cantora bissexta, regravou Nem Vem Que Não Tem em francês, como Tu Veux Ou Tu Veux Pas.

E houve mais. Ainda em 1970, também veio ao Brasil para o V FIC o maestro Quincy Jones, futuro dínamo por trás do estrondo de Thriller (1982), de um certo Michael Jackson. Diz Simoninha: “Eu não me lembro, mas sei que Quincy ficou aqui com Simonal. Saíam direto. Sempre ouvi meu pai dizer que um dos motivos para sua saída da Odeon foi que a gravadora não quis fazer um disco dele com Quincy. Ficou puto”.

Simonal, o derradeiro disco pela gravadora onde se construíra, saiu em dezembro, pela primeira vez dissociado do imaginário da pilantragem. Mesmo sob a barra pesada do FIC, Simonal pisava dessa vez no acelerador do black power. O funk-baião Destino e Desatino de Severino Nonô na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (Oh Yeah!), de Renato Luiz, soava agressivo no limite da grosseria, explorando as peripécias de um astro pop ultracomercial nascido “no bairro de São Caetano, cidade de São Salvador”, que “foi pro Rio levando a gaytarra e a fome” e fez fama americanizada “cheio de renda e babado e cabelão de mulher”. À época, a minoria negra e a minoria homossexual não tocavam na mesma banda (hoje tocam?).

O soul Moro no Fim da Rua, de Luis Vagner e Tom Gomes, é outro que retroativamente soa profético, pela letra e pelos gritos de Simonal ao final, “I don’t want to be alone”. Gomes, hoje jornalista ligado à indústria fonográfica, conta a história: “Luis Vagner morava no Solar da Fossa, no fim da rua. Era uma república maravilhosa, de jornalistas, artistas plásticos. Lá moravam Caetano Veloso, Gal Costa, Paulo Diniz. Luis começou a música, ‘moro lá/ no fim da rua onde tudo é escuro demais/ escuro demais’, e eu completei. Mas não houve preocupação nossa de fazer para o Simonal. Depois é que ele gravou, para minha felicidade”.

O solo de guitarra em Moro no Fim da Rua era do futuro astro samba-soul Hyldon, que assim remete à “alienação” política de sua turma e à derrocada de Simonal: “Aquela história nunca me convenceu, mas era só intuição. ‘Dedo-duro’ todo mundo falava, quer dizer, a galera da zona Sul falava, o pessoal da MPB. Na galera da jovem guarda, do rock, no meio artístico mais popular isso passou batido. Todo mundo continuava gostando e admirando Simonal”.

Outra faixa notável do LP de 1970 é Deixa o Mundo e o Sol Entrar, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, um ataque à monogamia e à prisão do casamento, pura contracultura, de linguagem até hoje avançada. Transtornado em black power à brasileira, pronto para o mundo, foi aí que Simonal abortou. Como? Por quê?

1971. O astro começou o ano participando de um novo programa da Globo, o Som Livre Exportação, liderado por Elis Regina e Ivan Lins. “Naquele começo dos anos 70, quando entrou o Garrastazu Médici, nosso Pinochetzinho, a barra estava muito, mas muito pesada”, lembra Ivan. “Havia muito medo no ar. Em janeiro, começou o programa. Pelo tamanho da censura que rolava dentro da Globo, a ‘exportaçao’ bem que poderia ser traduzida por ‘exilio’. Chegamos a conversar algumas vezes nos bastidores, e Simonal era totalmente apolítico. Não queria saber do que acontecia por trás do pano. Eu também, nessa época, não sabia direito.”

Em questão de meses, Simonal seria um dos exilados, sem nem precisar sair de casa. Em 24 de agosto, o cantor migrou da música de diversão para o noticiário policial. Teria descoberto um desfalque na Simonal Produções e suspeitado de Rui Brizola (então sócio de Magaldi e futuro vice-presidente da Traffic Sports) ou de Rafael Viviani, funcionário da empresa. Com a aparente conivência e o carro de Simonal, Viviani foi seqüestrado, levado ao Dops e torturado, numa seqüência de eventos comandada e/ou testemunhada por dois, ou três, ou quatro, ou mais agentes do órgão, todos supostamente “amigos” do artista.

No Correio da Manhã do dia 29, surgiram informações de que Viviani fora “espancado e seviciado com choques elétricos numa dependência policial”, em reportagem aparentemente fundada num depoimento do cantor à policia – pois ninguém entrevistou Simonal naqueles dias. No depoimento, o cantor teria dito sofrer ameaças anônimas por telefone de pessoas que se diziam terroristas, e que “o que os terroristas querem é meu dinheiro para financiar seus movimentos”. (O documentário reencontra Viviani nos anos 2000, numa periferia paulistana, em frangalhos. Ele corrobora a tortura, e interpreta as declarações do ex-patrão à polícia como motivadas pela orientação de advogados.)

Numa lufada de vento, o garoto-propaganda de Médici, do Patropi, do “Brasil, ame-o ou deixe-o” ganhava as folhas policiais como protagonista de uma trama feita de vários temas-tabu, daqueles que a ditadura dava os dois braços, esquerdo e direito, para manter trancafiados no porão. À esquerda, subversão e terrorismo. À direita, tortura e choques elétricos numa dependência policial.

Em setembro, O Pasquim publicou o desenho do “magnífico” dedo indicador apontado de uma mão pintada de preto, e acrescentou: “Como todos sabem, o dedo de Simonal é hoje mais famoso do que sua voz”.

João Parahyba, que estivera no México com Simonal e naquele período tinha seu Trio Mocotó apadrinhado pelo Pasquim, avalia: “Adoro Jaguar, Millôr Fernandes, Paulo Francis e Henfil, mas Jaguar foi foda com Simonal. Dedo-duro era o cacete. O Pasquim pôs na frigideira, era um prato feito. Serviu talvez de informação nanica para a grande network acabar com a raça de Simonal. Foi para a boca do povo, porque informação mal dada passa de um para o outro”.

Assessora de Flávio Cavalcanti nos anos 1970, a jornalista Léa Penteado formulou uma versão mais incendiária para o caso, na biografia do apresentador que lançou em 1993. “Só depois de muitos anos (Simonal) soube, através de amigos, que o dinheiro desviado por Viviani era repassado a Dulce Maia, irmã do publicitário Carlito Maia, conhecida militante de esquerda, com o objetivo de financiar guerrilhas”, Léa escreveu e publicou em Um Instante, Maestro! (Record).

Ligada a Carlos Lamarca, Dulce foi torturada e banida do país em 1970. “Esses dados foram extraídos de uma entrevista que fiz com Simonal, em 1991 ou 1992”, me contou em 2008, Léa, então secretária de Cultura de Santa Cruz Cabrália (BA). A hipótese que lançou até hoje não foi comprovada. Nem tampouco foi testada ou investigada, seja na imprensa ou noutro canto.

Furioso até hoje com o que classifica como “inveja” contra Simonal, Nonato Buzar (à época compositor de trilhas de novelas da Globo) joga a esmo mais alguns tijolos no muro inconcluso. Sobre o momento em que o parceiro descobriu o suposto desfalque, ele diz: “Simonal foi procurar o Rui Brizola, e não encontrava. Todo mundo tem amigo detetive, da polícia, quem não tem? Foram procurar o Rui em vários lugares, inclusive na casa do Carlito Maia, e lá encontraram coisas subversivas. Eu fui preso três vezes, porque era fundamentalmente contra a ditadura, sempre fui. Simonal nunca nem pensou nisso. Prenderam ele, aí disseram que caguetou o Carlito. Ele caguetou sem querer”.

Nonato diz que não quis dar depoimento em Ninguém Sabe o Duro Que Dei, e explica a razão: “Porque eu tenho medo de mim”. Não é só ele, ao que tudo indica. O codiretor Calvito Leal explica ausências célebres no documentário: “Vários caíram por causa de data, vários não responderam, alguns não toparam. Jorge Ben Jor não deu resposta, Roberto Carlos também não. Nunca era diretamente ‘não quero participar’, era ‘preciso ver’. Tem uma coisa horrível, ninguém gosta de chutar defunto. Mas nunca existiu uma pessoa que levantasse bandeira contra o Simonal, era sempre à boca pequena. Não existia o anti-Simonal”. (Não são só os contrários que se calam sobre as desventuras de Simonal, como faz transparecer uma história contada por seu filho caçula, o hoje músico Max de Castro: “Em 1986, fui com meu pai a um show de Roberto Carlos no Maracanãzinho. No final, a gente foi lá atrás. Quando Roberto viu meu pai, ficou emocionado. Veio, se abraçaram uns 15 minutos chorando sem falar palavra. Trocaram uma frase, Roberto foi embora”.)

Léa Penteado interpreta as relações de Simonal com o trio Magaldi-Prosperi-Maia: “Os publicitários viram nele, com todo o sucesso de comunicação, um ótimo garoto-propaganda. Creio que houve muita ingenuidade do Simonal e de todos os artistas daquela época, que não estavam preparados para ganhar tanto dinheiro e ter tanta fama em tão pouco tempo. Não havia profissionais no mercado para assessorar. E até hoje, mesmo tendo ótimos profissionais, às vezes tem alguém que passa a perna no mais fraco”.

Simonal morreria culpando os ex-parceiros comerciais pelo desterro que ele, afinal, também foi responsável por provocar. Passou a acusar Magaldi de tê-lo roubado e a classificá-lo como responsável por barrar qualquer acesso dele à Globo, já que o publicitário virara um dos todo-poderosos da rede, o homem por trás do “plim-plim” da então autoapelidada “Vênus Platinada”. Magaldi, Maia e Prosperi morreram sem jamais contar em público suas versões para o grande cisma.

As imbricações desses personagens com a Globo explicariam a completa ausência de referência a eles num filme que leva o carimbo da Globo Filmes? Cláudio Manoel sustenta que não: “Quando fomos direto ao Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho), o resto virou subtema. O Boni é mais a Globo que o Magaldi. Os filhos dele não quiseram dar a versão deles. Ia desequilibrar, botar no morto uma das possibilidades”.

Em 1999, quatro dias após minha entrevista com Simonal, o Painel do Leitor da Folha publicou a seguinte carta: “Somos filhos de João Carlos Magaldi, maldosamente mencionado pelo senhor Wilson Simonal na entrevista publicada em 21/5. É uma atitude covarde acusar uma pessoa que não pode se defender, pois já está morta. Onde estão as provas de que o nosso pai roubou o sr. Simonal? A história profissional de nosso pai mostra a sua preocupação social, a sua ética e o quanto valorizava o ser humano. Essa tentativa do sr. Simonal de retomar a sua vida profissional denegrindo a imagem de várias pessoas, inclusive de nosso pai, demonstra sua mesquinhez e seu verdadeiro caráter.” Era assinada por Álvaro B. Magaldi e Monica Magaldi Suguihura, que também tentei contatar em 2008, sem qualquer sucesso.

1972. A partir do início do ano, o ex-soberano da pilantrália desapareceu do noticiário, fosse o musical ou o policial. O muro de concreto se erguia rapidamente ao seu redor. Na beirada do abismo, surpreendentemente, foi contratado pela Philips, a mesma gravadora que fomentava Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Jorge Ben, Gal Costa, Tim Maia, Raul Seixas, Rita Lee e dezenas de outros nomes da linha de frente da MPB, sob a direção do francês André Midani, outro personagem de quem Simonal levaria mágoas profundas para a eternidade. “Fui seduzido por um sujeito que veio para acabar”, me disse em 1999, referindo-se ao ex-presidente da gravadora.

No final de 2001, entrevistei Midani para a Folha e perguntei sobre Simonal. Ele afirmou que era “penoso dizer”, mas havia contratado o artista a “pedido” de uma “pessoa muito importante” do governo militar. “Tive que ir artista por artista, entre os mais importantes, explicando que ia ter que contratar o Simonal. Claro, não era um bichinho amado na companhia”, afirmou.

“Toda a MPB, sem exceção, o boicotou. Foi caça às bruxas, um macartismo brasileiro. Tem gente muito pior que ele, que passou em brancas nuvens”, protesta hoje João Parahyba. Max de Castro afirma que a mitologia da queda do pai “foi boa para todo mundo”, da esquerda à direita. “Os que não gostavam dele finalmente se viram livres. Para artista que não era engajado e era alienado foi bom, porque esqueceu a própria covardia”, diz. “Para artistas de esquerda foi bom porque isso dignificou mais ainda a luta deles, que sobreviveram mesmo apesar das delações de suas atividades.”

Procurei Midani novamente em 2008, mas ele se esquivou de nova entrevista acrescentou apenas alguns pontos dispersos, por e-mail: “Que Simonal freqüentava o pessoal do Dops, freqüentava. Ele devia gostar de frequentar ‘os homens’, certamente lhe dava uma gostosa sensação de poder, e disso ele gostava. Que não consta nos arquivos do Dops nenhuma referência a denúncias que ele teria feito sobre seus colegas, não consta. E a gente nunca ouviu dizer: ‘Fulano foi posto em cana por causa de uma denúncia do Simonal’. Que ele mandou dar uma surra no contador, não tem a menor dúvida, e, como ironiza Jaguar, talvez o contador merecesse receber uma surra”.

Midani também trouxe Magaldi à baila: “Há uma pessoa que, me parece, poderia ter trazido importantes informações, e essa pessoa era Magaldi, que não está mais conosco. Era sócio do Simonal e, conseqüentemente, teria sido também roubado. A gente nunca ouviu nenhum comentário de sua parte, e no entanto foi Magaldi que deflagrou a campanha contra o ‘dedo-duro’ Simonal”.

Meses mais tarde, entrevistei pessoalmente o ex-diretor da Philips, por conta do livro que ele estava lançando, e voltamos ao assunto. Num trecho até hoje inédito da entrevista, Midani prosseguiu um pouco mais: “A história que conheço, a mais sem gordura, é que Simonal era o rei do país, e foi lá na companhia, e não havia um puto de um dinheiro para ele. Quis saber, chamou lá uns caras do Dops, uns polícias, ‘vão dar uma surra no contador’. Deram uma surra no contador. Você diz, que horrível, deram uma surra no contador. Mas há outros aspectos a considerar. Simonal era um menino completamente ignorante. O dinheiro dele desaparece, ou pelo menos não aparece, não vou dizer que eu faria a mesma coisa, mas entendo uma pessoa de educação muito primária dizer ‘filho da puta, dá uma surra e vamos ver o que é’. E deram uma surra”.

E voltou a ressaltar, de modo mais ou menos enigmático, o que parece considerar o cerne da questão: “O sócio de Simonal quem era? Era o Magaldi. Mas por que Magaldi ficou tão ofendido com a não-pureza política do Simonal? Simonal não era nem de um lugar nem era do outro. Para ele qualquer coisa estava bem. Então o que eu imagino é que tem um pedaço importante dessa história entre Simonal e Magaldi que nunca foi contado, e que só eles dois sabem”. Sabem, mas estão mortos.

Na Philips de Midani, um Simonal já fortemente marginalizado gravou mais três discos entre 1972 e 1974. Caíram em completo vazio, e até hoje não foram observados com atenção ou pelo menos curiosidade (permanecem inéditos em CD). No álbum de 1973, batizado com o hermético nome de Olhaí, Balândro... É Bufo no Birrolho Grinza!, Simonal introduzia em meio a uma roda de samba uma enigmática frase: “Eu vô batê pa tu batê pa tua patota”.

1974. O mote seria glosado com grande sucesso popular no samba-rock Vô Batê pa Tu, interpretado por Baiano & Os Novos Caetanos, ou seja, pelos humoristas Chico Anysio e Arnaud Rodrigues, fantasiados de baianos caricaturais. Os autores de Vô Batê pa Tu eram Arnaud e Orlandivo, e a letra dizia que “é papo de altas transações/ deduração/ um cara louco que dançou com tudo/ entregação do dedo de veludo/ com quem não tenho grandes ligações”.

O samba-roqueiro Orlandivo explica para confundir, ou confunde para explicar: “A letra era do Arnaud. Acho que ele fez em cima de coisas derivadas de drogas. Há várias dimensões de desconfiança de que podia ser sobre Simonal, ou de que tinha a ver com droga. Mas onde eu andava achavam que Vô Batê pa Tu pegou em cheio no Simonal. Arnaud só ria quando a gente conversava sobre isso”. Não sei explicar por que, mas não cheguei a procurar Arnaud Rodrigues.

Autor gravado por Simonal em 1964 e 1965, Orlandivo evoca uma lembrança dos tempos pré-fama do cantor. “Pouca gente sabe, mas antes de cantar ele trabalhava numa firma de cobrança de cheque sem fundo. Cobrava cheque em bar e restaurante. Depois o cara se torna sucesso, e era o cara que cobrava cheque sem fundo. Na minha cabeça, acho que isso deu margem a outras coisas, ‘esse cara me cobrou diante de todos os meus amigos’”, especula.

Tibério Gaspar, candidato a vereador carioca à esquerda, pelo PC do B, em 2008 (com 388, não se elegeu), adentra nos temas espinhosos da delação e do colaboracionismo: “Era uma época infeliz, um regime de exceção. Não se pode raciocinar com regras de estado de direito em estado de exceção. Os militares exigiam muitas posições, ou você estava a favor ou estava contra. Valia para pessoas e para firmas. Falar que o César de Alencar era informante? Ele tinha programa estourado na Rádio Nacional, todos iam cantar lá. E a Rede Globo, não foi o porta-voz da ditadura, não passava o Amaral Netto enquanto matavam gente no Araguaia? Não eram cúmplices também? Simonal foi o menor mal”.

Depois de três anos de sumiço do olho público, o ex-rei da pilantragem voltou aos jornais de modo dramático, em 13 de novembro de 1974, ao ser condenado pelo juiz João de Deus Lacerda Mena Barreto a cinco anos e quatro meses de prisão, mais um ano de internação em colônia agrícola. Amigo íntimo do cantor e homem que se dizia de esquerda, Chico Anysio prestou-lhe amparo, e é até hoje seu ferrenho defensor, como se pode constatar no documentário.

O noticiário daqueles dias foi dos mais desencontrados. Informações picotadas davam conta de que a condenação ocorrera pela madrugada, sem a presença do réu. Declarações do cantor só apareceram no jornal Última Hora, onde Carlos Imperial era colunista. “O delegado Sérgio Fleury é meu chapinha e tudo vai correr dentro do figurino”, teria dito Simonal. Sérgio Paranhos Fleury, sanguinário delegado do Dops, chefiara a captura e morte de Carlos Marighella, em 1969. Antes, fora segurança da TV Record e de Roberto Carlos, no auge do Jovem Guarda.

Dois supostos agentes do Dops, acusados de terem participado da captura e tortura de Viviani, foram condenados à mesma pena. O Globo os apresentou um como “industrial trabalhando em torrefação de amendoim”, outro como “vigia de um departamento do Estado”. Estavam foragidos, e não se leu na imprensa notícia sobre a prisão dos dois.

Mas foi absolvido um outro personagem, Mário Borges, descrito nos jornais ora como “inspetor do Ministério da Indústria e Comércio”, ora como “chefe da Seção de Buscas Ostensivas do Dops” e, portanto, suposto chefe dos agentes punidos. Era invariavelmente apresentado nas reportagens como “amigo” de Simonal.

Talvez não fosse bem isso. Segundo o livro de Léa Penteado, Borges era segurança pessoal de Simonal. Segundo a autora, Borges teria acusado o “patrão” de informante tentando se livrar e justificar o fato de trabalhar como segurança nas horas vagas – como talvez aconteça até hoje, entre poderosos à procura de proteção e policiais à procura de bicos complementadores de salário. Na sentença, parcialmente reproduzida n’O Globo, o juiz afirmava que o próprio Simonal se definira como informante do Dops, e usava o “fato confirmado” como ponto de apoio para condená-lo.

Ou seja, um juiz imerso nas entranhas da ditadura condenava o réu famoso, entre outros motivos, por ser informante da... ditadura. Mas fazia malabarismos para absolver Borges, presumido executor da infração, e engavetava o termo “tortura”. Compreende?

Quaisquer que fossem as relações reais de Simonal e Borges com a ditadura, aparentemente ele e seu “amigo” tentavam jogar a batata quente um na mão do outro. Ela terminou na mão de Simonal. E não era batata quente, e sim uma banana de dinamite, cuja explosão terminaria de soterrar o cantor então já repudiado nos círculos de músicos e jornalistas aos quais antes pertencera. A ditadura, que tanto gostara de se colar à imagem de Simonal, enfim abandonava o bode expiatório ao próprio azar. “Culpado”, ele pagaria pelos próprios erros e abusos, mas também pelos de uma legião de “inocentes”.

Condenado, Simonal entregou-se imediatamente. Viajou de São Paulo ao Rio e foi apanhado na pista do aeroporto, sem passar pelo saguão. A polícia, segundo a imprensa, queria evitar qualquer pronunciamento do cantor. Pergunta até hoje nunca respondida (ou formulada): por quê?

Sem acesso a Simonal, o jornalismo papagueou versões a granel, menos a do réu. No dia 13 de novembro, o cantor chegou para ouvir a sentença do juiz segurando um exemplar do livro Universo em Desencanto, que naquele momento fazia as cabeças de Tibério Gaspar e Tim Maia, ou melhor, Tim Maia Racional. Presentes, Flávio Cavalcanti, Erlon Chaves e Agnaldo Timóteo choraram abraçados ao condenado.

Cavalcanti Jr. narra os acontecimentos do dia seguinte: “Sei que era dia 14 porque haveria eleições no dia seguinte, 15 de novembro de 1974 (a data marcou o primeiro grande revés eleitoral da ditadura militar). Íamos subir para a casa de Petrópolis, e Erlon me disse que ia comprar uns discos para levar para Simonal na prisão. Teve um infarto e morreu na loja de discos”. Entre as módicas declarações de Simonal que surgiram nos jornais nos dias seguintes, estava esta: “Ele morreu por minha causa”.

Após 12 dias, o cantor-presidiário foi libertado por habeas corpus e, num segundo julgamento, teve a pena abrandada (pelo mesmo juiz Mena Barreto, segundo Léa Penteado) para seis meses de detenção, que cumpriu em liberdade. Morreria se queixando de que a imprensa nunca publicara uma linha sobre o depoimento de um tal inspetor Vasconcelos, chefe de Borges, que teria desmentido a condição de “informante” do cantor.

Seguiu feito morto-vivo, num calvário de discos e shows ignorados pela mídia, quando não reportados só como pretextos para que os jornalistas abordassem a pena perpétua informal – como foi o caso de minha entrevista em 1999. O Brasil se tornou sua prisão domiciliar a céu aberto, e nós, os “inocentes” (e/ou cegos, surdos e mudos), vestimos a carapuça de carcereiros vitalícios do “vilão” oficial da nação.

Mesmo que tenha sido colaborador ou informante da ditadura em alguma instância, Wilson Simonal de Castro morreu sem conseguir compreender por que jamais foi perdoado. Afinal, o perdão (se é que cabe esse termo) foi amplo, geral e irrestrito para a maioria dos colaboradores do regime, entre eles homens com sobrenomes como Marinho e Frias – ou seja, os proprietários dos meios de comunicação que veiculavam (e vez por outra ainda veiculam) julgamentos sumários contra o bode preto, ex-pobre, depois ex-rico. E Simonal devia saber que alguns de seus algozes colaboraram com a ditadura com empenho bem maior – o livro de Beatriz Kushnir documenta, por exemplo, o uso de peruas do Grupo Folha no transporte de “subversivos” às dependências policiais onde seriam torturados e eventualmente mortos.

A história continua inconclusa, com muitas peças ainda a serem encaixadas. A mim, particularmente, alinhar aqui tantas informações intrincadas parece importante de algum modo estranho, e me ajuda a compreender por que até hoje, dez anos mais tarde, ainda me perturba e incomoda e machuca tanto a lembrança daqueles minutos desencontrados passados ao lado de Simonal no saguão de entrada da Folha. Eu nem sequer imaginava na ocasião, mas meu papel ali era de carrasco.

Segunda-feira, Junho 22, 2009

Hoje cedo, na rua do Ouvidor

Outro dia fiz minha rápida incursão pela São Paulo Fashion Week, e foi o suficiente para que o monstro do incômodo me perseguisse e se transformasse, em poucos minutos, na tromba de elefante do mau humor.

Bem na entrada, estavam os caras do movimento negro (suponho) portando faixa contra a desfaçatez da discriminação de negros e negras nas passarelas do evento de moda mais multicolorido do Brasil.

Pessoalmente, adoro a reivindicação dos caras e o posicionamento que eles têm tomado nas cercanias do pavilhão da Bienal e nas periferias da Fashion Week. Juro, não entendo como alguém consegue entrar no pavilhão em festa se sentindo bem depois de passar por aquela faixa.

Na minha entrada, por ato reflexo, sorri para um dos caras que seguravam a faixa e falei algo como "é isso aí, muito legal!!!". ao que ele respondeu, sério, algo como "pois é, como é que podem se dizer contra a violência legitimando a violência?".

Não me serviu como paliativo tentar uma frasezinha de apoio ao levante contra o racismo das lulus e dos lulus. Eu me senti branco como cera falando para o cara que a atitude deles é o máximo, mas entrando com meu convitinho (branco como mármore) na mão na alcova dos leões.

Aí fui assistir a um desfile, confesso que menos curioso pelo desfile em si que pelo(a)s modelos negros que iam desfilar - uma amiga querida que estava trabalhando na engrenagem disse que o povo (não, este não é um bom termo aqui) da Fashion Week optou por colocar algo como "dois modelos negros" por desfile, para amainar os ânimos (suponho).

Entendi, essa deve ser a tal "cota de 1" de que falou com imensa propriedade o José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares. Em entrevista que está publicada aqui mesmo, mais ali abaixo, disse assim o Vicente:

"Nós estamos agora contestando a cota de 10% ou 20%. Criamos a cota de 1. Você vai ver que em alguns lugares os caras agora fazem questão de pôr um negro: 'Olha, tem um aqui, tem um no bolso pra você'. Ou quando você discute espaços de responsabilidade social: ''õe um negro aí na propaganda, pra que possamos nos apresentar politicamente corretos". Mas o 'politicamente correto' é um negro e 30 não-negros do lado".

É isso, e eu ali era um desses 30 (para não dizer 300), contra os três modelos negros que iam passar passarinhos pela passarela.

Foram três. Eles entraram, um moço negro, uma moça negra, outro moço negro. Lindos de morrer. E só. A não ser que eu tenha comido mosca (ops!), percebi que cada um fez apenas uma entrada, à parte as belezas estonteantes que carregavam em cima dos esqueletos. Resolve logo esse treco aí, e pano rápido!

Fiquei imaginando a fortaleza que fazer aquele trabalho exigiu de cada um dos três. Porque o tanto de vibração negativa que emanava da plateia para a passarela no passeio dos modelos negros, esse eu senti na minha pele branca, cada vez mais pálida e latejante no pouco tempo em que zanzei por ali.

A propósito, foi zanzando que detectei a farsa da hora. Madame não gosta de samba, madame acha que não deve ter cota nenhuma, que isso é "racismo às avessas" (bombas e esfaqueamentos na parada gay também devem ser resultado de heterofobia, ou de homofobia às avessas, né?). Mas madame está enganada(o), ou então mente descardamente: sim, existe cota para negros na Fashion Week, sim!!!

Existe, ah, se existe. Não sou bom em contas e estatísticas, mas, pelo que pude ver por ali, arrisco chutar que entre os muitos, muitos, muitos seguranças que se moviam na proteção da branquelice geral da nação fashion, no mínimo uns 95% eram - são - pretos. Faxineiras e varredoras poucas eu vi, mas brancas não eram.

E aí, pronto, nem há o que contestar ou discordar de dona Glória Coelho, a estilista que (se teve a fala corretamente transcrita pela "Folha") há meses já cantou a bola. Assim a "Folha" disse que disse a dona Coelho: "Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?". Cruzes. Assim os caras vão ter que rasgar a faixa, não é possível.

O fato é que doeu fundo passar pelos (e até levar patada dos) seguranças negros da Fashion Week e ficar pensando na fortaleza que eles deviam - devem - ter de segurar dentro deles próprios para conseguir ficar impávidos, fazendo vista grossa ao discurso impresso naquela faixa lá fora nas mãos dos caras.

Na saída eu não falei mais nada para os caras da faixa, não consegui nem olhar nas caras dos caras. E saí me sentindo ainda mais nojentamente branco do que tinha me sentido na entrada. Com a tromba de elefante batendo no chão.


[P.S. para um tema que precisa voltar aqui o mais rápido possível (e que não deixa de ter a ver com as cotas para negros nas penitenciárias, quero dizer, nas passarelas brasileiras): todos os méritos ao Mário Magalhães, pelo gol de levantar o conteúdo dos trâmites do caso Wilson Simonal na Justiça Militar Brasileira dos anos 1970 (será que ele não poderia compartilhar, disponibilizar na íntegra aqueles autos?, não seriam caso de utilidade pública?).

Mas, dito isso, me impressiona cada vez mais a obsessão de certos setores por focalizar e sentenciar apenas e tão-somente o papel do Simonal-em-si na história e a dicotomia "era dedo-duro?"/ "não era dedo-duro?" na trama policial que o levou ao pântano definitivo. Me perdoem os caras que respeito e admiro nesses setores (inclusive o Mário), mas me lembram muito, muito, muito, as mariposas de Adoniran Barbosa, esvoaçando ao redor da lâmpada até a morte, enquanto o mundão escuro sem porteira fica dando sopa lá fora, intocado e incompreendido.

O que quero dizer, em outras palavras: quem não abre mão de ficar zumbizando ao redor da mesma lâmpada artificial de sempre pode não entender o que está fazendo, mas dá sua cota gostosa de colaboração para conservar as lógicas mais perversas do status quo (militar-jornalístico-ditatorial) que produziu aquela - esta - história pavorosa.]

Sexta-feira, Junho 19, 2009

26 anos de vida normal, 5 eu passei lendo jornal

Opa! O diploma de jornalista roubou os holofotes da Xuxu no tópico aí abaixo, então eu vou também.

Tenho dificuldade de falar no assunto, primeiro porque não tenho nenhuma opinião fechada, e segundo porque fico dividido entre as duas bandas que tendem a dividir esse debate.

De cara, não me sinto nem um pouco contra derrubarem a obrigatoriedade. Infelizmente, o nosso jornalismo está hoje construído como um amontoado de generalidades, a tal ponto que fica difícil defendê-lo como alguma ciência especializada como medicina ou sei lá o quê.

A propósito, uma das principais sensações que me deixou o curso de jornalismo na USP (e que, ao contrário, não tinha me deixado o curso de farmácia na UEM) é a de que passei quatro anos lá sem aprender nada de concreto. Mesmo assim foram alguns dos melhores, mais divertidos e mais felizes anos da minha vida - inclusive no sentido da aprendizagem, embora raramente conseguida em livros.

[Depois de formado na "progressista" USP, fui ser serviçal da tradicional sociedade direitista paulistana (e brasileira), mas isso é outra conversa, que a gente pode ter outra hora...]

Mas eu lamento que a derrubada da obrigatoriedade coincida com este momento de esculhambação e de desprestígio máximo da profissão do jornalismo. Quem fez essa mixórdia com o jornalismo fomos os jornalistas (quer dizer, também nossos patrões, mas...), e nesse caso não adianta reclamar que a sociedade está desvalorizando a nossa especificidade, o nosso patrimônio, o nosso know-how. Quem desvalorizou primeiro fomos nós.

Só que essa coincidência histórica leva a coisa pra uma outra banda de que eu não gosto nem um pouco, que é esse modismo de que diploma não serve pra nada, de que não é preciso estudar jornalismo, de que fazer jornalismo é igual a fritar ovo, de que o jornalismo já era. Aí acho que vão alhos e bugalhos (e não entendo, Dafne, como seja possível a gente se "decepcionar" com o Leandro Fortes porque ele é pró-diploma, ou só por causa de uma diferença de opinião). O raciocínio pró-esculhambação só pode levar a mais esculhambação ainda, não?

Como eu poderia resumir o que estou tentando dizer? Talvez afirmando que, sei lá, acho magnífico um cara poder exercitar jornalismo sem diploma - seja ele o José Sarney, a Marina Silva, o Gerald Thomas, o FHC, o Luiz Inácio ou você que está lendo isto agora. Mas que, outra vez, isto não é caso de "ou", mas sim de "e". Diploma pode não ser obrigatório, mas continua a ser algo ótimo, maravilhoso, que ajuda a formar alguns dos melhores profissionais do pedaço (alguns, não todos, longe disso).

Cruzes, isto aqui ficou com cara de editorial... Isso porque afirmei que eu não tinha (e não tenho) opinião formada...

Mas que a celeuma dá margem pra umas situações engraçadas, dá. Do tipo Gilmar Mendes retribuindo o amor que os jornalistas lhe devotam chamando-(n)os de cozinheiros... Ou do tipo Otavio Frias Filho, que tanto se escandalizava com o fato de Lula não ter diploma, defendendo que não precisa ter diploma pra trabalhar no jornal dele, ou que não precisa ter diploma de jornalista pra ser jornalista "dele"...

Terça-feira, Junho 16, 2009

Sobrevivendo no inferno

Roubado d'O Blog do Guaciara, vai aí o formidável clipe "Pantera Cor-de-Rosa", da rapper Xuxu, de Juiz de Fora (MG).



O que pensaria sobre ela o ministro da Cultura? Que é uma artista "malsucedida"?

Sábado, Junho 13, 2009

pombo-correio, voa depressa

duas coisas, ambas de certa forma incitadas pelo já célebre caso petrobras.

a primeira: algo me diz que chegou a hora de Este Blog começar a usar Letras Maiúsculas. Foi boa enquanto durou a brincadeira de só falar em "caixa baixa" (para usar um jargão jornalístico), mas, como diria não lembro quem, O Tempo Ruge.

A segunda: na caixa de comentários de um dos tópicos abaixo (aquele que falava do caso Petrobras), recebemos uma reflexão do Beni Borja, ex-integrante do Kid Abelha e dono da gravadora independente Psicotrônica (por favor, me corrija, Beni, se eu tiver dito algo errado).

Pelo que entendi, foi um texto que ele escreveu em uma troca de e-mails com o Pedro Doria, mas o próprio Beni quis tornar público e copiou na janela vermelha ali abaixo. E eu fiquei achando mais que pertinente trazer a discussão cá para o blog-em-si.

Segue o texto dele, daqui para baixo, até o final do tópico.

@

Por BENI BORJA

"Faz uns vinte anos que eu escrevo os press-release dos discos que eu produzo.

Comecei por acaso, porque não gostei do release que o departamento de imprensa da gravadora fez para o primeiro disco que produzi.

Como sou relativamente alfabetizado e detinha a informação , já que havia acompanhado todo o processo de fazer o disco, achei que eu podia escrever algo como subsídio para o departamento de imprensa. Quando eles receberam meu texto, me disseram que estava ótimo e mandaram para a imprensa.

De lá prá cá, escrevo quase sempre o release dos discos que faço e outros tantos para diversas comunicações à imprensa dos artistas que represento.

Por conta disso ,adquiri uma certa experiência nesse lado do balcão , o da assessoria de imprensa , no meu mundinho da música e do entretenimento.

Nesse tempo ,vi um progressivo afastamento entre os jornalistas e a fonte da informação. Antes, o release era só um elemento para pautar a conversa entre o jornalista e o artista. Hoje com os jornalistas trancados nas suas redações , ele é frequentemente a única fonte de informação.

Cada vez mais vi os meus releases serem copiados , muitas vezes palavra por palavra, na imprensa. Hoje arrancar um jornalista da redação para entrevistar um artista , ou mesmo para ir assistir um show ,é um feito notável da assessoria de imprensa.

O negócio da imprensa cada dia menos era o de apurar as informações "in loco" , e mais o de mediar as relações entre os provedores de informação - os escritores de release - e o público em geral. Com a possibilidade de desentermediação que a internet oferece , esse trabalho perdeu simplesmente o sentido.

Acho que essa é a questão essencial da querela do blog da Petrobrás. Se as únicas informações que o jornalista dispõe são as que empresa fornece , ele será um intermediário cada dia mais inútil.

A reportagem é a essência do trabalho jornalístico, mas ela é cara e de resultados incertos. Os "gestores" de empresas de mídia , resolveram naturalmente que esse é um custo a ser eliminado.

Não é muito diferente do que aconteceu com a música , onde os gênios da gestão resolveram que o trabalho de busca e desenvolvimento de talentos , de resultados igualmente incertos , devia ser cortado dos seus orçamentos".

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Quinta-feira, Junho 11, 2009

dedé mamata

então a comissão nacional de incentivo à cultura (cnic) acha que caetano veloso não precisa de 2 milhões de reais de "incentivo" fiscal para bancar seu novo show, mas jo ministro da cultura juca ferreira (além da paula lavigne, é óbvio) acha que ele precisa? ou melhor, se bem entendi, acha que ele não precisa, mas prefere "incentivar" mesmo assim?

sei, sei, sei.

Quarta-feira, Junho 10, 2009

um jornal é tanta gente (*)

e, surpresa!!!!!!!, os jornais podem ser contra, mas a imprensa também está do lado do blog da petrobras (e é deste lado que eu me coloco, irrestritamente)! recolho do blog "fatos e dados" as seguintes informações (com grifos e itálicos de minha autoria):

A ABI e o blog da Petrobras
Junho 10, 2009 by Blog Fatos e Dados Petrobras

"Veja abaixo a carta enviada pelo presidente da Associação Brasileira de Imprensa:

'A ABI considera legítima a decisão da Petrobras de criar um blog para divulgação das informações que presta à imprensa e especialmente aos veículos impressos, uma vez que as questões relativas ao seu funcionamento e aos seus atos de gestão interessam ao conjunto da sociedade, que não pode ficar exposta ao risco de filtragem das informações típica e inseparável do processo de edição jornalística. A empresa tem o direito de se acautelar, através das informações que difunde no blog, contra as distorções em que os meios de comunicação têm incorrido, como a própria ABI registrou em matéria publicada da edição de 31 de maio de um dos jornais que agora se insurgem contra o blog da empresa.

A criação do blog constituiu-se em instrumento de autodefesa da empresa, que se encontra sob uma barragem de fogo crítico disparado por vários veículos impressos. Não se poderá alegar que é assegurado à empresa o direito de resposta, uma vez que quando este for exercido a informação nociva já terá produzido afeitos adversos. Ademais, é conhecido principalmente dos jornalistas o tratamento que a imprensa concede tradicionalmente ao direito de resposta, se e quando o reconhece e o acata: a informação imprecisa ou inidônea é divulgada com um destaque e uma dimensão que não se confere à resposta postulada e concedida.

O presente confronto entre a empresa e alguns veículos de comunicação tem inegável cunho político, com favorecimento de segmentos partidários que se opõem ao Governo Lula. A Petrobras encontra-se, infelizmente, na linha de tiro do canhoneio contra ela assestado. Atacá-la com a virulência que se anota agora não faz bem ao País.

Rio de Janeiro, 9 de junho de 2009
Maurício Azêdo, Presidente'"

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tudo em negrito (meu negrito), daqui adiante:

percebe a sutileza? a anj - a associação "nacional" dos jornais - afirma que o blog da petrobras é autoritário, mas a abi - associação "brasileira" de IMPRENSA - afirma que o blog da petrobras é libertário?

a gente já não ouviu essa melodia antes, quando "gravadora" montava discurso em nome da "música"? a gente lembra no que é que deu?

viva a IMPRENSA livre! e viva os jornais, redes de tv, rádios, blogs e twitters que honrem e enobreçam a IMPRENSA livre!



(*) verso de "o jornal", canção de gilberto gil interpretada por erasmo carlos em "a banda dos contentes" (1976). a propósito, diz assim a letra da canção-título desse mesmo disco, por erasmo e roberto carlos: "roer as vinte unhas não adianta nada/ correr pra velha não é solução/ todos dançam tristes na banda dos contentes/ ritmos todos bem diferentes". dá-lhe, erasmão!

Segunda-feira, Junho 08, 2009

separados no berço




apesar, contudo, todavia, mas, porém... cá estes os titãs de que eu sempre gostei:

"acima dos homens, a lei
e acima da lei dos homens
a lei de deus

acima dos homens, o céu
e acima do céu dos homens
o nome de deus

e acima da lei de deus
o dinheiro"

é a melô da crise global?... perestroika já!

Sexta-feira, Junho 05, 2009

só uma terceira força pode acabar com isso

fiquei caladinho até o último momento, porque eu mesmo estava custando a acreditar, só acreditava vendo. mas chegou esta semana às bancas "rc - emoções", uma espécie de revista oficial dos 50 anos de carreira de roberto carlos, editada pela joyce pascowitch. lá dentro está, logo no começo, um texto da minha autoria, um super-hiper-mega-condensado sobre o que veio acontecendo na música brasileira em todos esses anos de existência de roberto carlos.

minha surpresa se deve ao fato de eu ser autor de "como dois e dois são cinco - roberto carlos (& erasmo & wanderléa)" (boitempo, 2004), um livro que até aqui tem sido largamente ignorado pela, er, "cultura oficial" brasileira. se tem sido assim, imagina só eu ter esperança de ter algum tipo de aval (e nenhum tipo de censura) do personagem principal - sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe...

mas não é que, oficialismos à parte, aconteceu algo interessante com esse meu amado "como dois e dois são cinco"?

já no dia de seu "nascimento", o rebento recebeu o aval de wanderléa, que compareceu ao lançamento e ficou lá o tempo todo, maravilhosa, e depois esticou até à festinha chuvosa no fofo puteiro executivo's, no centrão. o meu exemplar pessoal, o que guardo aqui em casa, tem dedicatória escrita e assinada por wanderléa, como se ela fosse (e é) a co-autora indireta do meu livro.

erasmo carlos também chegou a emitir alguns sinais bem indiretos, mas foi só quase dois anos e meio mais tarde que recebi dele um aval também indireto, mas formidável.

e agora isto. por um chamado da joyce acabei escrevendo na revista oficial do pai da matéria (pelo que ouvi e entendi, ele liberaria pessoalmente o conteúdo da revista, texto por texto, tintim por tintim)! bem, esse pode ser o indireto do indireto do indireto, mas acho que posso considerar como um tipo de aval, não posso? posso!

Quinta-feira, Maio 28, 2009

isto é fundo de quintal

eis aí o texto sobre chico science, o mangue bit e a música brasileira dos anos 1990, publicado na "carta capital" especial de 15 anos. estou saindo para dar uma volta neste fim-de-semana, mas depois a gente pode conversar sobre o assunto, e também sobre uns erros que estão contidos aí embaixo e vários leitores já constataram...


No quintal de casa
Antenado com o futuro, Chico Science devolveu o Brasil à música pop

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

O medo da origem é o mal [*]. A pista principal estava dada numa das primeiras frases declamadas por Chico Science quinze anos atrás, em Da Lama ao Caos, seu disco de estreia com a banda Nação Zumbi. A década anterior, na música brasileira, havia sido tomada de assalto por um modelo de rock que lutava para furar a casca do ovo, mas continuava essencialmente pautado pelo que acontecia nos EUA e na Inglaterra, ou seja, punk, new wave, gothic, uma série de termos gringos assim.

O pernambucano Chico Science, então com 28 anos, despontou naquele 1994 como um dos nervos expostos do chamado mangue bit. O movimento preservava na sonoridade e no imaginário a atração pelo chamado “Primeiro Mundo”, mas, novidade, começava a trilhar um caminho de volta ao quintal de casa. O mangue era “bit”, transistor, computador, mas Chico e Fred Zero Quatro (o outro cérebro por trás da jogada) haviam sacado que o horror à própria origem era um inimigo a combater. Foram buscar no ecossistema dos manguezais do Recife e nos folguedos de maracatu da zona rural o cimento para as ideias amontoadas de modo ainda confuso em suas cabeças.

Zero Quatro, líder da banda Mundo Livre S/A (ou mundo livre s/a, só em letras minúsculas), escrevera em 1991 um protótipo de manifesto, que foi batizado de “Caranguejos com Cérebro” e viria a constar no encarte de Da Lama ao Caos, o primeiro lançamento mangue bit.

Numa primeira parte, o texto defendia que os aparentemente inóspitos manguezais do Recife constituem viveiro explosivo de plantas, peixes, micro-organismos, matéria orgânica. A seguir, aplicava o conceito à metrópole em si, a “Manguetown”, e inseria um elemento crítico: “O Recife detém hoje o maior índice de desemprego do País. Mais da metade dos seus habitantes mora em favelas e alagados”. Na conclusão, apresentava a “cena” mangue, “um núcleo de pesquisa e produção de ideias pop” interessado em combater a “depressão crônica que paralisa os cidadãos” e resgatar a criatividade nas entranhas da “Manguetown”.

A tecnologia, em tempos pré-Google, blogs, YouTube ou Twitter, surgia como elemento essencial da equação, e daí surgia a imagem-símbolo do movimento que se armava: uma antena parabólica espetada na lama do mangue. Dos subúrbios, favelas, periferias e lavouras de Pernambuco emergiriam nutrientes para alimentar, via internet e afins, o estado, o País, quiçá o planeta. Nessa troca se fortaleceria o metabolismo dos próprios “micro-organismos” do mangue.

Analisado em retrospecto, e sem supor que os meninos recifenses de classe média baixa soubessem disso conscientemente, o levante mangue bit frutificou e está em pleno vigor hoje. Não se pode dizer que tenha influenciado tudo o que veio depois, mas foi manifestação precoce de um ideário que só faria crescer dali em diante. Da periferia paulistana emergiu o hip-hop. Dos morros cariocas, o funk. De subúrbios mornos do Pará, o tecnobrega. E assim por diante.

Hoje se expressam e se fazem ouvir, cada vez mais, artistas desses vastos “ecossistemas” supostamente estagnados, os mangues da desigualdade social brasileira. Neste caso, como em nenhum outro, as preferências iniciais dos músicos (hip-hop, rock, funk, música eletrônica) foram encorpadas pela redescoberta de maracatu, ciranda, coco, baião, frevo, samba, jovem guarda, balada cafona de beira de estrada. Numa revisão modificada dos procedimentos tropicalistas de 1968, os micróbios do mangue começavam no chamado “underground” a desembaçar um espelho-Brasil no qual não nos mirávamos mais.

Outra qualidade “fora de moda” recuperada pelos autobatizados “mangueboys” foi a de combinar à arte (ou diversão) elementos pontudos de engajamento (ou conscientização), hibernantes no meio musical desde o AI-5. No Monólogo ao Pé do Ouvido que abria Da Lama ao Caos, Science pregava do seguinte modo o reencontro com as origens: Viva Zapata, viva Sandino, viva Zumbi, Antônio Conselheiro, todos os Panteras Negras, Lampião, sua imagem e semelhança.

O mangue não costumou citar muito o neocangaceiro pop pernambucano Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”, mas, de todas essas imagens-exemplo, a do conterrâneo Lampião parecia especialmente forte. Completava um imaginário que vinha dos mangues salgados do litoral, passava pelo maracatu de baque virado da Zona da Mata e furava o Nordeste (e o Brasil) sertão adentro. Quando o mangue bit estreasse no cinema, em Baile Perfumado (1997), de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, o protagonista seria um mascate libanês amigo de Padre Cícero e Lampião. Science, em Banditismo por uma Questão de Classe, trataria como equivalentes o bando do “Rei do Cangaço” em fuga da polícia e os bandidos de favela do final do século XX. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, expandiria e exportaria essa imagem.

O cangaço reaparecia junto à crítica social na faixa-título de Da Lama ao Caos, cantada, como sempre, em pronunciado sotaque local: Com a barriga vazia não consigo dormir/ e com o bucho mais cheio comecei a pensar/ que eu me organizando posso desorganizar/ que eu desorganizando posso me organizar. Talvez fosse uma “estética da fome”, mas reivindicando o fim da fome.

Ainda em 1994, a Nação Zumbi foi convocada a participar de um tributo a outro “rei”, Roberto Carlos. Chico incumbiu-se de reler o hino pacifista quase-religioso Todos Estão Surdos (1971), originalmente uma louvação a um personagem messiânico difuso entre Jesus Cristo, John Lennon e o próprio Roberto Carlos. E subverteu-o completamente, com cacos que não constavam do soul original de Roberto e Erasmo: Você que está aí sentado/ levante-se!/ há um líder dentro de você/ governe-o/ deixe-o falar. Parecia o discurso de Geraldo Vandré ou Mano Brown, nunca o do “Rei do Iê-iê-iê”. Por essa Roberto não esperava, mas não saiu diminuído com a diabrura.

A Cidade, um dos temas mais incisivos da primeira lavra de Science, parecia um concentrado de todas as características já mencionadas. Martelava com sarcasmo o pino da desigualdade social (a cidade não para, a cidade só cresce/ o de cima sobe e o debaixo desce). E demarcava qual era o fermento do crescimento das cidades: a força de pedreiros suicidas. Soava como um funk ou um rock, mas lá no meio invertia expectativas: Eu vou fazer uma embolada, um samba, um maracatu/ tudo bem envenenado, bom pra mim e bom pra tu.

Não convenceu o sempre nacionalista Ariano Suassuna, que passou a se insurgir contra o que via como espírito unicamente colonizado no mangue bit. Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco a partir de 1995, o dramaturgo só chamava o líder da Nação Zumbi de Chico Ciência, e virou inimigo número 1 dos “mangueboys”. E A Cidade terminava melancólica, ou irônica, ou ambos: Num dia de sol Recife acordou/ com a mesma fedentina do dia anterior.

Mesmo motorizado por efeitos tecnológicos e eletrônicos, o som da Nação Zumbi privilegiava percussões tribais e se esforçava por falar à aldeia natal. O desejo de empatia e aproximação se convertia na sonoridade impressionante dos nomes de localidades periféricas pernambucanas listados em Rios, Pontes e Overdrives, e proferidos em velocidade de rap: É Macaxeira, Imbiribeira, Bom Pastor, é o Ibura, Ipsep, Torreão, Casa Amarela, Boa Viagem, Genipapo, Bonifácio, Santo Amaro, Madalena, Boa Vista, Dois Irmãos, é o Cais do Porto, é Caxangá, é Brasilit, Beberibe, CDU, Capibaribe e o Centrão. A retórica é contemporânea àquela dos funkeiros cariocas Cidinho e Doca no Rap da Felicidade, cujo desejo de autonomia se traduz em eu só quero é ser feliz/ andar tranquilamente na favela onde nasci.

A decisão entre ficar em casa e migrar para a sede central da indústria cultural, no eixo Rio-São Paulo, permaneceria como dilema para as bandas do mangue. O impasse ensaiaria dissipar-se mais tarde, quando grupos mineiros como Skank, Pato Fu e Jota Quest descobrissem que era possível ter repercussão nacional a partir de um quartel-general montado na Belo Horizonte natal.

O mangue não passou incólume às garras da indústria cultural, ao contrário. Por volta de 1993, a imprensa caiu de amores pelo movimento e superestimou sua maturidade. Trombeteou seus conceitos sem entendê-los completamente, mudando o nome para mangue “beat”, e não “bit”. O que era unidade informática (e informativa) virou levada, batida, onda, moda. O segundo álbum apanhou Chico desencontrado da sabedoria espontânea do início. Afrociberdelia (1996) parecia diluir e embaralhar à beira da confusão os mandamentos do mangue.

Embates de bastidor foram travados com a multinacional Sony, que elegeu para divulgar o disco a releitura de Maracatu Atômico, de Gilberto Gil e Jorge Mautner [*], uma canção que de mangue bit só guardava o nome e a referência ao ritmo. Ao que consta, a gravadora impôs ao grupo emendar no final de Afrociberdelia três versões mais comerciais e “dançantes” de Maracatu Atômico. Começava a se desvirtuar, muito cedo, um programa original que não tinha nada a ver com remixes, pistas de dança robotizada ou agrados aos tropicalistas (Gilberto Gil participou do segundo álbum).

Por essas e outras, Zero Quatro jamais chegaria a ser contratado por uma multinacional. Era de sua autoria o mantra Computadores Fazem Arte, do primeiro disco da Nação: computadores fazem arte/ artistas fazem dinheiro. Não era imediatamente compreensível à época, mas faz total sentido hoje, quando a elite “emepebista” se encastela enquanto rappers, funkeiros, tecnobregas e outros “micróbios” compõem e gravam em computadores caseiros e se lançam no próprio bairro. Fazem-no sem qualquer apoio da indústria oficial, mas vendem discos artesanais a granel, e se comunicam com milhões de ouvintes.

Science não teve tempo de decidir como reagiria às pressões e imposições. Morreu aos 30 anos, num acidente entre Recife e Olinda. No velório, Suassuna chorou diante do caixão e o corpo foi escoltado ao cemitério por um grupo de catadores de cana da Zona da Mata, vestidos como guerreiros de maracatu.

Afrociberdelia podia padecer de certa desintegração discursiva, mas guardava alguns maracatus de tiro certeiro. Manguetown voltava ao tema da origem (andando por entre os becos/ andando em coletivos/ ninguém foge ao cheiro sujo/ da lama da manguetown), sob a perspectiva atormentada de um proletário. Somos todos juntos uma miscigenação/ e não podemos fugir da nossa etnia/ índios, brancos, negros e mestiços/ nada de errado em seus princípios, cantava Etnia. Além de revalidar os fundamentos da frase “o medo da origem é o mal”, pressagiava os ventos de afirmação racial de hoje. Na brincadeira de que um curupira já tem seu tênis importado, cutucava sem querer a tragédia dos “curupiras” favelados e seu fascínio por tênis Nike, fontes de status e extermínio.

Sangue de Bairro elaborava nova lista de endereços periféricos de nomes brasileiríssimos, Besouro, Moderno, Ezequiel, Candeeiro, Cela Preta, Labareda, Azulão, Arvoredo, Quina-Quina, Bananeira, Sabonete, Catingueira, Limoeiro, Lamparina, Mergulhão, Corisco, Volta Seca, Jararaca, Cajarana, Viriato, Gitirana, Moita-Brava, Meia-Noite, Zabelê [*].

O mangue bit à maneira de Chico Science interrompeu-se com sua morte, entre problemas amontoados à frente de quaisquer soluções. O movimento dos moleques periféricos não resolveu impasses, nem a maioria daquelas mazelas se extinguiu de 1994 para cá. Mas o significado do pequeno levante talvez estivesse inscrito no CD de despedida, em Um Passeio no Mundo Livre, espécie de Rap da Felicidade em versão recifense (eu só quero andar/ nas ruas de Peixinhos/ andar pelo Brasil/ ou em qualquer cidade/ andando pelo mundo/ sem ter “sociedade”). Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar, afirmava no início daquele maracatu cibernético. Foi isso o mangue bit. E Chico Ciência não viu, mas o Brasil hoje não se encontra onde estava há década e meia.

[*] contém erros. por favor, consulte o quarto comentário da caixa de diálogos abaixo.

Segunda-feira, Maio 25, 2009

pode estar num asteroide

hoje pela manhã fui a uma sessão paras jornalistas do filme "a festa da menina morta", estreia do ator paulista matheus nachtergaele como cineasta.

sem entrar em maiores detalhes, achei maravilhoso, acachapante, o filme - e se passa inteiro na amazônia, em meio a um sem-número de personagens com feições indígenas, o que é um tiro no coração do alvo deste tempo.

durante a sessão, não pude parar um instante de pensar em lars von trier. me pareceu um lars à brasileira, à amazônica, o matheus - e não estou aqui falando de cópia, muito pelo contrário, que "a festa da menina morta" é repleto de peculiaridades e idiossincrasias.

(não sei se falei isto aqui algum dia, mas lars von trier é meu ídolo maior desde pelo menos "dançando no escuro". não vejo a hora de ver "anticristo".)

relações estranhas se teceram em meu coco, porque a amazônia de nachtergaele tem um pé grande no manguebit (co-roteirista, com matheus, é o recifense hilton lacerda, que tenho a alegria de conhecer assim meio de longe). lembrei de novo que, como comentei lá no congresso de jornalismo cultural, quando chico science morreu escrevi no obituário da "folha" um punhado de lugares-comuns jornalísticos e de baboseiras estúpidas, em especial a afirmação de que a morte do chico abortava o manguebit.

pois o manguebit está mais vivo do que nunca, frutificando filmes ("a festa da menina morta"), movimentos (tecnobrega), políticas públicas (preciso citar?), 12 anos depois da morte de chico science.

e relações esquisitas se teceram em meu coco, porque na "carta capital" especial de 15 anos que está nas bancas escrevi, entre outros, um texto grande sobre chico science e outro, pitoco, sobre lars von trier. vai aqui esse segundo, que começa em bush e termina em obama:

Lars Von Trier
Com Dogville, o dinamarquês desferiu golpe cinematográfico feroz na hegemonia norte-americana

NO CINEMA, o golpe mais feroz à hegemonia norte-americana foi desferido em capítulos por um dinamarquês, o diretor Lars Von Trier. O anárquico manifesto Dogma 95 deu início à série de provocações, mas ficou mais circunscrito aos círculos cinéfilos. Em 2000, a proposta ganhou grandiloquência hollywoodiana em Dançando no Escuro, um musical épico estrelado pela cantora islandesa Björk. Sua personagem cantava alegre e feliz, não pelos motivos tradicionais dos musicais, mas como modo atarantado de reagir a uma sucessão insuportável de tragédias pessoais. Em Dogville (2003), a anti-heroína ganhava a feição hollywoodiana (branca de olhos azuis) de Nicole Kidman e mergulhava numa crise banhada em violência, cuja responsabilidade não conseguia (ou não queria) perceber. Se parece profético, em 2005 viria Manderlay, em que a mesma anti-heroína se via frente a frente com o próprio racismo.

Sexta-feira, Maio 22, 2009

apareceu aparecida (*)

deixa eu contar. desde quarta-feira, 20 de maio de 2009, não sou mais funcionário da "carta capital". a revista precisou demitir (apontar quais as razões não cabe a mim), e eu fui um dos "escolhidos" - também havia pedido para ser escolhido, mas acho que nesse caso isso não faz diferença. devo virar colaborador eventual da "cc" (pela qual ainda nutro grande respeito), mas isso depende de detalhes, não é certo ainda.

há meses - pelo menos desde dezembro passado, quando naufragou o projeto de uma revista de cultura que a companheira querida ana paula sousa e eu estávamos desenvolvendo na editora -, eu desejava ardentemente sair. infelizmente, não tive coragem de tomar eu mesmo a atitude, e permaneci acomodado esperando godot.

evidentemente, ser demitido não é gostoso. mas, fora o orgulho ferido, digo de peito aberto que estou muito feliz, muito, em especial por reconquistar um naco de uma matéria(-prima) de que há 14 anos eu não dispunha: liberdade.

o que vou fazer com minha liberdade, ainda não sei. mas tenho certeza absoluta de que novas histórias acontecerão, e que serão sensacionais (e estou aberto a sugestões!).

agora, vamos pro mundo!

p.s.: já está nas bancas a revista com meu texto de, em termos, despedida. é sobre chico science.

p.s. 2: meu e-mail preferencial, a partir de agora, é pedroalexandresanches@gmail.com.

p.s. 3, para don gabu:


(*) esse título, de um samba de 1970 de são jorge ben (e acompanhamento do trio mocotó), foi escolhido a dedo, por um bocado de razões, é claro.

zii zie

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
Cotação: 2 e ½

Se as capas dos discos pudessem contar a história dos discos, as de Caetano Veloso talvez desnudassem confissões perturbadoras. O rei-sol leãozinho que enchera de luzes e cores a maioria das capas desde pelo menos 1979 de repente se turvou, à beirada do século XXI. De 1999 para cá, tudo virou escuridão nas vitrines de seus discos autorais. As nuvens carregadas na capa marítima do novo Zii e Zie – Transambas exacerbam este já comprido ciclo de sombra – e, não, o assunto aqui não é a embalagem do CD.

Em 2002, como num soluço otimista, Caetano se ligou ao bardo esganiçado Jorge Mautner e lançou Eu Não Peço Desculpa, ensolarado da capa à sequência de canções pop leves, quase descontraídas. E então o tempo fechou, e fechado contiua. Cê, de 2006, inaugurou e Zii e Zie eleva às alturas algo que eu arriscaria chamar de uma “estética do desagradável” dentro destes 41 anos de caetanografia. Nos dois álbuns, o artista arranca de dentro e põe para fora, às dezenas, motivos de ódio, desolação, separação, tristeza, depressão, inveja, solidão, dor, medo, morte.

Delineia-se daí um Caetano franco, quase transparente, mas duro de ouvir. À gosma roxa de Cê, somam-se agora modos de cantar do dono da banda, entre agressivos e lamuriosos (Por Quem?, Tarado) e a aspereza das sonoridades e da banda. Seus “transambas” não são de cantarolar ou assoviar junto, e custa um bom número de audições até começarem a causar alguma empatia. Mesmo nos que pendem à bossa nova, não há barquinho, nem patinho, nem saudadinha – exemplos dessa vertente são a (des)esperançosa Sem Cais (“inda posso me apaixonar”, ele canta e não-canta), a zangada Falso Leblon, a relutante Lapa e Lobão Tem Razão, por sobre a qual a morte ronda assustadora. A barra aqui é pesada, como se dizia nos tempos da obra-prima Transa, lá por 1972.

A ponte induzida entre Transa e Transambas é evidente, mas os temas de lástima de agora (e de Cê) mais fazem lembrar Araçá Azul, de 1973. Lá, a atitude antipop se chamava “experimentalismo”. Aqui, desnuda que a capa de Araçá Azul, se parecem mais com melancolia e desamparo – e até empatia, quando os espinhos de Sem Cais penetram os ouvidos, ou quando Perdeu passa a soar menos estranha e sua rispidez começa a fazer sentido.

Não se sabe se o subtítulo de Zii e Zie quer se referir a um esquecido LP chamado Transamba, lançado em 1973 pelo futuro cantor de samba-enredo Marcos Moran, com versões black-pop para sambas de Chico Buarque, Novos Baianos, Antonio Carlos & Jocafi e Paulinho da Viola. Mas é transparente a intenção de bulir com o samba, do modo torto e arrevesado de hábito. Mesmo nos dois espécimes pinçados do disco de 1976 de Clementina de Jesus (Incompatibilidade de Gênios, de João Bosco e Aldir Blanc, e Ingenuidade, de Serafim Adriano), o andamento desacelera, a simpatia se esfumaça, a ironia é ressaltada. Leal ao samba de uma nota só dos tempos idos da crucial invenção tropicalista, Caetano reafirma, quantas vezes julgar necessário: chova ou faça sol, a música para ele é, sempre e ainda, musa híbrida. Desorganizado e despido de sua (suposta) caretice, o santo samba em Caetano é trans.

Se há no fundo dos cutucões ao samba uma sombra de rivalidade entre os modos baiano e carioca de sentir alegria (e tristeza), Caetano não deixa claro – ele nunca deixa, e esse é outro ponto nuclear do programa de governo tropicalista. Incrível é perceber que nestes tempos, esteja brigando com o samba, listando termos repulsivos, berrando raivas, tentando repelir o ouvinte ou fazendo as guitarras gritarem, Caetano só faz falar de amor, o tempo todo. Faria então sentido o mar que quebra majestoso na praia lúgubre da capa de Zii e Zie. Deve ser esse o modo tropicalista de amar. E muita gente fala esse idioma por aqui.

p.s. (três horas mais tarde): deve ter dado para perceber, publiquei este texto sem querer, freud explica... saiu na "rolling stone" do mês passado, mas eu não chequei se há alguma diferença entre esta versão, "original", e a efetivamente publicada. coisas do jornalismo...

Quarta-feira, Maio 20, 2009

lá vem o homem da gravata florida

e quem já foi ver o "ninguém sabe o duro que dei", hein? e que sentimentos o filme lhe(s) causou?

por ora, uma reflexão rápida e ligeira extraída da "carta capital" 546, de 20 de maio de 2009 (feliz aniversário, johnny alf!).


NOVO ROUND PARA SIMONAL
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES


Apesar de histórica resistência, Wilson Simonal (com Pelé na foto) está enfim de volta às paradas, com a estreia do documentário Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, em cartaz desde sexta 15. Irônico é que Simonal atribuía à Rede Globo grande parte da responsabilidade pelo ostracismo que amargou entre 1971 e a morte, e hoje tem sua história resgatada por um funcionário da casa (Manoel, comediante do Casseta & Planeta), sob co-produção da Globo Filmes.

Simonal (1939-2000) foi o artista brasileiro mais popular da virada dos anos 1960 para os 1970, e caiu em absoluta desgraça com a disseminação da suspeita (nunca provada) de que seria informante da ditadura. Atrás do rastilho de pólvora que o implodiu no momento em que encantava Sarah Vaughan e era regravado por Stevie Wonder, estava o jornal de esquerda O Pasquim, onde surgiu a ilustração do "dedo-duro" de Simonal. Eram ligados ao tabloide os ex-parceiros comerciais do cantor Carlos Prosperi, Carlito Maia e João Carlos Magaldi, esse último futuro alto-executivo da Globo.

O tema é espinhoso e o documentário [NÃO *] chega a tocar nos nomes de Magaldi, Prosperi e Maia, todos já falecidos. Ainda assim, é trabalho que avança até onde nunca se chegou em respeito à fabulosa e trágica história do garoto de favela que virou ídolo nacional, depois inocente útil e por fim bode expiatório da esquerda e da direita. O trio diretor preocupa-se em desenhar o personagem sem lhe atribuir inocências nem culpas, e o faz com pleno sucesso.

Chocante e comovente, o filme abre caminho para próximos passos. Deixa em aberto o ambíguo papel da mídia (a Globo, mas não só ela) como coautora da ascensão e mais tarde um dos carrascos na derrocada de um artista crucial.


(*) o termo entre colchetes deveria constar do texto, mas por cochilo meu sumiu e inverteu o sentido da frase.

Segunda-feira, Maio 18, 2009

o bandido da luz (re)encarnada

um dos filmes que eu mais amo vai gerar um filhote rebelde depois de 40 anos (minha idade!). vai daí uma reportagem ("carta capital" 545, 13 de maio de 2009) sobre ele, sobre eles, sobre elas, sobre ela.


LUZ VERMELHA REENCARNADO

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Em 1968, foi lançado o filme O Bandido da Luz Vermelha, e, com ele, o chamado cinema marginal brasileiro. João Acácio Pereira da Costa, o personagem real no qual o marginal da ficção foi livremente inspirado, ganhou liberdade em 1997, após uma temporada de 30 anos na prisão. Morreu assassinado em janeiro de 1998 (o ator Paulo Villaça, que o interpretou no cinema, morrera em 1992). O cineasta Rogério Sganzerla, autor e diretor d'O Bandido, morreu de câncer cerebral em 2004, aos 57 anos. Ainda assim, o Bandido da Luz Vermelha está vivíssimo em 2009.

O personagem voltará às telas em nova encarnação, desta vez no corpo do cantor Ney Matogrosso. Ele é o protagonista de Luz nas Trevas – A Revolta de Luz Vermelha, atualmente em produção. O roteiro original foi escrito por Sganzerla ao longo de vários anos, até poucos dias antes de morrer. Chegou a ter duas mil páginas. Apanha o bandido na cadeia, condenado a uma espécie de pena perpétua, "prisioneiro de mim mesmo".

Na vida como na ficção, Luz Vermelha usava roupas exóticas, assaltava casas burguesas com uma lanterna em punho, jantava com as vítimas, estuprava, matava. Na nova versão tem um filho não-reconhecido, Tudo ou Nada (interpretado por André Guerreiro), nascido, crescido e marginalizado na Favela do Lixão. Um ex-menino de rua, como também foi João Acácio, mais tarde descrito como portador de esquizofrenia paranóide. Com locações na favela de Heliópolis, a nova fábula avança em direção à escalada contínua de violência e favelização no Brasil.

Matogrosso foi ator antes de se firmar como cantor, e em 1976 lançou um inspirado disco chamado Bandido. Sisudo e barbado em algumas cenas, trabalha agora para se despir de sua forte persona musical e dar substância ao personagem brutalizado. "É um exercício de contenção, de introspecção", diz, em meio a uma filmagem no Parque da Luz, no centro de São Paulo.

A cidade, por sinal, é outra personagem central do filme de 1968 como do atual. E deixa à vontade o artista hoje radicado no Rio. "Surgi em São Paulo, com cabeça paulista, atitude paulista. Muito tempo depois descobri que fui gerado numa pensão na praça da Sé", diz, um dia antes de filmar ao ar livre na caótica rua 25 de Março.

O esforço de se dissociar da imagem musical andrógina não o impede de encerrar o filme no topo de um prédio, reinterpretando Sangue Latino (jurei mentiras e sigo sozinho...), uma das canções que o alçaram à fama em 1973, com o grupo paulistano Secos & Molhados. "Mas procurei fazer o bandido cantando, e não eu mesmo. Fiz grave, uma oitava abaixo."

A direção de Luz nas Trevas cabe à ex-esposa de Sganzerla, Helena Ignez, em dupla com o cineasta paulista Ícaro Martins (de O Olho Mágico do Amor, 1981). "Sou da turma que resolveu fazer cinema vendo O Bandido da Luz Vermelha", afirma o codiretor.

Como atriz, Helena estreou com o cinema novo, em Pátio (1959), do então marido Glauber Rocha, baiano como ela. Poucos anos depois, juntou-se aos "filhos" rebeldes de Glauber, formuladores da anarquia e do niilismo pós-AI-5 do cinema marginal. Namorou o carioca Júlio Bressane, que a dirigiu em Cara a Cara (1967), e se casou com o catarinense Sganzerla, futuro sócio dele na produtora Belair Filmes. Hoje às vésperas de completar 70 anos, teve três filhas, Paloma, com Glauber, e Djin (atriz no novo filme) e Sinai, com Sganzerla.

"Como a maioria das mulheres dominadoras, caso com pessoas mais jovens. Só Glauber tinha a mesma idade que eu", brinca. O cineasta baiano tinha 20 anos quando lançou Pátio. Sganzerla estreou O Bandido aos 22. "Essas relações amorosas e também cinematográficas me agradam muito. No começo achava estranho, porque com o machismo reinante nessa geração a que pertenço, durante muito tempo fui a mulher do Glauber, a ex-mulher do Glauber", diz.

À distância desses cineastas tão aguerridos, teria ela se transformado tardiamente em cineasta? "Mas eu sempre dirigi o meu trabalho. O que eu não quero é essa valorização da palavra 'cineasta'. Não valorizo", responde na diagonal. Ela dirigira em 2007 o independente Canção de Baal ("um filme sobre o comportamento machista, algo que eu conheço profundamente"). E admite o estranhamento diante do ambiente industrial de Luz nas Trevas, um filme patrocinado e orçado em 2,7 milhões de reais.

"Fazer um filme dentro do mercado é muito mais difícil que criar fora dele", constata. "Em Canção de Baal, não tinha que prestar contas a ninguém. Desta vez tem. A equipe de profissionais de luz e maquinaria é a melhor de São Paulo, mas tem o ritmo de mercado, com funcionamento muito diferente do cinema de invenção e poesia que fiz até hoje. É inédito para mim". E arremata com uma confissão incomum entre seus pares: "Às vezes me sinto amarrada".

Lembra que O Bandido da Luz Vermelha, embora arrojado, foi um filme comercial em seu tempo (foi vendido por Sganzerla como "um western sobre o Terceiro Mundo"). Mesmo apostando que Luz nas Trevas também será bem-sucedido, diz que a ligação com o cinema de mercado é passageira. "Não me preocupo (com o mercado), em nenhuma circunstância. E me afastei. Saí do mundo mesmo. Mas não da arte, do pensamento, da criatividade, do espírito. Me sinto muito viva e livre. E não quero me integrar em mercado nenhum. Essa homenagem a Rogério está feita".

Tampouco a relação de Sganzerla com o mercado não foi harmônica. Após o levante do cinema marginal, seguiu trajetória errática, sempre com grandes dificuldades de concretização de projetos. Fez Nem Tudo É Verdade entre 1980 e 1986, em referência direta ao inacabado It's All True (1942), que o norte-americano Orson Welles filmava no Brasil dentro da chamada política da boa vizinhança. Welles foi influência escancarada em seu cinema, especialmente n'O Bandido.

Sganzerla nunca pareceu se desvencilhar do impacto do primeiro filme, possível prisioneiro de si mesmo, como seu personagem. De fato, não são poucas as semelhanças simbólicas entre criador e criatura, a começar pela marginalidade artística de um e a concreta de outro.

Em Luz nas Trevas, o bandido se diz recuperado e convertido, e se auto-rebatiza Luz Divina. Foi como se denominou João Acácio, catarinense como Sganzerla, ao ser solto em 1997. Sganzerla visitara Acácio na prisão em 1994, com o pretexto de uma reportagem da revista Manchete. Levou-lhe de presente uma Bíblia.

Acácio foi morto com um tiro na têmpora quatro meses depois de libertado, por um amigo que o hospedava no bairro periférico de Cubatão, em Joinville (SC). Teria assediado as mulheres da casa e ameaçado matar a família. "Meus dias aqui são de um morto-vivo", proclama o personagem de Luz nas Trevas, antes de fugir da prisão com a cumplicidade involuntária da mídia, vestido com colete de repórter, dentro do furgão de uma emissora de tevê. "Eu não sei viver", lamenta-se.

"Não vamos esquecer que a Ordem do Mérito só é dada para quem demonstrar que não o tem", diz um policial no roteiro, como a simbolizar o sentimento de inadequação do autor em relação ao mundo a seu redor.

Sua ex-esposa trabalha 12 horas por dia na homenagem ao autor-personagem, e de início minimiza o esforço de conduzi-la: "Esse é um filme que já vem dirigido". Mas em seguida corrige a afirmação: "Rogério não está me dando nenhum tipo de dica. Eu que me vire".

Quinta-feira, Maio 14, 2009

na margem do rio piedra eu sentei e chorei

para terminar (por ora) esse assunto de rio tietê & que tais, uma história que estou lendo aqui, embasbacado. é do excelente livro "tietê - o rio que a cidade perdeu - são paulo, 1890-1940", do historiador janes jorge, que me chegou por causa da reportagem, pelas mãos da rosane pavam.

o título já explica o livro, mas o livro em si esquadrinha o processo de assassinato do rio tietê, por quem mesmo?... por nós moradores desta cidade, cada um jogando minuto a minuto sua pazinha de lodo no defunto, desde a chegada de pedro álvares cabral.

mas embasbacado de vez eu fico a partir da página 80, quando janes descreve um tal projeto serra (ó o nome), conduzido a partir de 1925 pelo conglomerado canadense-anglo-americano tramway light and power company limited. a light, você sabe, mãe-avó da eletropaulo, da sabesp, dessas coisas.

era um monopólio, a light, e tinha adesão total do governo estadual (um ex-advogado da light "presidiu" o estado de são paulo entre 1924 e 1927).

e o que o formoso conglomerado fez com os dois principais rios paulistanos está explicado nos seguintes trechos:

"(...) ardilosamente, a Light alterou o seu projeto inicial, o que trouxe conseqüências desastrosas para São Paulo e cidades próximas. Primeiro, conseguiu uma concessão do governo estadual para retificar o rio Pinheiros em troca do direito de propriedade sobre as várzeas inundáveis saneadas, que foram posteriormente vendidas. As várzeas do Pinheiros foram definidas, por esse contrato de concessão, como as áreas atingidas pela água do rio com base na maior cheia registrada. Por isso mesmo, em 1929, a Light provocou a maior enchente da história da cidade, ao abrir as compotas de Guarapiranga quando os rios paulistanos já estavam altíssimos em virtude de vários dias de chuva intensa. As águas do Pinheiros e do Tietê avançaram sobre terrenos onde jamais imaginaria que isso pudesse ocorrer.

"Outra modificação fundamental no projeto Serra foi que as águas do Tietê foram incorporadas ao complexo hidroelétrico de Cubatão com a reversão do curso do Pinheiros retificado, através das usinas elevatórias da Traição, construída na altura do Butantã, e a de Pedreira, na represa do rio Grande. O Tietê, represado em Parnaíba, passaria a ser afluente do Pinheiros e as águas de ambos, assim como as da represa de Guarapiranga, iriam para a represa do rio Grande. Correndo ao contrário, os maiores rios da cidade, Tietê e Pinheiros, tornaram-se tributários do pequenino rio das Pedras e passaram a acionar as turbinas em Cubatão. Desse modo, a Light, em um só lance, se apropriou das várzeas do Pinheiros, conseguiu aumentar a produção de eletricidade com menos investimentos em obras e impedio que as águas do Tietê seguissem em direção à hidroelétrica de seus competidores - que, diante disso, abandonaram seu projeto, vendendo suas instalações para a própria Light".

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parece enrolado, eu sei. mas deixa só eu rascunhar em forma de indagações o que (acho que) entendi, boquirroto boquiaberto.

a) enchentes podem ser provocadas por mãos humanas quando elas a seu bel prazer abrem e fecham comportas de represas?!

b) o rio tietê era curvo e ficou "reto" por ação daquelas mesmas mãos, e/ou de mãos parceiras?!

c) essas mãos (ou digo patas?) também inverteram o curso dos rios pinheiros e tietê?! viraram os rios do avesso?!, transtornaram os pobres coitados de pontacabeça?!, puseram o norte no sul?!?!?!?

d) o pomposo shopping iguatemi e bairros paulistano "chiques" como jardim américa e jardim europa foram edificados à custa dessa tramoia especulativa e do assassinato do rio pinheiros?!

e) e por fim, parando agora de fazer tanta pergunta: toda vez na vida que passei ali pela marginal eu me cocei de vontade de saber por que a usina elevatória de traição tinha esse nome tão eloquente, curioso e contundente, t-r-a-i-ç-ã-o, e-l-e-v-a-t-ó-r-i-a. agora entendi.

enfim, só para arrematar, o parágrafo de conclusão desse trecho do janes jorge:

"Monopolizando grande parte dos serviços públicos em São Paulo, atuando em diferentes negócios, com influência na imprensa e próxima ao poder, entende-se por que a Light era conhecida popularmente como o "polvo canadense, já que seus tentáculos penetravam por toda a cidade e arredores. E, quando o polvo estende seus tentáculos por sobre outra criatura viva, geralmente, é porque ela é sua presa".

e a gente aqui com medo de cobra, aranha, urubu, ratazana...

Quarta-feira, Maio 13, 2009

possível novo quilombo de zumbi

13 de maio. como prolongamento da reportagem "o rio e a margem", cresço aqui a entrevista com josé vicente, o reitor da faculdade zumbi dos palmares. considero-o uma figura admirável (para maiores detalhes favor consultar, no tópico "um quilombo do século xxi", o subtítulo "um ex-matuto"), que tem muito a dizer. muito.


PEDRO ALEXANDRE SANCHES - Quando visitei a escola, ainda ficava na Luz. Queria que você fizesse um resumo de tudo que aconteceu até chegar aqui ao Clube Tietê.

JOSÉ VICENTE - Ai, Pedro [suspira], acho que em grande medida essas andanças retratam justamente a procura desse tema do lugar, dentro do espaço territorial, da cidade de São Paulo, ou um lugar no imaginário das pessoas, sejam negras ou não-negras, um lugar na educação. E retratam também a dificuldade de consolidar ou materializar utopias que, ainda que sejam muito bem-vistas e recebidas, têm sempre a característica de exigir ações objetivas, mão na massa, dinheiro, financiamento. Aí você vê que às vezes é mais fácil ficar só na utopia que colocá-la de pé. A andança pra lá e pra cá retrata essa busca de um lugar, mas retrata talvez a persistência, a perseverança. Apesar dos pesares continuamos aqui, à frente da luta. E em grande medida isso sintetiza também uma contradição: é um tema terrível para trabalhar, mas um tema que na atualidade permite algumas adequações, acomodações, transmutações. E mesmo alguns sucessos. Apesar de ter andado, andamos nunca de lado, sempre pra frente.

Coincidentemente, tudo começou aqui na Armênia, ali do outro lado do metrô. Saímos porque se transformou num espaço acanhado, que exigia expansão. O projeto começou a ter boa aceitação, bastante sucesso. Fomos para um espaço maior, na Luz, e da mesma maneira a condição do trabalho exigiu um espaço maior, depois veio a Barra Funda...

PAS - Estão craques em fazer mudança...

JV - Já viramos, dá pra abrir uma construtora [ri]. Na Luz, eram 3 mil metros quadrados, 25 salas ocupadas como salas de aula, administração, laboratório etc. Já estávamos com mais cursos que seriam autorizados, e sabíamos que tínhamos que pensar em alugar outro prédio noutro lugar, ou partir para um espaço que pudesse manter tudo junto. Mas sempre damos sorte grande, pensamos na Barra Funda, chegamos ali e encontramos uma placa, "aluga-se".

PAS - O que funcionava lá antes?

JV - Era o centro de distribuição da Submarino. Alugamos, reformamos e estávamos lá. Mas desde o primeiro dia do projeto já estávamos - e continuamos ainda - solicitando cessão de imóvel com o governo federal, o estadual, o municipal, fazendo todas as injunções políticas e institucionais para ter um espaço definitivo e gratuito. O tipo do nosso trabalho não permite pagar água nem luz, quanto mais aluguel. Uma primeira resultante, logo no começo de tudo, foi um predinho que o governo federal cedeu, na antiga Justiça do Trabalho, perto da Luz, por intervenção da Marta [Suplicy]. A Secretaria de Patrimônio da União nos cedeu, entramos, reformamos. Quando íamos mudar, disseram: "Dá o prédio de volta que ele vai precisar ser utilizado para outra atividade". Aí partimos pra Luz, enquanto seguíamos conversando, também com o governo estadual e municipal. Quando nos aproximamos do prefeito [Gilberto] Kassab, dissemos que gostaríamos de contar com a colaboração dele, sabíamos que havia muitos espaços, principalmente dos clubes, que estavam sendo retomados, ou seriam reformulados para cumprir outras demandas sociais. Ele deu a sugestão: "Por que não se instalarem no Clube de Regatas Tietê?". Trouxemos a demanda ao clube, que está numa situação muito difícil. Este era um prédio que estava desocupado, sem atividades. O que está acertado com a prefeitura é a cessão de um espaço de 20 mil metros nesta área, será o espaço no qual, por 50 anos, poderemos instalar a faculdade.

PAS - Isso já se pode afirmar? É definitivo?

JV - Foi feito um protocolo de intenções com a prefeitura. Agora está no departamento jurídico da prefeitura, nos últimos ajustes, e vai pra câmara municipal, que tem que aprovar uma lei nesse sentido.

PAS - O pleito é ficar aqui neste terreno mesmo?

JV - Nós vamos ficar aqui. Nos próximos meses a lei será aprovada. Em setembro o Clube de Regatas Tietê volta para a prefeitura, porque está terminando um comodato de 50 anos. A prefeitura então faria essa nova destinação dos 20 mil metros, e os outros 40 mil metros transformaria num centro de treinamento olímpico.

PAS - O clube acaba?

JV - Não, o clube não acaba, não. Eles têm a pretensão de reservar um espaço para o clube, que ainda poderá usufruir do centro olímpico, e disponibilizar uma área de esportes para a comunidade como um todo, não só para os sócios do Clube Tietê. A ideia é que eles também permaneçam, mantenham a história e a tradição, mas que o uso seja coletivo, não dos sócios. E, mais ainda, que esse uso inclua tanto esporte quanto educação, lazer etc. Parece que o clube teve muito interesse, até porque o centro olímpico prevê sua reforma inteira. Ganhariam um clube novinho, e custeado pela prefeitura, em grande medida. Da mesma maneira, a prefeitura ganharia um espaço esportivo de primeiro mundo, também educacional. Seria um jogo de ganha-ganha, todos seriam beneficiados.

Mas nesse meio tempo, tendo em conta que esse prédio estava abandonado, nós reformamos e já viemos para cá. Isso nos auxiliou com 70% do nosso valor do aluguel. No outro espaço pagávamos 100 mil reais de aluguel-mês. E neste primeiro momento aqui, com a parceria com o clube, estamos fazendo só manutenção - água, luz, jardinagem, segurança. Não tem aluguel, só essas despesas que o clube não poderia pagar por nós. Uma vez o espaço definido, aí então partimos para aquele que será um momento bastante contundente do trabalho, que é pôr de pé uma sede definitiva.

PAS - Que não seria este prédio?

JV - Não, outro prédio, bonito, novo, perfumado, mais adequado. Este aqui já cumpre uma série de objetivos. Estão aqui o metrô, a Marginal, o verde, o campo. Nós sempre trabalhamos no sentido de dignificar esse tema, que merece um espaço à sua altura. O trabalho vai ser de passar o chapéu onde for possível, mas fazer uma obra bonita, bacana, que ilustre e trate esse tema com dignidade. Mas também é coisa que já poderíamos ter feito há muito tempo, ao curso da trajetória. Acabamos fazendo indiretamente, mas nos imóveis dos outros. Cada um a gente vai reformando, reformando, e depois...

PAS - Por isso você falou que podia abrir uma construtora.

JV - É, o que empenhamos de recurso pra reformar prédio dos outros já daria pra ter construído uns dois pra gente.

PAS - Vocês não pagariam aluguel? Seria um comodato também?

JV - Um comodato. Mas não é que não pague. Você precisa apresentar uma contrapartida. O nosso desejo, que já está posto, é que a gente pudesse, ao mesmo tempo que desenvolve ensino superior, disponibilizar acesso ao ensino médio e técnico para os mais necessitados. Estamos criando possibilidades para isso em algum momento - aliás, até já abrimos, o Colégio Técnico Zumbi dos Palmares, que vai funcionar principalmente na parte da manhã, quando temos disponibilidade de espaço. Já estamos começando com o curso de enfermagem, junto com o HCor. O colégio técnico é gratuito. A gente ofereceria à municipalidade o uso de toda nossa estrutura pra atender, dentre outras coisas, o ensino gratuito pra molecada, e da mesma maneira a nossa expertise pra alguma outra ação que interesse à prefeitura. Seria uma forma de devolver em ações a contribuição do município.

PAS - No governo da Marta, a retomada dos espaços públicos causou polêmica. De alguma maneira é o que está se concretizando agora?

JV - Foi, houve aquela CPI que analisou a situação de vários espaços públicos municipais, clubes, jóquei, que deveriam cumprir uma série de finalidades e não cumpriram, ou hoje não reúnem mais condições. A prefeitura então tem solicitado ou contrapartidas ou a retomada dos imóveis. No caso aqui do Tietê existe esse desejo de repor o espaço naquelas glórias anteriores, mas também atender ao público da região que não tem equipamentos de lazer, escola, educação. Está muito em voga agora o clube-escola, que é transformar em espaço pra criança. Em regra os clubes, grande parte deles, estão precisando responder a esta nova realidade.

PAS - Aí tem esse dado impressionante, de que isto já foi um espaço de elite, e racista. Conversando com o presidente do clube, percebi que, não sei se voluntariamente, o Tietê hoje virou alguma espécie de democracia, com a faculdade, os coreanos, as festas na piscina da comunidade gay.

JV - É, eles ficaram obrigados a se apresentar com outra roupagem. A gente não sabe quanto isso é fruto de uma decisão voluntária, mas, pro bem ou pro mal, de maneira geral estão fazendo uma curva qualquer fora daquela linha. E, no caso de negros, é sintomático, há o episódio com Milton Gonçalves. Quando era garoto, ele quis participar de uma atividade aqui no clube e foi impedido. Segundo ele, diziam textualmente que aqui não se aceitavam negros. Ele guardou uma grande mágoa em razão desse acontecimento.

Outra coisa é que o Movimento Negro Unificado começou em razão da ação do Tietê. Os quatro jovens que fundaram o MNU tinham tentado participar de uma atividade aqui e foram impedidos. Teve passeata, foi um agito danado na época, e baseado no caso do Tietê criou-se o MNU, pra combater racismos de toda natureza. Hoje, circunstancialmente, vem um trabalho dessa natureza pra este espaço, e o público que antes não podia entrar pra usufruir as benesses do clube hoje entra pra estudar.

PAS - E também pra usufruir do clube, se quiser, não?

JV - Ah, sim, usufruindo do clube também. Mas esse é um dado extraordinário. Não se voltou pra entrar na piscina, mas pra ir além da piscina. E mais ainda, com espaço aberto inclusive para os usuários do clube tietê, para os sócios. A generosidade que eles não tiveram naquela época a gente está devolvendo agora.

PAS - Vocês têm percebido algum resquício dos tempos de resistência por parte deles?

JV - Ah, sim, sim. Só não posso dizer se é uma resistência relacionada à discriminação racial. Talvez uma discriminação mais de perda. Grande parte dos sócios gosta de dizer sempre "meu avô nasceu aqui", "meu filho". É um clube centenário, tem mais de duas ou três gerações que passaram por aqui, então tem logicamente um sentimento afetivo muito grande. Acho que a resistência é em sentir que os tempos são outros, as coisas mudaram, e eles ou não se aperceberam ou não se prepararam. Talvez tenham a percepção de que estão perdendo um espaço, de que outros estão se apoderando de um espaço que é deles. Talvez em razão disso o olhar torto, mas não quero crer que obrigatoriamente seja por estar sendo usado por negros.

PAS - Vocês estão aqui desde fevereiro, nesse tempo não há nenhum registro de conflito entre as duas nações, digamos assim?

JV - Ainda não. Seguramente deve ter alguns olhares, comentários de toda natureza, contestações de parte a parte nas reuniões do conselho do clube. Mas não tem qualquer coisa objetivada ou textualizada, como "você é negro, não entra na minha piscina, a água é minha". Não quer dizer que não estejam pensando. Mas o fato é que o clube estava às moscas, o estado precário denuncia. Isso aqui está trazendo é vida. Tem aí esse continente simbólico interessante, mas que em nenhum momento foi a condição pra qualquer coisa. Depois é que vieram à baila todas essas informações. O fato é que poderia ter acontecido uma resistência terrível, mas estar aqui significa que, ainda que houvesse e existam pensamentos nesse sentido, dos que estão aí conduzindo, dos que restaram, poucos colocaram objeção, "de jeito nenhum". Aliás, isso não foi imposto, foi uma acordo de consenso.

PAS - Não dá impressão de que em tudo que a Faculdade Zumbi dos Palmares faz se descobre depois um significado simbólico?

JV - Pois é, tudo. Como se diz que não cai uma folha de uma árvore se Deus não quiser, às vezes a gente para pra pensar e pensa, que coisa, que sina, o que nos foi determinado e a gente cumpre no imaginário... Depois, quando junta as pontas, meu Deus do céu, a gente é obrigado a pensar que está cumprindo uma missão divina, qualquer coisa parecida, porque são muitas circunstâncias extraordinárias.

PAS - No começo você falou de utopia. Mas desde que existe a faculdade elegeram um presidente negro nos Estados Unidos. O ministro do STF Joaquim Barbosa anda em evidência...

JV - Pois é, rapaz! Sabe que estou indo para os Estados Unidos na segunda-feira [dia 4 de maio]? Não sei se você lembra que quando Condoleeza Rice esteve aqui, no ano passado, ela assinou um plano de ação Brasil-Estados Unidos, pra promoção de ações afirmativas, inclusão e valorização de negros, principalmente na educação, na língua inglesa, no mercado de trabalho. Esse plano foi assinado, teve duas reuniões aqui, terminou o governo e se imaginava que com Obama não prosseguiria. Era um plano republicano, eventualmente os democratas não teriam interesse. Mas ao contrário, chegaram e já pegaram o plano pra fazer as conduções devidas. Então agora me convidaram pra essa reunião de trabalho, pra acabar de ajustar, adequar ou melhorar o tal do plano, o mesmo plano assinado pela Condoleeza. Generosamente me convidaram, e com muita satisfação estarei lá.

PAS - Você esteve lá no processo eleitoral também.

JV - É, na verdade estive três vezes nos Estados Unidos no ano que passou. Primeiramente fui pra um encontro mundial de educação promovido pelo Departamento de Estado, pela Condoleeza Rice. Me convidaram, fui, a única representação do Brasil que participou desse encontro fomos nós.

PAS - Era um congresso racial?

JV - Não, tinha gente do mundo inteiro. Eles estavam muito preocupados com os reflexos da intolerância, em decorrência do 11 de setembro. Estavam tentando encontrar caminhos pra combater a intolerância via educação, na linha de que não podemos ensinar a odiar, temos que ensinar a pacificar. Tendo em conta a característica da temática negra que já estava em voga, nos convidaram. Depois fui convidado pra ser observador da campanha eleitoral, fiquei lá um mês. E voltei para a posse.

PAS - Por sua conta?

JV - Não, fui convidado pelo comitê do Obama. Quando estive lá tivemos conversas e contatos. Ficou a perspectiva de ser convidado para ver de perto se Obama ganhasse. Ganhou, o comitê convidou. E ao final acabei sendo convidado também pela American Express, cujo vice-presidente é um negro. Lá é normal, é natural [ri], né?

PAS - De quão perto você viu?

JV - A sede da American Express é na Pensilvania Avenue, fiquei a 150 metros do Capitólio.

PAS - Perguntar se foi emocionante é desnecessário...

JV - É inenarrável. Inenarrável. Inenarrável. Como você sabe Washington tem muitos negros, então seguramente 70% daqueles 2 milhões eram negros, todos chorando, pulando, um negócio fabuloso. Fabuloso. Foi maravilhoso. E agora então eu volto pra participar de um seminário sobre a Unilab. Não sei se você sabe essa história, pelo menos já inspiramos alguma coisa, que o governo federal está criando - nós estamos em pé de guerra com ele, mas...

PAS - Por quê?

JV - Não é possível, o presidente Lula veio, viu a nossa formatura, e o que ele fez no outro dia? Mandou criar a Unilab, Universidade Federal de Integração Luso-Afro-Brasileira, em Redenção, no Ceará. Pelo amor de Deus, a gente está há dez anos trabalhando que nem condenados, pagando todos os impostos sem ajuda de ninguém, e quando vocês voltam a atenção pra isso vão fazer uma universidade lá no Ceará? Pô, pega nosso projeto, melhora... Está lá o projeto andando na Câmara, aprovaram 160 milhões de reais pra implantação da bendita Unilab. E, bom, Lula vai atender quem? Os negros dos países africanos. Todos estamos precisando, é justo, mas e nós, negros brasileiros, como ficamos nisso tudo? O que deu pra entender é que eles querem se transformar num centro de qualificação intelectual e profissional, preferencialmente para países africanos.

PAS - Mas se é um projeto de integração com a África, é diferente do de vocês, não?

JV - É, mas que vem inspirado na iniciativa de incluir os temas negros. O que estamos dizendo é que o que sempre se pediu no país era ferramentas que permitissem a inclusão do negro no ensino superior, na universidade pública, no mercado de trabalho. E, quando essa ferramenta é minimamente pensada, é pensada numa outra perspectiva, do negro africano. Tá um questionamento danado, uma briga. Mas, enfim, o modelo seguiu-se à Zumbi dos Palmares, então ficamos contentes com isso, está posto. E hoje, neste momento [24 de maio], está lá a Conferência Mundial de Racismo na ONU, saindo faísca, com o [presidente iraniano Mahmoud] Ahmadinejad soltando trovões verbais contra Israel, uma briga danada.

PAS - O tema é planetário.

JV - É. Temos essa discussão toda. Temos a São Paulo Fashion Week... O pessoal está em cima deles, cadê o Brasil miscigentado nessa passarela?

PAS - E estilistas falando barbaridades... [[em 12 de abril, a "Folha de S.Paulo" publicou a seguinte argumentação da estilista Glória Coelho contra a hipótese de criação de cotas para negros nas passarelas: "Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?".]

JV - Você vê que coisa absurda? Espírito de casa-grande e senzala é apelido.

PAS - O que você sente, pessoalmente, diante de um comentário como esse?

JV - A gente é obrigado a admitir que se trata de um descolamento terrível da realidade, e não é de negro, não. Acho que ela diria isso em relação a pobre, a qualquer outra coisa. São dois mundos tão distintos, tão diferentes, tão separados, tão desiguais. Um mundo que seguramente permite que se essa Glória vivesse 150 anos talvez correria o risco de nunca na vida cruzar com um negro no seu caminho.

PAS - Será? Os empregados dela devem ser negros.

JV - Ela pode até cruzar, mas nessa circunstância, e não numa situação de interação. Quando discursou na nossa formatura, o ministro [da Educação] Fernando Haddad falou uma coisa engraçada: "Eu fiz graduação, mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo, fiquei ali 15 anos. E nunca não tive a alegria de ter ou um professor ou um colega de faculdade negro". Foi muito bacana a palavra dele: "Vocês tiveram mais sorte do que eu, porque puderam ter um amigo negro". Mas são caminhos tão paralelos que dificilmente em algum momento vão se cruzar. É outro ambiente, outro mundo. Nesse sentido, soam até naturais a compreensão e a manifestação dela.

PAS - Ela presta um serviço sem saber, porque se expõe, inclusive ao ridículo. Deve ter muita gente que concorda com ela, mas...

JV - É. Não sei onde eu li, um cara estava falando do livro do Chico Buarque, o "Leite Derramado". Ali Chico faz a constatação do racismo da elite branca brasileira. Não li ainda, mas fiquei muito interessado. Chico tem sido vítima, ele diz como são o desconforto e a tristeza dele toda vez que vai à praia com o neto [filho de Carlinhos Brown]. Só falta dizerem "sai daqui, negrinho", só depois que descobrem que é o neto do Chico Buarque... Aí é que ele se deu conta do racismo e passou a escrever sobre isso, escreveu no "Leite Derramado".

PAS - Li o livro, e confesso que fiquei incomodado. É certo que está tentando fazer uma crítica, mas é uma voz em primeira pessoa, que fala coisas terríveis, e faz ficar pensando em que medida não é o autor mesmo que está ali...

JV - Só posso dizer que ele viveu a experiência bem de perto, com a família. O fato é que tantos outros grandes personagens poderiam ter se posicionado sobre o tema, e todo mundo ficou em cima do muro, ou não o fez. O legal dele é vir e dizer "olha, as coisas são assim, sim". Senão a gente cai naquela conversa mole de que "não somos racistas" [ri], porque não existe raça. Ai, meu Deus do céu, quem falou que precisa haver raça pra haver racismo?

É como no artigo de hoje do José Serra ["Folha", 24 de maio], também achei muito esquisito, muito esquisito. Ele vem num artigo qualquer, fazendo uma análise do massacre contra os armênios, e depois fecha: "Por isso nós precisamos combater quem quer que seja que apresente a possibilidade de privilégios a partir da raça, porque isso em algum momento vai instigar o ódio racial e vai acontecer como aconteceu com a Armênia". Não entendi o recado. Primeiro que José Serra nunca escreve, e quando escreve normalmente trabalha sobre aspectos econômicos. De repente vem pegar Turquia e Armênia pra mandar recado? Como você bem sabe está lá no Congresso Nacional a aprovação ou não da lei de cotas nas universidades públicas. Não entendi de onde surgiu José Serra se posicionando sobre isso, sendo que ele nunca deu qualquer entrevista sobre isso. Tá mandando recado pra quem?

Mas o fato é que o país hoje se debruça em encontrar uma resposta e um caminho pra esse tema. E aí acho que todos nós falhamos, sejam os governantes, as personalidades, os políticos, mas também a academia. Porque ao longo destes 120 anos ninguém se debruçou sobre esse tema pra pensar políticas públicas ou soluções quaisquer. Agora, por qualquer motivo, se consolidou uma, todo mundo é contra, ou a grande maioria é contra. Legal, não é cotas, é o quê? "Não, deixa do jeito está e vamos fazer a universalidade." Está de brincadeira? Mais 120 anos esperando o bolo crescer? Manda outro. "Não temos, vamos discutir." Então deixa as cotas e depois a gente discute outro.

PAS - Mas também a realidade vai pressionando. Obama não bagunça um pouco a acomodação geral?

JV - Pois é, porque a realidade está aí dizendo: se vocês não fizerem a mudança eu vou fazer, e a mudança vai ser pro bem ou pro mal. Pode ser pro bem, procurando um caminho que transforme essas energias dispersas em convergentes. Ou vamos começar a construir muro em tudo que é canto, na Paraisópolis, muro de Berlim pra tudo quanto é canto. Em vez de nós nos debruçarmos sobre o problema, vamos fazer muro. Mas sejam muros ou cotas ou qualquer coisa, alguma coisa vai ter que ser feita. Aí é que estamos esperando o grito dos democratas. Até agora, está todo mundo em cima do muro, é muito triste isso. A conquista desse tema negro acaba sendo uma conquista não-democrática. Tem um livro muito bacana, "Na Lei e na Raça", uma dissertação de mestrado do hoje secretário municipal de Reparação do Rio de Janeiro [Carlos Alberto Medeiros], o que ele diz é que o que se conseguiu aqui pros negros é uma conquista isolada, individual e solitária do negro. Não tem nem mídia, nem igreja, nem sindicato, CNI, ABI, OAB, ninguém. É você e você mesmo, contra tudo e contra todos. É muito triste, porque isso teria que ser uma luta de todos, porque é uma uma luta cujo resultado interessa a todos os brasileiros. E o brasileiro ainda não foi despertado pra isso.

PAS - Posso dizer que sou testemunha de que a mídia não melhorou quanto a isso.

JV - Eu sei. Nós estamos agora contestando a cota de 10% ou 20%. Criamos a cota de 1. Você vai ver que em alguns lugares os caras agora fazem questão de pôr um negro: "Olha, tem um aqui, tem um no bolso pra você [ri]". Ou quando você discute espaços de responsabilidade social: "Põe um negro aí na propaganda, pra que possamos nos apresentar politicamente corretos". Mas o "politicamente correto" é um negro e 30 não-negros do lado.

PAS - Eu estava percebendo isso outro dia na novela das oito. A personagem continua sendo empregada doméstica, mas agora tem uma casa, tem conflitos, um filho esquizofrênico... Dá um mal-estar, é melhor, pelo menos ela tem filhos, mas, ainda assim...

JV - [Ri.] Tem marido, né? Vai ter uma novela em que a Taís Araújo vai ser a protagonista e, segundo informações que tenho ouvido, vai ter algumas cenas quentes. Porque, por incrível que pareça, Pedro, até hoje você nunca viu uma cena quente de atores negros. Nunca, nunca. Em que novela você vê uma mulher negra e um homem negro se beijando, se roçando, rolando na cama? Nunca. É um tabu. Os negros que vemos primeiro não tinham família, segundo, eram sempre engraxates, jardineiros ou porteiros. Legal, conseguimos incluir negros com núcleo familiar. Aliás, teve até a discussão dessa última novela, com Milton Nascimento, "quando é negro protagonista, é bandido sem-vergonha" [ri], foi uma briga danada. Mas, enfim, tem negro com vida familiar, com carro etc. Dizem que nessa novela virá. E que negócio terrível, já puseram gay, lésbica, demente, tudo. Me parece que a mídia, ou a novela brasileira, ainda não tem segurança nem maturidade pra colocar dois negros se beijando.

PAS - Isso é conspiração involuntária, algo que ninguém faz e ninguém sabe por que não faz?

JV - Pois é, rapaz, vai saber. Me parece que ninguém quer pôr a mão na ferida. Todo mundo concorda, "puxa, que coisa, nunca vi um homem negro e uma mulher negra". Aí você fala com Manoel Carlos ou quem quer que seja, ele diz "é mesmo" e também não faz. A gente trabalha com algumas empresas aqui que nos ajudam com algumas vagas de estágio, e a grande dificuldade que tivemos de convencer parte deles no início do trabalho é que a gente sentia que nem era só por restrição ao tema. É que isso aí é trabalhoso. O cara teria que parar, começar a pensar nesse assunto, ler sobre, mudar o ambiente interno, preparar os outros funcionários, logicamente no início ia ter uns atritos que ia ter que administrar. Tudo isso ia fazer ele ter que parar o que estava fazendo, deixa, é melhor não.

PAS - Também tem que trabalhar com convicções internas que nem sabe que tem...

JV - É. Na mídia, ou na novela brasileira, tivemos "Xica da Silva", que foi uma coisa muito pontual, mas isso não é uma normalidade. Ao passo que, coisa engraçada, todos os filmes norte-americanos que entram no assunto entram com propriedade. Tem uns seriados de negros que passam no SBT - passa, vende, dá ibope, tudo sob controle. Chega aqui, num país miscigenado, vai pôr negro... Eventualmente não vende, como dizem sempre. Como diz a mulher aí, é a mão invisível do mercado. Na hora que o mercado estiver pedindo negro eu coloco negro. É um tabu que ninguém quer pôr a mão.

PAS - E um dos chefes máximos daquela mesma TV é quem escreve um livro dizendo que não somos racistas. E a prova de que somos, sim, está ali, na mesma TV, todo dia.

JV - É o fim da picada. Todo dia, toda hora. Esse é o triste do brasileiro, que prefere dissimular a realidade do que encará-la de frente. Ele vem com essa conversa aí, e tenta aliciar outras pessoas, de que não somos racistas. Pode até ser que na essência o brasileiro não seja racista, mas as práticas racistas estão postas aí, numa estrutura que se retroalimenta continuamente. E ele não entende isso como uma anormalidade, e é por isso que a moça vem dizer: "Ah, mas tem negro aqui fazendo bolsa, fivela". Mas, olha, tá errado, não tem na passarela. Se pode fazer fivela, poderia com a mesma propriedade estar na passarela. Aí ela diz: "O problema não sou eu, o problema é o mercado". Mas o mercado não é um ser invisível e dotado de vontade. O mercado é você. Precisa de um papo desse pra ela cair na real, quem sabe muitos tenham um insight com um caso desses. É bacana. Por isso digo que trabalhos como o de vocês da "CartaCapital", que ponham o tema na bandeja, são fundamentais, continuam sendo um trabalho de conscientização.

/PAS - Excepcionalmente, a capa da "CartaCapital" desta semana é o Joaquim Barbosa. As revistas também não põem negros na capa.

JV - Não põem. A nossa mídia como um todo não trata esse tema com profundidade e seriedade. A nossa academia torce o nariz. Nenhuma das nossas instituições sociais se mobilizou ou traz qualquer solidariedade - ABI, OAB, magistratura, Ministério Público etc. Se o Ministério Público tivesse chamado meia dúzia para um termo de ajustamento de conduta, já tinha mudado essa realidade no país. Nenhum dos partidos políticos tem qualquer ação objetiva nesse sentido - nem nesse nem em qualquer outro, mas nesse mais ainda. Nenhum, de A a Z, direita, esquerda, centro. As variações religiosas também, não se tem nem padre negro. Os organismos internacionais em regra estão pouco preocupados com isso. Aqueles que teriam como obrigação legal zelar por isso, como BNDES, está mandando tanta grana pra essas empresas... Imagina se ajudassem a pôr essa Zumbi de pé. Dão grana pra ONG da mulher do deputado, então deem pra gente, ajuda a botar de pé. A luta continua sendo solitária, de um grupo de negros, meia dúzia de colaboradores, interessados...

PAS - Mas não é bem assim. Quantos alunos você tem aqui hoje?

JV - 1.800 alunos.

PAS - É menos solitária do que já foi...

JV - Ah, sim, mas estou dizendo pra você que nossa alegria é saber que a vida nos permite, apesar das contradições, mostrar que é possível fazer.

PAS - Como você falou, por mérito de quem resolveu peitar.

JV - Pedro, se nós com todas as limitações conseguimos, imagine governo, Ministério da Educação, BNDES. Já teriam feito há 120 anos, poderiam ter feito muito melhor, com muito mais propriedade, há muito mais tempo. Outro aspecto é que, tudo bem, é uma grande realização, mas no macro é uma gota no oceano. Quando conversamos naquela outra oportunidade, me lembro que falei pra você que a USP tinha quatro professores negros, em 5.400. Nós já fomos pra duas conferências mundiais sobre racismo e discriminação, e continua com quatro. Isso é um termômetro.

PAS - Um termômetro de como a elite paulista é racista até o último fio de cabelo.

JV - Até a medula. No governo Fernando Henrique Cardoso - que é o mais aprofundado conhecedor de temas negros, com tese de doutorado sobre negros - não tivemos nenhum ministro negro. Tivemos Pelé, que foi ministro extraordinário por seis meses. Repare que agora, no primeiro, segundo e terceiro escalão do governo estadual do PSDB, não tem um negro. Mesmo na prefeitura não tem um negro. E só depois de muita pressão que dos 360 desembargadores agora temos um negro.

PAS - Com pressão?

JV - Com pressão. Diga-se de passagem, o Serra teve sensibilidade. Mas às vezes acaba sendo a sensibilidade do Serra, mas não é a do establishment, do PSDB verticalmente. É do governante A, B ou C. Mesmo os três ministros do Lula, o Joaquim Barbosa, não é um plano do partido, no mais das vezes é o Lula que bate o pé, "quero, vai ser assim, pronto, acabou", contra tudo e contra todos.

PAS - Você acha bom ou ruim o Joaquim Barbosa fazer o barulho que fez?

JV - Ele não fez por querer. Acho que teve uma reação talvez desmedida, mas uma reação frente a um fato ali do trabalho, acidente do trabalho.

PAS - Teve um apoio imenso da sociedade "desorganizada", pelo menos na internet.

JV - Com certeza. É fruto da seriedade, da postura reta dele. Por outro lado, está se polemizando gratuitamente, porque, antes dele, pelo amor de Deus... Quer mais que aquele Marco Aurélio de Mello, que saía no braço com todo mundo? Sempre houve esse bate-boca lá.

PAS - Falamos tanto da dimensão simbólica, o que você percebe de mudança simbólica no dia-a-dia aqui na escola, entre os alunos, por causa da chegada de Obama? Acredita que vai ter efeitos diretos?

JV - Sabe que tem dois alunos e um professor nossos que estão nos Estados Unidos, no nosso primeiro intercâmbio? Estão chegando por estes dias. Em maio ou junho, chega o pessoal de New Orleans. Conseguimos o primeiro intercâmbio internacional, estamos soltando rojão.

Mas qual seria minha leitura? Acho que nossos alunos viram e veem na possibilidade Obama um reforço da sua auto-estima. Também viram no sucesso do Obama talvez a confirmação disso que estamos conversando, de que nós podemos. Está contribuindo muito pra que compreendam que não existe almoço grátis. Ou seja, Obama chegou porque é bom, e é bom porque foi pra escola e fez a lição de casa. Então descobriram que isso de fato foi uma boa escolha. E os alunos aqui batem boca, "eu quero", "eu faço", eles descobriram um espaço de manifestação. A gente fica muito contente e triste ao mesmo tempo, porque os poucos espaços que o negro tem pra falar coletivamente, publicamente, é nos nossos veículos, na "Revista Afirmativa", no programa "Negros em Foco". Fora isso, meu amigo, não tem espaço pro negro falar. No mais das vezes quem está sempre discutindo o negro é o outro. Então pra nós é importante a perspectiva de um jovem negro ter voz e utilizá-la, ainda que internamente. E Obama tem também influenciado muito esses jovens a pôr na mesa uma série discussões - conferência de racismo, a própria instituição, mensalidade, se o ambiente está legal, o que está faltando. Estão contestando, cobrando, virando clientes exigentes.

PAS - Na sua opinião Obama está indo bem como presidente?

JV - Pois é, Obama é o tipo do cara que não precisaria fazer anda pra ser "o cara", em termos de simbologia. Ele representa muita coisa. Mas o que me parece, nas sinalizações, é que ele está surpreendendo. Foi ao Oriente Médio e surpreendeu, veio aqui e tomou uma 51 com Hugo Chávez, e está tudo certo. Ele tem uma capacidade fabulosa de desanuviar ambientes. E mesmo na condução da crise norte-americana não tenho ouvido qualquer crítica muito mais ácida no sentido de ele estar cometendo barbeiragem. Está firme, o povo americano está apoiando, continua sendo um ídolo, a rainha tá assim com o cara [ri].

Conversei com um amigo dos Estados Unidos, ele estava dizendo que elegeram o novo presidente do Partido Republicano, e é um negro. Preciso checar essa informação, mas tenho quase certeza que isso aconteceu. Ele estava dizendo que o maior impacto do Obama nos EUA foi fazer o Partido Republicano colocar um negro na presidência, uma coisa inusitada, imponderada, impensável, irrealizável.

PAS - Se ele fica amigo de Lula, Chávez, Evo, iranianos, vai acabar sendo classificado como do "eixo do mal", ou de esquerda?

JV - Me parece que ele só tá trocando o porrete de mão. Tanto é que saiu fora da conferência - pelo amor de Deus, como um negro boicota uma conferência sobre racismo? Acho que isso demonstra que é bonzinho, mas não muito. Ou que, pra implementar prioridades não pela força, mas pelo argumento, precisa se apresentar como bom moço. Mas, na hora que estiverem em jogo os interesse americanos, não tenha dúvida, ele tem que ter lado, e vai ser obrigatoriamente com o eixo da força política que lhe dá sustentação. Não tem como estar no meio de uma força política e achar que o cara é bonzinho, que não tem caixa dois de campanha, grupo que vai ganhar as licitações. Gostemos ou não, isso é a essência da política. Se na sustentação dele tiver o cara que quer vender mais aviões ou armas, ele não vai dizer: "Não vamos mais vender armas". Por outro lado, ele não é o governo dos negros, ele é um governante negro.

PAS - De qualquer modo, vai ser interessante acompanhar a trajetória. Você de perto, às vezes.

JV - Eu só vi ele pela cordinha, quando ele fez o percurso a pé eu estava na cordinha. Mas terça vou estar lá no Departamento de Estado. Pra Hillary Clinton pelo menos dá pra dar um tchauzinho [risos].

[A entrevista se encerra, ele se põe a mostrar a parede cheia de recortes de reportagens sobre a Zumbi dos Palmares em diversos veículos de imprensa. Fala da formatura da primeira turma, no ano passado.] Foram 241 formandos, se juntar com os 120 que vêm agora temos 360. Estamos felizes de formar a segunda turma, mas 360 jovens é o maior número de negros formados em toda a história da América do Sul, em pleno Terceiro Milênio, num país que se diz que é uma democracia racial. Olha que abusrdo. Tem muita lenha pra queimar ainda.

PAS - O legal é que a cada semestre vai aumentar.

JV - É, missão cumprida. Se eu for pro segundo andar, vou feliz.

PAS - Nem pense nisso por enquanto, tem muita coisa pra fazer ainda.

JV - É [ri], estou feliz.

Terça-feira, Maio 12, 2009

parece que endoideceu

não sei se alguém estranhará o que vou dizer agora, mas (com licença devidamente pedida a dona gal costa & a muitos outros mais) eu não conheço nenhuma releitura de dorival caymmi mais batuta do que esta, de "o mar", pelo grupo mato-grossense (do norte) vanguart.



todo dia era dia de índio!

a change is gonna come

textinho ligeiro sobre bob dylan, da "carta capital" 545 (13 de maio de 2009).


DYLAN EM LUA-DE-MEL

Se alguém, no campo artístico norte-americano, foi beneficiado pelos anos Bush, esse alguém se chama Bob Dylan. Não sem certa ambigüidade, a imagem do artista hoje quase septuagenário subiu uma vez mais ao primeiro plano, reencarnando talvez os humores de insatisfação e protesto que o fizeram grande nos anos 1960. O folk voltou à tona, e conta até com inusitada voga no Brasil, de nomes novos como Vanguart e Mallu Magalhães.

Em Together Through Life (Sony), Dylan avança pela era Obama adentro, adocicado por canções de amor quase otimistas e motivado por expressões afirmativas como as de It's All Good e da faixa-título. Em grande parte do CD, uma sanfona agridoce aveluda a voz áspera e amacia faixas quase alegres, como Beyond Here Lies Nothin’ e I Feel a Change Comin’ On. Evoca à distância o monumental álbum Desire (1976) e reaproxima o autor de um ambiente sonoro cigano, acaipirado.

Talvez para provar que nem tudo são sorrisos e acenos, Dylan preserva em Life Is Hard o tom de fossa amorosa e o andamento arrastado, soturno. A coleção de críticas favoráveis e a escalada a alguns topos de paradas atestam que a lua-de-mel entre o velho poeta e seu rebanho prossegue. - POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Segunda-feira, Maio 11, 2009

toda vez que eu viajava

seguindo ainda no tema aberto pelo tópico anterior, e pela reportagem sobre o clube (e o rio) tietê, estranho é olhar o mapa fluvial desta parte do brasil e observar o rio tietê indo desaguar no rio paraná, o rio que tem o nome do estado onde eu nasci.

não nasci em são paulo, e no geral sou bem ignorante em matérias de história e geografias deste estado (das do paraná também pouco sei, mas isso já é uma outra questão...). tanto que demorei anos para entender que o tietê nasce na serra do mar e avança rumo ao interior (pela minha lógica torta, achava que devia ser o contrário).

pois então, é lá, no rio paraná do meu paraná, que cai a sujeira toda de cá da minha são paulo, a sujeira toda da "prosperidade".


estranho também é seguir olhando abaixo, paraná adentro, e encontrar lá, desmbocando no mesmo paranazão, mas bem menorzinho (e portanto menos poluidinho) que o tietê, o rio ivaí. o rio da minha infância, o maior clube e parque de diversões (natural) que eu frequentei na vida. o rio onde meu pai pescou a vida toda, e de onde trouxe um monte de peixe (que na época eu não gostava de comer).

a propósito, voltei lá no rio ivaí poucos meses atrás, depois de uns 15 anos de desencontro. entrei dentro dele como sempre, sem nem pensar se hoje está ou não poluído (será que está?). era taaaanta saudade que eu nem sabia que tinha.

quando eu era pequeno, nas margens do ivaí só havia mata e barro e plantação de soja e o casebre da família do joão guarda (o guarda florestal do pedaço) e, mais lá longe, as cidadezinhas de ivatuba e doutor camargo. hoje as barrancas do rio estão apinhadas de condomínios fechados, portais com entrada controlada, casas com piscina, portões com cadeado.

a casinha de madeira do joão guarda evidentemente não está mais lá, naquela curva que não sai da minha memória um minuto sequer.

mas, mais estranho de tudo, o rio ivaí pareceu aos meus olhos (e outros sentidos) o mesmo de sempre. pareceu quase meu, como eu acreditava que era uns 30 anos atrás.

mas fico pensando... será que desde pequeniniho eu já depredava rio?

Sexta-feira, Maio 08, 2009

o rio, a margem e o quilombo

não é de hoje que me encanta a história da faculdade zumbi dos palmares.

nem é de hoje que me causa profundo desconforto a proximidade do rio tietê, o estado em que ele se encontra e o que significa esse estado.

o que eu nunca imaginei, nunca, é que um dia esses dois temas se encontrariam e entralaçariam numa mesma reportagem que eu iria fazer. lá vai ela, da "carta capital" 544, de 6 de maio de 2009.



O rio e a margem
Outrora espaço da elite paulistana, o Clube de Regatas Tietê é hoje ocupado pela Faculdade Zumbi dos Palmares

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Era a década de 1940. A um grupo de meninos pobres das redondezas foi dada a oportunidade de aprender natação no tradicional Clube de Regatas Tietê, à beira do rio, no bairro da Ponte Pequena, zona norte de São Paulo. Na portaria, a entrada foi permitida a todos eles, menos um. Esse, além de pobre, era negro. Foi barrado. A discriminação racial era regra nos clubes da cidade, do estado, do País.

Frequentado originalmente pela elite paulistana e celeiro de atletas como a tenista Maria Esther Bueno, o Clube Tietê vive, aos 102 anos de idade, realidade bem distinta. Neste 2009, recebeu cerca de 1,8 mil novos frequentadores, 87% deles negros. É que um de seus edifícios instala, desde fevereiro, a Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares, fundada em 2004 sob a regra de destinar ao menos 50% das vagas a estudantes negros.

O clube vive um prolongado processo de decadência e perda de sócios. O contrato de comodato com a prefeitura está prestes a terminar, a dívida acumulada é de 300 milhões de reais. A Zumbi dos Palmares ocupa provisoriamente o antigo galpão de ginástica olímpica, judô, esgrima e balé, em troca de pagamento de água, luz e manutenção do prédio, sem aluguel. O reitor José Vicente pleiteia, na prefeitura, ocupar o espaço pelos próximos 50 anos, também em regime de comodato. "Estamos nos últimos ajustes. Vamos ficar aqui", afirma.

O garoto negro dos anos 1940 foi barrado quando o rio Tietê avançava rumo à total degradação, mas ainda era usado para nado, navegação e regatas. O menino hoje tem 75 anos, é ator e se chama Milton Gonçalves. A história é exemplar de situação amplamente familiar a cidadãos negros, ou melhor, a “todos os negros do Brasil”, segundo suas palavras. Ele próprio viveu experiência mais traumática do outro lado do rio, quase em frente, na Associação Atlética São Paulo.

Ao completar 18 anos, tentou entrar num baile carnavalesco da Atlética, e foi mais uma vez impedido, desta vez por um segurança que nas horas vagas era seu companheiro de peladas. Insistiu. Argumentou que costumava assistir aos jogos no clube e ninguém dizia nada. Foi contido pelo presidente do clube em pessoa, sob a explicação de que "os sócios não iam gostar".

"Já existia a Lei Afonso Arinos, e eu disse: 'O senhor sabe que se eu for à delegacia vão fechar seu clube?'. Ele respondeu: 'Você acha mesmo que vão fechar este clube por causa de alguém como você?'. Foi um dia de terror para mim", relembra. Naqueles tempos, só soube de um casal negro que conseguiu entrar num baile do Tietê. Estavam fantasiados, os rostos ocultos por máscaras. "Lá pelas tantas, tiraram as máscaras. E foram retirados do clube."

Vicente lembra que o Movimento Negro Unificado foi articulado, inicialmente, em reação a um caso de discriminação racial de quatro jogadores de vôlei no Clube Tietê. Era 1978, mais de três décadas após o episódio vivido pelo ator. "O público que antes não podia entrar aqui hoje vem para estudar", avalia.

Mineiro criado em São Paulo, Gonçalves traduz o que sentiu quase 60 anos atrás: "Me deu um ódio, fui beber cachaça no bar ao lado, fiquei lá sozinho. Num momento desses, explode na sua cabeça tudo que você já sabia e fingia não existir. Passei muitos anos com muito ódio dentro de mim. Por anos, planejei tocar fogo nos barcos, dinamitar o prédio, qualquer coisa. Mas o bom senso prevaleceu, fui procurar outros conhecimentos".

O atual presidente do Clube Tietê, o esgrimista Edson Oliveira Rocha, aborda o tema espinhoso: "Num passado não tão distante, o clube era racista. Havia racismo, não se deve negar. Foi praticado, mas não é mais. Hoje é uma associação de várias raças". E ilustra: "Temos aqui 300 coreanos praticando badminton (esporte semelhante ao tênis, praticado com raquete e peteca). Alguns chegam de limusine blindada, são pessoas de posse mesmo".

O clube, que no auge chegou a ter 30 mil associados, possui hoje cerca de 2 mil, segundo seu presidente. Ainda se tentam vender os outrora disputados títulos, por uma "joia" de 1,8 mil reais, sem sucesso. E a mensalidade de meros 35 reais garante o acesso de qualquer frequentador.

Rocha atribui ao avanço dos condomínios fechados o ocaso do clube. "Hoje os condomínios da elite dão ênfase a piscina e quadras de tênis."

Mas na vida e morte do rio parece se esconder o fio da meada. Milton Gonçalves lembra quase ter se afogado embaixo da Ponte Grande, nos anos 1940, mas o pequeno paraíso de caça, pesca, coleta, esporte e recreação, utilizado por ricos e pobres, se deteriorava desde ao menos o início do século, como descreve o historiador Janes Jorge no livro Tietê – O Rio Que a Cidade Perdeu (Alameda).

Nada faz lembrar a diversidade ao longo do curso do rio, num passado em que uma ponte ligava os rivais Tietê e Espéria (outro clube ainda em atividade, do outro lado do rio), atletas amadores andavam de pedalinho pelo rio, frequentadores de chapéus, ternos e vestidos elegantes assistiam às regatas em mesas instaladas à beira da água. Lavadeiras pobres também exerciam seu ofício à margem do rio, e o confronto de classes nunca deixou de estar presente.

O livro de Jorge descreve a criação da União Paulista dos Clubes de Remo, em 1903, e se refere ao estatuto "altamente elitista" formulado para afastar os trabalhadores dos esportes náuticos. Em 1912, narra, a Federação Paulista de Remo excluiu os operários do rol de remadores registrados para a temporada oficial.

Em seus anos de auge, o Clube Tietê deu guarida a uma série de esportistas bem-sucedidos. Maria Esther Bueno começou a treinar ali em 1950 e conquistou 589 títulos internacionais. Foi tricampeã em Wimbledon, em 1959, 1960 e 1964. O nadador Abílio Couto foi recordista mundial na travessia do Canal da Mancha e atravessou, em 1965, o Estreito de Gibraltar. Antes, a pioneira Maria Lenk se tornou a primeira mulher sul-americana a competir nas Olimpíadas, em 1932 e a primeira a quebrar recordes mundiais de nado, em 1939. No futebol, o Tietê adquiriu, em 1935, o São Paulo da Floresta, que tinha jogadores como Arthur Friedenreich.

São Paulo cresceu, a ponte entre o Espéria e o Tietê desapareceu e extensas áreas dos terrenos às margens do rio foram desapropriadas para a construção da Marginal Tietê, que soterraria com ela a memória de uma cidade erguida às margens do rio.

De 1924 em diante, por exemplo, realizou-se no Tietê a tradicional Travessia de São Paulo a Nado, um percurso de 5,5 quilômetros da Ponte da Vila Maria até o Espéria, na Ponte Grande. Em 1935, 1936 e 1947, a disputa foi vencida pelo jovem João Havelange, mais tarde presidente da Fifa. Em sua última participação, em 1948, ele contraiu tifo negro e ficou dois anos internado, segundo narra o livro fotográfico Tietê – O Rio de São Paulo (A Books).

Em 1972, as regatas foram transferidas para a raia olímpica da USP. A avenida Santos Dumont, onde fica a entrada do Clube Tietê, é hoje uma inóspita via expressa. Sem rio à vista nem paisagem aprazível, os frequentadores originais abandonaram a região. "O Tietê estava às moscas, a faculdade está trazendo vida ao lugar", diz Vicente.

Outro elemento da democracia de raças e identidades instalada no Tietê versão anos 2000 é a Pool Party, uma festa à beira da piscina promovida no clube pela boate gay The Week, para uma média de 8 mil frequentadores. "Não fazemos restrição nenhuma, Nossas sócias velhinhas vão. No começo se assustam, mas participam. Modestamente, essa democracia irrestrita deve-se a mim", diz Rocha, num início de noite, recém-chegado do emprego diurno numa multinacional fabricante de elevadores, onde trabalha como eletrotécnico, uniformizado.

"O conselho e os associados mais velhos resistem. Resistem à Pool Party, ao tênis dos coreanos, à Afrobras (a ONG por trás da Zumbi dos Palmares), aos programas sociais", diz. "Como presidente voluntário, minha vida é um inferno. Tenho polícia atrás de mim, por causa da dívida do passado, processos trabalhistas. Isso vai ser resolvido com a venda do clube de campo, que está em andamento." Refere-se à sede campestre de um milhão de metros quadrados às margens da represa de Guarapiranga, hoje desativada.

A convivência entre negros e não-negros parece rudimentar na nova configuração do clube. "Os coreanos ficam lá longe, acho que estão indo embora mais cedo desde que a gente chegou", sorri Alexandrina Souza, aluna do quarto ano de administração. Três jovens coreanos reagem à tentativa de aproximação com expressões assustadas. Dão as costas e se afastam rapidamente.

Segundo o presidente do Tietê, não há nenhum registro de conflito até aqui. "Os sócios frequentam mais durante o dia, e a faculdade só funciona à noite. Não há confronto entre as partes", afirma.

De fato, é exclusivamente noturna a escola, que atualmente oferece os cursos de direito, administração e tecnologia em transportes terrestres, e no segundo semestre deste ano deve abrir vagas para publicidade e propaganda e pedagogia. As mensalidades, abaixo dos preços médios das universidades particulares, oscilam em torno dos 300 reais.

Entre o fim da tarde e o início da noite, a paisagem do clube se mescla entre meninos da escolinha de futebol, tenistas coreanos e os alunos da Zumbi que chegam, muitos deles de ternos, gravatas e cabelos black power. A maioria trabalha durante o dia e estuda à noite. Vários dormem nos pufes da biblioteca enquanto esperam as aulas.

Numa noite de sexta-feira, o movimento é grande nas várias lanchonetes do Tietê. Em cena improvável há 50 anos, uma das lanchonetes comanda a animação com churrasquinho ao ar livre e Zeca Pagodinho cantando o tempo que Don Don jogava no Andaraí em alto volume.

"Às 20h30, está todo mundo nos nossos bares. Isto aqui está uma grande festa", comemora Rocha. Ainda tem adesão pequena, segundo ele, a proposta de associar os alunos da Zumbi ao clube. Admite que a concessão de desconto, inicialmente proposta, é objeto de discórdia na diretoria. "O conselho não aceitou um preço promocional para os alunos. Eles pagam o mesmo que qualquer associado", diz.

Wallace de Moraes, do terceiro ano de administração, utiliza o equipamento esportivo diariamente. Comenta os vaivens de localização da escola, que antes teve sedes na Luz e na Barra Funda, essa última num antigo centro de distribuição da loja virtual Submarino. "A parte ruim é tanta mudança. A faculdade ainda não tem uma estrutura sólida. O curso tem problemas, mas isso vai do esforço do aluno."

Atualmente desempregado, Alexandre Pinheiro dos Santos, do terceiro ano de administração, tem usado a piscina durante o dia. "O mundo dá voltas. Quem diria que eu ia entrar num clube, estudar nele e ainda nadar por 15 reais", observa. "A escola está engatinhando, muita coisa precisa melhorar. Mas não dá para se cobrar tanto, o projeto é maravilhoso."

O reitor interpreta as "andanças" da sede em termos simbólicos. "Elas retratam o tema do nosso lugar no imaginário, na educação. É uma luta difícil, exige ações objetivas, mão na massa, dinheiro, tanto que às vezes é mais fácil ficar na utopia", diz.

"Há uma contradição aí. É um tema terrível para trabalhar, mas que na atualidade permite alguns sucessos. Temos andado sempre para frente, não de lado." Além do crescimento dos 2 mil metros quadrados iniciais para os 20 mil de hoje, as andanças têm levado a faculdade aos Estados Unidos, dentro de um programa de ações afirmativas firmado por Condoleeza Rice no governo Bush e mantida por Barack Obama.

Vicente foi observador das eleições presidenciais pelo Partido Republicano, e voltou para a posse de Obama, a convite do comitê democrata e da American Express, cujo vice-presidente é negro. "O que senti ali, a 150 metros do Capitólio, é inenarrável." Na segunda-feira 27 de abril, integraria uma comitiva do Plano de Ação Conjunta Brasil-Estados Unidos contra o Racismo e a Discriminação Racial em Washington, numa reunião com a secretária de Estado, Hillary Clinton.

Sua intenção, se confirmada a conquista do Tietê, é erguer ali uma sede própria, especialmente planejada. Segundo ele, o objetivo do prefeito Gilberto Kassab (DEM) é transformar o terreno num centro de referência em treinamento olímpico, sem interromper o uso do clube como espaço coletivo. A escola faria parte desse contexto.

Vicente cita a CPI municipal que em 2001 investigou a cessão de espaços públicos a entidades privadas como marco de um processo de mudança. "A prefeitura tem solicitado contrapartida social por parte das instituições privadas, ou então retomar os espaços. Ficaram obrigados assim a apresentar outra roupagem, não se sabe até que ponto por decisão voluntária."

Esse é um dos entraves do atual Tietê, e de outros clubes. "Hoje o Ministério Público estranha o uso de espaços públicos sem fins de prestação de serviço à comunidade. Não entendem muito isso de ser restrito a uma elite, exigem contrapartida", afirma Rocha.

A população negra que hoje aflui à Faculdade Zumbi dos Palmares segue na luta por espaço na sociedade. "Nas novelas, os negros não são mais só empregados domésticos. Agora também são sambistas e jogadores de futebol. Não sei se você entende que estou sendo irônica", diz Alexandrina. "Quando o personagem negro é rico, é bandido. Precisa ser assim?", pergunta, em referência ao político corrupto interpretado por Milton Gonçalves em novela recente da Globo.

Milton Gonçalves até hoje não pisou no Clube Tietê, mas diz que voltaria se fosse pela Zumbi dos Palmares. E formula, com a voz embargada, um elogio amargo à iniciativa: "Ser obrigado, em pleno século XX, a ter uma faculdade separada... Não é justo. Não é justo. Eu ajudarei enquanto vida tiver, mas ainda acho que é uma humilhação". Em março de 2008, ele fez um discurso sobre a Abolição na cerimônia de formatura da primeira turma da faculdade, no Ginásio do Ibirapuera.

Sobre aquele dia, fala José Vicente: "Não tenho o que dizer, é missão cumprida. Eram 241 negros se formando, nossa terceira abolição. É o maior número de negros formados na universidade em toda a América do Sul, você acredita?". O que responderiam os dirigentes e sócios do Clube Tietê que barraram Gonçalves seis décadas atrás?

Quinta-feira, Maio 07, 2009

peguei um ita no norte

assim como deputados, jornalistas costumam viajar muito a trabalho.

se você não é do ramo, deve imaginar que os veículos de comunicação onde eles trabalham pagam suas passagens, certo?

errado, não é bem assim.

como contei ontem num debate sobre crítica musical no congresso de jornalismo cultural promovido pela revista "cult" no tuca (o mesmo lugar onde sérgio ricardo quebrou o violão, como lembrou o arthur dapieve), eu viajei para tudo que é canto a trabalho durante os dez anos em que trabalhei na "folha".

na grande maioria das vezes, não foi o jornal que pagou minhas passagens. sabe quem foi? a parte interessada na reportagem que eu ia fazer. geralmente, a gravadora que estava lançando o cd do artista que eu ia entrevistar.

será que isso é tão diferente assim dessa incrível "descoberta" que fizeram agora, sobre como o suplicy, o gabeira, o ciro, o heráclito (tem algum tucano de cepa na mamata?) etc. mercantilizam, digamos assim, suas cotas de viagens?

quem costuma pagar, por exemplo, as viagens dos jornalistas que fazem reportagens turísticas? ou as refeições dos críticos gastronômicos? os cds que alimentam o jornalismo musical fast-food?

jornalistas de renome nunca viajaram-viajam-viajarão "a convite" (esse é o jargão habitual) dos nobres deputados, senadores, prefeitos, governadores etc.?

com que recursos será que a globo arremessa seus profissionais aos quatro cantos deste mundo redondo, da amazônia aqui perto até a índia lá do outro lado da bola?

também não sei, mas, viu?, haja paciência para aturar jornal e jornalista cuspindo lição de moral sobre a "imoralidade" que enxergam só e sempre nos outros e nunca neles mesmos.

Terça-feira, Maio 05, 2009

ninguém sabe o duro que dei



Segunda-feira, Maio 04, 2009

que coisa maluca minha pururuca

Quinta-feira, Abril 30, 2009

juntos através da vida

por causa de ouvir o disco novo do bob dylan, "together through life", eu fico pensando nas vozes.

se a gente deixar de banda aquele nhenhenhém de que "o dylan não é mais aquele", ou coisa que o valha, pode ser tão bonito - é tão bonito - ouvir as vozes envelhecendo.

a do bob dylan é aquela que cospe na cara da gente todo o desconforto que vem de dentro do cantor. voz de raspador de queijo. voz de quando a gente, menino, se esfola inteiro naqueles muros cheios de ranhura. raspa de tacho, pá no cascalho.

também parece voz de cigarro - e essa modalidade está longe de ser privilégio do dylan.

a gente quase sente o cheiro da fumaça quando ouve a marianne faithfull. pega ela mocinha cantando "as tears go by", e pega ela agora, cantando "nobody's fault", do beck, ou "before the poison", da pj harvey (e dela própria). culpa de ninguém, depois do veneno, parece que a chaminé de um trem entrou no eu dela. bonito de rasgar o coração.

outra é a deborah harry. eu só fui perceber que a voz dela ficou velha de cigarro (ou de sei lá o quê) nesse último disco solo, "necessary evil", mal necessário. virou voz de megera de desenho animado. justo ela, que tinha voz de heroína, de sexo explícito, de lovevoxxx.

idem para a da tracy chapman. de repente, no (maravilhoso) "our bright future", eu levo o susto de escutar a voz de uma senhora, aquela mocinha carrancuda de quando eu tinha 20 anos. mas que baita senhora, nosso brilhante futuro, a balada funksoul "a theory" é mais profunda (e bonita) que dez tracys cantando "baby can i hold you tonight".

falar da chapman me remete instantaneamente a milton nascimento, e a voz dele parece desgastadinha de tudo nesse disco de jazz com os irmãos belmondo (saiu lá fora faz dois anos, só agora a biscoito fino "importou"; quer dizer, o rapidshare já tinha importado, mas...). mas o que ganha de desgaste a voz dele ganha também em interpretação, em musgo colhido lá das profundezas. a "nova" "nada será como antes" é um colosso, e nada será como antes, tudo que você queria ser...

aí há os tropicalistas, e a maria bethânia, e a maria alcina, e o ney matogrosso, esses parecem domadores de vozes para sempre novas em folha. deve estar inscrito nos genes tropicalistas, e na hereditariedade.

se bem que gilberto gil, extra-exceção, perdeu grande parte da sua. criou calo justamente ali, na corda da voz, no instrumento de trabalho, na porta principal de seu encontro com o resto do mundo. tropicalista antitropicalista, ele. dizem que suicida da própria voz (porque teria usado e abusado do falsete - talvez não seja muito, er, adequado um homem cantando assim que nem mulher, não é mesmo?). que seja, com o fiapo que tem fez "não tenho medo da morte" (mas de morrer, sim), mais profunda (e bonita) que duzentos palcos e trezentos realces.

e o chico buarque? em 1981 cantava "a voz do dono e o dono da voz", para protestar simbolicamente contra o patrão, contra a patroa, a gravadora multinacional? nunca cantou tim maia nem toni tornado, mas hoje em dia parece o homem mais frágil deste mundo quando canta (quando escreve também, mas isso já não é assunto de corda vocal).

a gal costa eu nem sei definir, as músicas que tem cantado, entre outros detalhes, deixam escondidas lá embaixo a voz mais sedutora destes pântanos.

erasmo carlos? quando era criança e não entendia nada, tinha voz de menino. hoje, quando é um homem e entende tudo, tem voz de um... menino. tropicalista.

jorge ben? rouco, rouco, rouco. como se usasse óculos escuros na garganta.

epa, já percebi que posso passar o feriado inteiro aqui se continuar brincando em cima disto. então paro por aqui, por agora.

antes, só uma conclusão, de mim pra mim mesmo: eu não consigo pensar em outra justificativa possível para o fato de a gente não (vou usar uma palavra bem, er, "jovem", bem da moda, bem facebook) curtir as vozes curtidas dos "velhos", a não ser o medo que a gente sente da nossa própria velhice. de quando outros jovens estarão desprezando o que a gente vier cantar, calar, falar ou fazer.

(p.s.: não sei ao certo do que se trata, mas parece que a voz de dilma roussef se faz ouvir na "carta capital" deste fim-de-semana, número 544. pago pra ver. e, a propósito, essa mesma edição traz uma reportagem minha sobre o Clube de Regatas Tietê - ?????????????)

Quarta-feira, Abril 29, 2009

araçá azul é segredo

tenho cá comigo uma pequena coleção de trechos que me causaram impacto no livro "entrevistas bondinho" (azougue), um apanhado das entrevistas musicais e teatrais que o jornal ("underground"? "indie"? independente?) praticou lá nos passados de 1972. já salpiquei aqui uma intervenção do rogério duprat, mas tem mais, muito mais.

de cara(s & bocas), uma de março de 1972, com maria bethânia, desabalada e muuuuuito diferente da senhora reservada de hoje em dia:

"Eu sou muito esquisita. Eu já tentei o suicídio uma vez. Inclusive eu lembro que quando eu tentei me matar, no momento, eu pedia muito perdão, sabe? Porque não é legal. Mas eu tava descontrolada, muito nervosa. Era amor, era uma porção de coisas. Eu não fazia nada, ficava sentada dentro de casa, não queria trabalhar, não queria fazer nada. Ficava tomando vinho. Não falava com ninguém, não via ninguém, não lembrava de comer, esquecia de comer... magra, arrasada, abatida. Não sabia quando era dia, quando era noite. Não sabia nada. Só queria curtir minha cabeça. Escrevia, escrevia, escrevia, feito uma doida. Cartas, contos, letra de música, desenhava muito. Minha casa ficando cada vez mais desarrumada, porqeu eu não arrumava, ficando... Tava uma loucura e um dia eu resolvi sair. Me vesti e fui pra rua. Fiquei andando sozinha. As pessoas me olhavam assim, eu olhava pras pessoas, as pessoas falavam comigo. Não achei graça em nada, Aí eu disse: 'Ah, vou me matar. Não tenho nada que fazer mesmo'. Fui pra casa e tomei uns comprimidos. Mas um amigo meu entrou lá em casa e me pegou. Agora eu amo esse amigo. Foi daí que eu passei a fazer análise. Foi maravilhoso. Durou só dois anos porque eu fugi. Eu queria saber uma coisa, quando soube me mandei. Eu tô pensando em voltar. Agora eu quero saber uma outra coisa. Meu psicanalista é a paixão da minha vida. Ah, mas que homem maravilhoso, lindo. Ah, esse homem é um amor".

hum, a bethânia se suicida e o caetano é quem sonha que está "caindo" do pé de araçá azul?, sei, sei, sei...

Segunda-feira, Abril 27, 2009

genialf

"carta capital" 542, 22 de abril de 2009.


O MODESTO "GENIALF"
Autor de Rapaz de Bem, Johnny Alf completa 80 anos num hotel-residência para idosos e volta a fazer shows

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Alfredo José da Silva completará 80 anos em maio. Mora há um ano num "hotel-residência para idosos", em avenida movimentada de um bairro industrial de Santo André, no Grande ABC paulista. Não possui uma aposentadoria oficial, apesar de trabalhar num mesmo ofício desde o início da juventude. Perdeu o pai cabo do Exército aos três anos e a mãe empregada doméstica quando jovem, não teve herdeiros e não lhe restaram parentes vivos.

Embora o câncer na próstata e outros problemas de saúde lhe tenham roubado o equilíbrio para caminhar com segurança, este Silva estará no centro do palco e das atenções numa homenagem a seus 80 anos, nos próximos dias 23 e 24 de maio, no Sesc Pinheiros de São Paulo. Alfredo José é Johnny Alf, desbravador de florestas até a clareira que viria a ser chamada bossa nova e músico sutil e virtuoso reconhecido bem além das fronteiras brasileiras.

O governo estadual ajudou nas despesas com os tratamentos, mas a clínica ele paga de bolso próprio, com reservas e recursos de direitos autorais. Quem conta é Nelson Valencia, empresário transformado num tutor e/ou anjo da guarda do autor de Eu e a Brisa (1967), canção desclassificada no festival que consagrou Ponteio, Roda Viva e a Tropicália.

Para Valencia, o recolhimento é característica inerente do artista, e não circunstância da idade avançada. "Johnny é o pior inimigo dele mesmo. Sempre se coloca numa posição abaixo dos fatos", diz. "Uma vez estava me falando que era feliz, e dizia: 'Eu consegui muita coisa, tenho fogão, geladeira'."

Encontro Johnny Alf em seu quarto, às voltas com a tela da tevê e a leitura de uma revista. Conversa em frases e respostas curtas (o que não chega a ser novidade), e fala dos shows que marcaram sua volta no fim de janeiro, no Sesc Vila Mariana: "Eu estava gripado, uma semana antes não dava uma palavra". Ansioso com o retorno, talvez? "Não era ansiedade, não, era gripe mesmo. A clínica toda pegou."

Atravessou o show sentado ao piano, seu instrumento preferido desde quando, aos nove anos, pôde aprender a tocá-lo na casa da família que empregava sua mãe e de quebra lhe deu guarida. Sua história, aqui, diverge da de outro quase-bossa-novista, Wilson Simonal (1939-2000), cuja mãe doméstica era proibida de levar o filho ao emprego e atirava marmitas clandestinas por cima do muro para alimentá-lo.

Nos shows da volta, Johnny apoiou-se nas vozes das cantoras Leny Andrade e Alaíde Costa. Juntos no palco, os três evocavam um outro lado da bossa nova, uma bossa negra refugiada em São Paulo (e no exterior, no caso de Leny) e bastante distante do imaginário de amor, sorriso e flor fixado a partir de 1958 pelo núcleo carioca.

"É coincidência", esguia-se, monossilábico, de abordar um possível componente racial no relativo isolamento de sua turma. Mas Valencia, também empresário de Alaíde Costa, vê sentido na a hipótese: "A classe social certamente tem a ver. A Bossa era um movimento de brancos da zona sul, e ser negro era ser negro. Alaíde sempre falou que muitos torciam o nariz para ela porque não cantava samba".

Johnny estreara profissionalmente em 1952, desde cedo absorto numa atmosfera de canções contemplativas e ligadas à natureza. Tais motivos seriam caros aos filhotes bossa-novistas, mas esses converteriam a contemplação no entusiasmo sorridente de barquinhos e tardinhas, divergente dos estados de espírito do precursor. Minha vida é uma ilha bem distante/ flutuando no oceano, cantava em Céu e Mar (1953), uma de suas primeiras composições. De fato, o carioca Alf migrara para São Paulo quando a garota e os garotos de Ipanema arrendaram novos paradigmas musicais.

Ele escorrega entre os rótulos habituais à sua arte, primeiro como jazz, e como Bossa depois da Bossa. "Saiu assim, eu nem esperava que fosse agradar. Achava que minha voz não tinha alcance nenhum." Aceita, quanto muito, o carimbo de fazedor de sambas, a despeito do andamento quase sempre desacelerado de suas canções: "Era muito ligado em música americana, sentia que tinha uma leveza que o samba podia ter também".

Valencia traduz na prática as hesitações de Johnny em relação a si mesmo: "É de uma humildade tão grande que deixa as oportunidades passarem. Quando tinha uns 40 anos, Sarah Vaughan esteve com ele, e tem uma história de que ela queria levá-lo para fora. Não capitalizava nada. Descobri há alguns anos que Tom Jobim o chamava de 'Genialf', ele nunca falou disso".

Outra dessas histórias se refere à mulata Dolores Duran (1930-1959), amiga íntima e expoente da fossa antecessora da bossa. Dolores acabava seus shows e seguia para a boate onde o amigo estivesse trabalhando. Invariavelmente, pedia que cantasse Céu de Estrelas, definida por ela como "a minha música". Com a morte de Dolores, não gravou a canção, guardou na gaveta e a escondeu até poucos anos atrás.

Além do tom contemplativo, também o platonismo ocupa lugar crucial em várias de suas canções. Amor discreto pra uma só pessoa/ pois nem de leve sabes que eu te quero é o amor em outra de suas obras-primas, Ilusão à Toa (1961), explicitada há dois anos por Caetano Veloso, num show, como uma canção gay.

O protagonista da inaugural Rapaz de Bem (1953), que acha o trabalho "a pior moral" e obtém dinheiro "só de arrumação", foi interpretado como prostituto pelo antropólogo Néstor Perlongher, em O Negócio do Michê. "Procurei o livro para ler. Realmente se encaixa, para os dias de hoje", afirma, sem buscar orientar interpretações. E o autor, era "rapaz de bem"? "Não, nunca fui. Eu era um rapaz pobre."

Também platônica é Fim-de-Semana em Eldorado, gravada em 1961, no primeiro álbum de uma carreira discográfica sucinta, em termos numéricos: uma lagoa de água doce foi a única que trouxe eu e você junto à verdade/ tudo eu vou deixar calado/ embora aguarde ansioso/ outro domingo em Eldorado. "Eldorado é uma cidade, um recanto no interior de São Paulo. Quem me levou lá foi Dick Farney", lembra.

Fã das vozes macias de Dick e Lúcio Alves, Johnny desta vez não cita a influência sempre creditada de Cole Porter, e vai mais atrás (e mais perto) ao listar preferências: "Gosto de música brasileira. Francisco Alves, Orlando Silva, Ary Barroso, Caymmi, Custódio Mesquita. O rádio é o que melhor repertório tem, não é Bossa Nova nem coisa nenhuma".

Declara-se admirador de Milton Nascimento (dele, gravou Outros Povos, em 1974), mas não o poupa de crítica por conta de um episódio com outra artista de quem se diz fã incondicional: "Não foi a Wanderléa, Nelson, que foi pedir uma música ao Milton e ele falou para ela voltar para a jovem guarda? Foi. Foi bem cruel isso, uma falta de educação muito grande".

Nos shows do início do ano, foi ovacionado por uma plateia reverente e compreensiva com as limitações atuais. Afora esses momentos, passa os dias quieto no quarto modesto do hotel-residência, de onde só sai para fazer fisioterapia. Queixa-se com certo humor das perguntas repetitivas dos poucos jornalistas e estudantes que conseguem chegar até ele. Luta contra a depressão profunda que se seguiu à convalescença física do ano passado. Não tem composto “agora”, e afirma só ouvir música "por acaso", na tevê. Mas participa do coral da clínica. Abaixa a cabeça e faz cara de dor quando o empresário o flagra numa gargalhada junto à enfermeira.

Perto de sua nona década, Alfredo José da Silva vive de brisa, a mesma brisa que acariciou, acaricia e acariciará os afro-sambas-canções de Johnny Alf.

Quinta-feira, Abril 23, 2009

todo dia era dia de índio 4

não preciso falar mais nada, preciso? rei jorge ben, r-a-i-n-h-a baby consuelo.



(e eu não ia falar mais nada, mas... o que eram sexies esses dois cantando juntos, socorro!)

todo dia era dia de índio 3

pra mim, este é um dos maiores, maiores, maiores cantores da história do brasil. de arrepiar.



("mas quá", não é maravilhoso? maioral, o roberto ribeiro.)

Quarta-feira, Abril 22, 2009

todo dia era dia de índio 2

o "jornal do brasil" me pediu um texto sobre os 50 anos de carreira daquele cara lá, o fatídico, e o que saiu foi isto aqui (publicado no domingo, 19, dia do índio e do aniversário do cara) (eu sugeri o título "todo dia era dia de índio", mas acho que não coube):


Os 50 anos de carreira de Roberto Carlos

Pedro Alexandre Sanches, Jornalista, JB Online

RIO - Roberto Carlos é um índio. Você há de estranhar essa minha afirmação, mas, eu digo e repito, e não é só pelo fato de ele ter nascido em 19 de abril, Dia do Índio, três dias antes do aniversário do descobrimento do Brasil. Nem tive tempo (ou presença de espírito) para colocar isso literalmente no papel em meu livro Como dois e dois são cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa), mas foi nessa época, de tanto olhar a clássica imagem de seu rosto tristíssimo na capa do LP de 1972, que comecei vagarosamente a me dar conta de que Roberto Carlos era – e é – um índio.

Não estou tentando dizer que ele seja um tupi, um guarani, um bororó ou um botocudo. Quando o defino como “índio”, quero dizer (e isso consegui escrever no livro, ufa) que RC é o brasileiro por excelência, o brasileiro original e essencial. Tem a expressão triste e massacrada, a docilidade submissa e (novamente) massacrada de todo brasileiro médio, seja índio, negro ou branco. E por isso tanta gente gosta tanto dele. Porque se identifica. E por isso mesmo tanta gente detesta tanto os caracóis vira-latas dos cabelos dele. Porque se identifica.

Ainda aqui você me estranhará. Brasileiríssimo, um cara que quis copiar o matuto Elvis Presley? Um sujeito que trouxe para cá, acaipirado, o yeah yeah yeah dos quatro manés de Liverpool? Pois é, mas o que haveria de novo (ou de velho) nisso? Carmen Miranda não foi interpretar latinas subalternas em Hollywood? Mano Brown não preferia o cego Stevie Wonder ao assum preto Roberto Carlos? Tecneiros de rave e roqueiros "indie" paulistanos não desprezam Chico Science enquanto se juram nascidos na Grã-Bretanha?

Em outros termos, a rejeição à própria origem não é (ou foi) um de nossos trágicos traços distintivos nestes 50 anos de reinado do capixaba do Itapemirim (percebe os nomes indígenas?), tempos de ditadura e tal e coisa?

Minha hipótese é de que, sim, e não é por outra razão, que RC passou tanto tempo disfarçando brasilidades atrás de iê-iê-iês, baladas à Tony Bennett, hinos gospel. E conquistou fãs suburbanos sulistas com os primeiros, românticos interioranos nortistas e nordestinos com os segundos, católicos e evangélicos e candomblezeiros com os terceiros. Enquanto isso, em Gotham City, uns e outros ficaram disfarçando não gostar de seus boleros e assoviando só no chuveiro seus temas de motel, tal qual Waldick Soriano dizia acontecer com socialites que volta e meia apareciam em seus shows. De repente, estava todo mundo gostando de RC, os que admitiam e os que nem às paredes confessavam. De repente, estava todo mundo gostando de si mesmo, sem nem perceber.

Nesse balanço, RC dominou corpos, corações e mercados, ao sabor de cantos indígenas como Quero que vá tudo pro inferno, As curvas da estrada de Santos, Amada amante, Além do horizonte, Amigo, As baleias, Caminhoneiro, Amazônia... Isso sem falar dos sinais de fumaça emitidos por seu parceiro sioux, ou apache, ou nhambiquara, o extraordinário Erasmo Carlos.

Tento afirmar que RC é um mar de rosas? Não, claro que não. Ele também é acomodado, inerte, moralista, mimado, autoritário, censor. Nada disso é legal, mas como condená-lo à forca ou ao degredo, se nós também somos tudo isso? Afinal, Roberto Carlos é eu e você. E nós somos o índio Roberto Carlos.

Pedro Alexandre Sanches é repórter da revista Carta capital e escreveu o livro Como dois e dois são cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (Boitempo, 2004)

todo dia era dia de índio 1

hoje, 22, já é dia do colonizador. mas não é o máximo o "dia do índio", 19? amo.



(quem abriu meus olhos pra essa impressionante macumba índia-gal-caymmiana foi o duda leite.)

Terça-feira, Abril 21, 2009

joão araújo, final: lula, obama, cazuza, baby consuelo, roberto marinho...

e vai acabando a odisséia. em pleno feriado (mas não pra mim...), desencanta o último trecho da entrevista com joão araújo.

pas - [...continuação] onde você se situa politicamente?

ja - eu sou da esquerda não-radical. mas meu pensamento sempre foi de esquerda. isso doutor roberto sabia, sempre respeitou. quando era garoto, até os 18 anos, eu era da direita ferrenha. era lacerdista. mas todo mundo que conheço que foi lacerdista depois ficou com ódio do [carlos] lacerda, não sei por quê.

pas - você também?

ja - não tomei ódio. eu pensava o seguinte: não tenho nada que ver com o pensamento dele. eu, que ia ver os discursos dele, matava aula para ver quando ele tinha que fazer discurso na tribuna com vieira de mello do outro lado.

pas - você gostava mesmo, se matava aula pra ver os discursos.

ja - pra ver discurso, mas é que vieira de mello era um espetáculo que eu só via parecido quando num júri tinha de um lado romero neto e do outro evaristo de moraes. era um negócio fantástico. você não precisava mais ler, via aqueles homens discutindo e aprendia muita coisa [para e observa as cotações na tevê]. agora vai passar, quer ver?

pas - qual você quer ver?

ja - olha lá, tá vendo? já baixou. petrobras. de 29% para 25%, já empobreci.

pas - você tem ações na petrobras?

ja - pouquinhas, mas tenho. mas sempre fui muito político.

pas - você foi?

ja - sempre fui. tínhamos uma turma de uns dez rapazinhos, fazíamos um negócio chamado vigília cívica. éramos que nem a rádio continental, estávamos em todo lugar onde tinha algum acontecimento político. por exemplo, república do galeão, estávamos lá. vão depor fulano de tal, a gente corria lá para ver. Ddpois ficávamos num posto de gasolina do leblon discutindo, até seis, sete da manhã. não tinha o que fazer, né?

pas - não sei se entendi direito, você disse que Boni "não existia" politicamente?

ja - não conheço boni como um ser participante de política.

pas - e voc,ê é diferente?

ja - eu sou diferente, sou participante mesmo. respeito a religião e a política de todo mundo, aprendi isso com meu avô por parte de mãe. ele era ateu, e sabe quem ia jogar xadrez com ele toda sexta-feira na minha casa? o cardeal dom sebastião leme. pode isso? agora, pergunta se falavam sobre religião? nunca falaram.

pas - um cara de esquerda não-radical, como você se definiu, hoje vota em quem, acredita em quem?

ja - eu voto no lula. sou lula, gosto muito dele. pessoalmente não conheço, só fui apresentado, mas admiro muito o lula. do pt não posso dizer a mesma coisa. mas lula eu acho admirável, que o metalúrgico possa ter se transformado num líder mundial, que é o que ele é [a entrevista com joão aconteceu um dia antes de barack obama definir luiz inácio como "o político mais popular da terra"].

pas - votaria no candidato dele?

ja - não sei, aí tenho que pensar. não sou tão carneirinho assim, né? minha cabecinha pensa. mas não sei, se lula dissesse "vote" [ri], se eu votaria ou não... acho que por princípio, não. e tem outra coisa que a nação me protege: eu sou idoso [risos], não preciso votar. mas faço questão de votar.

uma coisa que saquei a propósito da eleição do obama... eu sou obama, detestava o bush, prometi que não iria para os estados unidos - não fui, só fui para apanhar o grammy, mas não iria enquanto bush estivesse lá. tenho ódio dele. mas apareceram lá os candidatos, comecei a sentir pelo noticiário a movimentação dos jovens. a coisa que me bateu primeiro foi que ele não tinha condição de se eleger nos estados unidos, porque tem o sobrenome hussein e é negro. impossível os estados unidos elegerem um negro com nome de hussein. o que os republicanos vão explorar..., e o americano médio estava realmente puto com os árabes por causa dos atentados. mas o tempo foi passando, eu estava em paris quando teve uma manifestação pró-obama, não entendi por quê. lia algumas coisas no "le monde", e quando cheguei ao brasil estava cheio de notícias sobre o sucesso do obama, mas um sucesso que ninguém dizia por quê. estava um inverno rigorosíssimo nos estados unidos, mas via as fotografias dos jovens na fila para pegar senha às cinco horas da manhã, isso não é natural, o voto não é obrigatório. então havia um movimento qualquer... você tem cabeça pra pensar, pra formar juízos, e pensei comigo que estava acontecendo alguma coisa de novo naquele país pra mobilizar os jovens.

não estou me comparando com manuel bandeira, mas a mesma coisa ele falou sobre a bossa nova, sabia? um dia ele chegou pra tomar um goró na casa do pai de nara leão, seu jairo, no leme, e disse: "jairo, presta atenção numa coisa. está surgindo um movimento musical novo no brasil. não sei o nome, só sei que é intimista", olha só. e provou por que ia surgir um movimento: "só pode ser, jairo. está havendo uma invasão imobiliária, prédio por todo lugar, acabaram com as casas de show, tudo se vende e vira prédio". [fixa-se nas cotações na tevê.] deu uma aumentadinha, 29,4%. já posso tomar uns gorozinhos hoje. mas perguntou o manuel bandeira: "me explica, como o namorado vai cantar serenata para a namorada na janela, se agora ela mora agora no 15º andar?". se você não pensa, não raciocina... as pessoas não pensaram, mas ele pensou logo nisso, não sei se eu pensaria. não, o cara vai ter que fazer uma música mais baixinho, que possa cantar no ouvido da namorada, e não aquelas músicas que o chico alves cantava, que chegavam até o céu. não deu outra, ele apenas não deu o nome. quem acho que deu o nome deve ter sido... o primeiro que falou o nome bossa nova, que eu ouvi, foi o juca chaves, naquela música "presidente bossa nova", que era pro juscelino [kubitschek].

então, voltando ao obama, eu vi que tinha alguma coisa mais que um simples passarinho cantando, e que esse algo a mais era o seguinte. aí fui fazer minhas pesquisas junto a pessoas mais autorizadas para saber se em alguma época nos estados unidos os jovens tinham participado tanto de uma eleição como nessa. e a resposta é que não participaram nunca, sempre fugiram como o diabo foge da cruz de ter que ir lá votar. pra mim estava tudo desvendado, o futuro presidente dos estados unidos é obama, a não ser que matem ele. aí, quando ouvi ele falando, ele tinha uma coisa que lembrava muito aquele líder que ficou 20 anos preso na áfrica do sul... o [nelson] mandela. uma dignidade, o jeito de falar, a prudência, a forma de conciliar. tanto que foi eleito e no dia seguinte juntou os ex-presidentes todos num almoço, coisa que nunca tinha sido feita também, e queria o apoio de todos. enfim, ele queria a paz. queria tirar os soldados, foi obrigado pelo acordo anterior a manter 7 mil no afeganistão. porém, já tem data pros soldados do iraque voltarem, como vai ter data pros do afeganistão. já esticou a mão, não fisicamente, para o irã, dizendo que não tem nada contra o irã.

pas - a história do manuel bandeira está registrada, está escrita? como você sabe dela?

ja - quem me contou foi o armando nogueira. quem contou pro armando foi o rubem braga. quem contou pro rubem braga eu não sei, foi o próprio manuel.

pas - talvez não esteja escrita em lugar nenhum...

ja - é verdade.

pas - como também nunca ouço ninguém dizer que quem criou o termo bossa nova foi juca chaves. tem gente que vai ficar nervosa...

ja - mas escuta, pedro, a pergunta que respondi foi a seguinte: quando você ouviu falar de bossa nova pela primeira vez? foi quando juca chaves cantou "presidente bossa nova". aí teve alguém que chegou e, esse sim, disse "essa música é uma bossa nova", isso está muito parecido com a cara do ronaldo bôscoli, né?

pas - é legal conviver e lidar com artistas?

ja - sempre lidei com artistas, então para mim não é nada difícil. sempre lidei com jovens, muito. frequentei muito os jovens, conversava muito com eles. tem dois tipos de pessoas que gosto muito de conversar. são as crianças e os velhos. são os que dizem a verdade, não é isso?

pas - já se coloca no segundo grupo, ou ainda não?

ja - no segundo grupo, não, porque eu vou viver até os 130 anos.

pas - quer dizer que ainda não está falando toda a verdade?

ja - ainda não.

pas - bom saber [risos].

ja - mas pra você? o que falei aqui não retiro uma palavra. como se dizia antigamente, quero ver minha mãe morta atrás da porta, não era assim que se falava?

pas - perguntei sobre artistas porque você conviveu com tantos, e de repente tinha um dentro da casa. estava preparado? por quê ele foi aparecer lá?

ja - ele fazia umas coisas de noite que eu não via. chegava de madrugada e via ele estava batucando a máquina. na manhã seguinte a mesinha de cabeceira estava cheia de papel. já eram letras de música. mas eu não bisbilhotava, não, a mãe dele bisbilhotava bastante. eu não sabia nem que ele tinha esse dom pra cantar. antigamente eu segurava a barra dele era na questão de colégio. ele sempre foi bom aluno, mas teve um ano que foi reprovado. lucinha [araújo, sua esposa] ficava tão indignada, ele só tirava dez, ela achava que ele tinha que tirar dez. ele achava que sabia mais que os professores. ele lia tanto, ficava no quarto com o mapa-múndi e o globo, estudando aquilo. amigos meus ligavam pra ele, com nove anos de idade, sabia a população de sei lá que país. teve um cara que foi na minha casa, que era ministro dos transportes da venezuela e casado com um primo da lucinha. cazuza queria fazer perguntas, estava louco pra conversar com ele. o cara começou, mas falava muita vantagem, tudo que ele tinha feito era o maior. na hora que falou que fez um túnel de 16 quilômetros ligando uma cidade à outra. cazuza subiu no quarto, daqui a pouco voltou, perguntou: "esse túnel não é o túnel...?".

pas - isso com nove anos?

ja - é. o cara disse: "é, isso mesmo". "esse túnel só tem dez quilômetros, hein?" [risos.] quando não passou de ano, ele não ia poder continuar no santo inácio, porque o colégio não aceita repetentes. sabia que ia tomar a maior bronca da lucinha. mas ele achava muito fraco, dizia que sabia mais geografia que o professor. "pô, você é um sábio, então." reprovado, foi direto pra som livre, e queria que eu entrasse em casa com ele. porque muitas vezes, ele era pequenininho, eu chegava... lucinha sabia que eu não admitia bater em criança. ela realmente não batia, tinha adoração por ele, mãe judia. porém, tinha uma coisa de comer tudo que tinha no prato, se não comesse ela dava beliscão, e ficava marca. eu cheguei, ele fez assim [estende o braço, risos]. "que é isso, cazuza?" "nada não, nada não." quer dizer, já tinha me chamado a atenção a respeito disso. eu ia à Lúcia, não na frente dele, claro. "pô, lucinha, você continua beliscando? não é assim que se educa, quer que ele tenha medo? por que não conversa com ele?" "não adianta conversar com cazuza, você sabe." enfim...

pas - ney matogrosso disse numa entrevista recente que você "era um carma na vida de cazuza". tive oportunidade de perguntar sobre isso, ele disse que quis dizer que era um carma para um artista ser filho de um todo-poderoso de gravadora.

ja - eu entendi assim também.

pas - era mesmo?

ja - não, eu nunca me achei todo-poderoso. mas o fato de eu presidir uma firma que era da globo fazia a opinião pública achar que eu era um daqueles todo-poderosos da globo.

pas - mas era muito fácil para seu filho ser questionado por isso, de pensarem que não tinha talento, que era só porque era filho do presidente da gavadora.

ja - é, por isso eu não quis gravar com ele de jeito nenhum. ezequiel neves e guto [graça mello] entraram umas cinco ou seis vezes na minha sala com a fitinha dele, eu me negava a ouvir. eu dizia: "não quero ouvir, porque posso gostar, e eu não vou gravar com ele". tinha muito esse pudor próprio de não querer botar ele numa posição de constrangimento diante de outros artistas, de estar gravando numa gravadora que o pai dele era presidente, o que é isso? mas ele tinha tanta noção das coisas que, quando já tinha gravado, chegou um dia dizendo: "eu tenho que sair daqui, não quero mais ficar. não me sinto confortável. acho que as pessoas estão me dando bom-dia porque sou seu filho". a gente dá bom-dia pra qualquer um, pô. não dou bom-dia pro doutor roberto porque ele é o presidente da globo, dou bom-dia porque não posso dar boa-noite de dia. não havia jeito, ele saiu. e, sobre a saída dele do conjunto [barão vermelho], não gosto de falar, mas tenho minhas ideias. acho que ele se incompatibilizou não com nenhum barão, mas com a ideia de não poder cantar música brasileira. ele gostava muito de música brasileira, e de música romântica brasileira. ele gostava de cantar, por exemplo, "faz parte do meu show", músicas desse tipo, românticas. de vez em quando tinha vontade de cantar músicas românticas da dolores duran. foi criado nesse ambiente. minha casa era um apartamento pequeno, só tinha um quarto, uma sala, e o resto eram artistas que ficavam lá, batendo papo com a gente. os novos baianos, quando vieram para o rio, ficaram lá, dormiram em casa a noite toda.

pas - esquecemos de mencionar os novos baianos, mas você foi importante na história deles, tanto na rge como na som livre, não?

ja - ah, fantásticos. quem me recomendou eles foi caetano veloso. só que caetano disse pra eu mandar buscar um conjunto que ele achava sensacional. isso ele falou às cinco horas da tarde. às onze da noite esse povo todo chegou à minha casa [risos], sem dinheiro, com fome. quem antendeu foi o cazuza, molequinho. foi à geladeira, deu tudo que era de comer pra eles.

pas - os hippies invadindo a sua casa...

ja - eles todos depenados, pareciam um monte de maltrapilhos. mas quando as pessoas têm talento... é inegável que eles fazem a diferença, não é? quando perguntei o que tinham pra mostrar, moraes [moreira] meteu logo de cara "preta pretinha", pô. tem outra? tem, vinha não sei qual. tem outra?, tem, tudo porrada. disse: "que vamos fazer o disco vamos, não tenha dúvida, mas depois que vocês jantarem [risos]".

pas - ainda sobre cazuza, o fato de seu filho ser gay foi conflituoso para você?

ja - não foi, não. porque, olha, eu faço uma diferença muito grande entre o gay e o... transformista, o sujeito que se veste de mulher, bota um abacaxi na cabeça, brincos da carmen miranda, salto alto. acho que o gay é uma pura questão de opção sexual, como outra qualquer, não tem nada de horror nisso. cazuza nunca foi de fazer esse tipo de coisa que eu estava dizendo que não gosto. então sempre respeitei muito a vida dele.

pas - você sempre soube? até hoje na sociedade é uma questão complicada, pais e filhos lidarem com isso.

ja - depende da sociedade em que você vive. hoje vivo numa sociedade de pessoas que escolhi para viver, não tenho esse tipo de problema. mas, por exemplo, em são paulo, desculpe, é sua terra, mas lá ninguém morria de aids. fulano morreu de... havia um preconceito tão grande que numa família daquelas que tivesse nome imenso, não podia morrer de aids. tirei isso da minha cabeça quando fui morar em são paulo, no alto de pinheiros, e vi que o paulistano era solidário demais até. queria que ele ficasse perto dos médicos de são paulo, aluguei uma casa ótima, com piscina, ficamos um ano lá. os vizinhos, nunca fui na casa deles nem eles na minha, mas eram de uma gentileza, não sei como souberam que cazuza estava lá. um tinha um sítio, outro uma fazenda, era a coisa mais bonita, chegavam da fazenda e mandavam um embrulho pra casa, era uma paleta de cordeiro, ou uma fruta. era toda a vizinhança, eu não via, porque tinha muitas árvores. achava maravilhosa a solidariedade deles. era pujante, existia. mas, não sei por que, havia talvez nos pais e avós deles, esse preconceito contra a doença.

pas - como você pensa hoje naquele episódio da "veja", que é uma revista paulista?

ja - hoje já consigo pensar, antes nem pensava. antes eu queria matar o cara que escreveu, simplesmente. depois eu vim a saber que ia fazer uma injustiça. esse tal cara que eu queria matar - não digo matar, mas ia dar muita porrada nele - tinha se comprometido comigo em fazer uma matéria fantástica, maravilhosa, que ele tomava a responsabilidade. esse acho que já morreu, era um italiano [alessandro porro]... ninguém sabia o que era a doença, prescreviam azt de forma errada. deram tanto azt pro cazuza que tinha hora que ele ficava fora de si. não era justo. mas a única coisa a favor deles é que cazuza queria fazer a matéria na "veja", cismou, botou na cabeça.

desci de petrópolis ao rio em 38 minutos, liguei para uma amiga jornalista pra saber onde morava o incauto. me deu o endereço, era aqui no leblon. fui, tive um atrito com o porteiro que disse que eu não podia entrar. fui entrando, ele não estava. mas ele não tinha sido o culpado, não. olha como é a vida, muitos anos depois tive acesso a um documento interno da "veja", em que o editor-chefe da revista encomendava a reportagem.

pas - quer dizer, encomendava o tom que ela ia ter?

ja - encomendava o tom. ia ter uma foto patética, uma coisa que não dá pra descrever de tão baixo que era.

pas - falava "foto patética"?

ja - é, foto patética, que era "normal da doença". tinha mais coisas, mas me lembro muito bem do enfoque que deram à fotografia. lendo a matéria, ela não era boa, mas não era para provocar a ira satânica que eu tive. lida duas vezes, tudo bem. mas a capa ["uma vítima da aids agoniza em praça pública"], "agonia em praça pública"... cazuza respondeu com um artigo fantástico, está pendurado aqui, "'veja', a agonia de uma revista".

pas - foi um marco inegavelmente negativo na história da revista...

ja - a moça que escreveu [com alessandro porro] se chamava angela não sei o quê [abreu]. ela me explicou como era, você deve conhecer mais que eu. o repórter escreve uma coisa e aquilo vai caminhando por dentro, vai sofrendo uma série de modificações, até que o editor-chefe bate o carimbo. no dia seguinte essa moça pediu demissão. eu arranjei um emprego para ela depois. depois me disseram, não sei se é verdade... teve os protestos todos que você sabe, a classe artística, teatral, cinematográfica, todo mundo assinou um manifesto. todo mundo foi na televisão esculhambar a revista. dizem que tem artistas que até hoje não podem ser citados lá, um deles acho que é marília pêra. por que não tiveram coragem de falar de nenhum dos que tinham assinado? todo mundo assinou, a diva do teatro, minha amiga, fernanda montenegro. ela foi maravilhosa.

pas - o que você ia dizer que não sabe se é verdade ou mentira?

ja - o que era? [hesita, tenta lembrar.] você estava falando que o poeta manuel bandeira falou aquele negócio, e eu falei outra coisa, aí você falou [ele ri, todo mundo ri, todo mundo tenta ajudar]... da bossa nova...

pas - juca chaves?...

ja - ah falei que conheci a palavra bossa nova através de uma música, aliás muito chata [risos].

pas - mas tam esse mérito, ou talvez tenha...

ja - talvez [cantarola "presidente bossa nova"]. e mais nada mais foi dito [risos]. ah, não [lembra], precisa confirmar, mas todo mundo diz que na semana seguinte à matéria a "veja" não circulou, porque os gráficos fizeram greve [confirmo depois no acervo digital da revista, de fato não houve "veja" na semana seguinte. o editorial da próxima revista atribui a ausência à greve dos funcionários da gráfica].

pas - como você interpreta hoje, porque uma revista importante fez aquilo daquele jeito? não era uma sociedade despreparada para lidar com aids, mesmo com sexualidade?

ja - foi um horror. uma revista com 1 milhão de assinantes, de repente pode se considerar com licença poética para qualquer coisa.

pas - licença não-poética, no caso.

ja - é, não-poética.

pas - se você fosse fazer um balanço, em que a globo foi e é boa para o brasil, e em que ela é ruim?

ja - o lado bom eu sei, porque vivi ele todo. se tornar a maior empresa de comunicação da américa latina não é para qualquer um. se fosse só questão de dinheiro, a adversária teria talvez mais condições, porque tira dinheiro dos pobres, tira dízimo. e não consegue. acho que é questão de talento, perseverança, como sempre tiveram com tudo que fizeram. o jornal deles está aí, não discuto a linha política dele. tem outros de que gosto talvez mais, do "el país", por exemplo, na espanha. dizem que está muito mal das pernas, não se sabe se vai continuar. tem uns jornais que leio com satisfação. d'"o globo" não posso cobrar que tenha o meu pensamento político. se leio livro do guevara ou não é problema meu.

eu diria como a baby consuelo, que sumia de casa, a mãe ficava louca atrás dela, e baby dizia à mãe que estava comigo [risos]. dona carmen, coitada, não tinha um parafuso qualquer. a família menna barreto era toda de militares, na época do pega-para-capar que passamos, dona carmen dizia: "o senhor tem que me dizer onde está baby consuelo, eu sou de uma família de militares, eles vão aí para lhe prender". eu não sabia, de repente baby aparecia em casa, "baby, vem cá, você tem que falar com sua mãe. liga aí". ela dizia: "mamãe, quem está falando é baby consuelo. eu tenho cabeça, eu penso e passo, tchau".

pas - depois virou música dela.

ja - é, eu diria como ela.

pas - não é como se as grandes instituições, seja globo, "veja" ou qualquer meio de comunicação, fossem sempre conservadoras, de direita - e tem sempre um monte de gente de esquerda trabalhando dentro delas?

ja - acho que a coisa fica num equilíbrio perfeito. na globo, o doutor roberto dizia, quando se queixavam que tinha muitos comunistas lá: "os comunistas que tenho aqui são os meus comunistas". todo diretor da globo que foi chamado pelo pessoal da ditadura pra depor, como sendo os comunistas e tal, ele foi acompanhar. comigo aconteceu uma coisa incrível, ele me tirou de uma enrascada. [olha para as cotações na tevê] olha lá, está tudo pra cima!

mas um dia fui convidado/intimado para comparecer à polícia federal. levei comigo, não sei por que cargas d'água, um advogado da globo, alcione [barreto, o que não faz um google, hein?], que era um cara de escola de samba também. o lugar era lúgubre, um salão com um pé-direito enorme, sentamos e ficamos esperando. o cara com cara de pinguço chegou, não deu boa tarde, botou o revólver em cima da mesa e o papel na máquina de escrever, e disse: "fala". o advogado tentou perguntar alguma coisa, "o senhor fique quieto, não foi convocado, se falar mais alguma coisa será recolhido ao cárcere". mandei o alcione embora, ele foi. e o cara: "fala". "estou imaginando, o senhor quer que eu fale sobre o quê?" "o tal festival." eu disse que estava viajando, cheguei da europa, sabia que o festival tinha sido realizado com sucesso e que as letras todas tinham sido liberdadas pela censura, e se essa música estava no disco da som livre... ele disse: "mas a som livre gravou e botou no disco". "não, não foi." "como não foi?, está no disco?". ele não sabia o que era um fonograma, expliquei que a gravação não era da som livre, era de outra gravadora, e a som livre tinha um contrato de publciar todas as músicas classificadas no festival. "o senhor vai falando aí as mentiras que o senhor quiser." perguntou mais 50 mil coisas nesse nível de babaquice. a música era [cantarola] "você pode fumar baseado...".

pas - ah, sim, baby consuelo, novamente.

ja - "...baseado em que você pode fazer quase tudo" [trata-se de "o mal é o que sai da boca do homem", defendida por bbaby e pepeu gomes no festival "mpb 80"].

pas - deve ter passado antes por algum censor ingênuo que não entendeu...

ja - é, eu dizia: "doutor, eu não tinha nada com aquilo". e pensava comigo que não tinha escopo para ser o cara que viria a ser procurado pela polícia federal. "não tenho mais o que perguntar, o senhor está incluso no parágrafo não sei qual, e a pena é de dois a quatro anos de prisão sem direito a sursis". ele mesmo me fichou, me fotografou com o número de frente e de perfil. me lembrou do tiro de guerra, o cara dizia: "todo mundo vai ficar nu". todo mundo ficou nu, "levanta o saco, fica de costas, levanta o casco". me lembrei disso quando estava lá, é o mesmo tipo de terror.

aí voltei à televisão, porque tinha que falar com alguém. os caras morreram de rir, [joão carlos] magaldi. mas eu estava aflito, resolvi fazer uma coisa que nunca tinha feito antes. me dava bem com os filhos do doutor eoberto, eles eram garotos, nem estavam na tevê ainda. liguei para a casa do doutor roberto no dia seguinte às 7 horas da manhã. sabia que ele acordava muito cedo. para surpresa minha, atendeu. expliquei que não tinha dormido por causa disso, que aquilo me abalou muito, que precisava falar com ele hoje. "então venha para cá agora." fui, comecei a contar para ele. no início ele não deu muita bola, não. só começou a dar bola quando eu disse: "doutor roberto, eu não sou ninguém para ter o prestígio dessa prisão que querem me dar. deduzo que isso é uma coisa contra o senhor".

pas - foi habilidoso...

ja - ...contra alguém de muita importância da globo, quem sabe contra o senhor próprio. ele disse [imposta a voz]: "o senhor não faz nada,o senhor volta para trabalhar. já estou com as informações necessárias". sabia que ele era uma pessoa solidária, mas não sabia que era tão solidário. depois,eu soube pelo vitório, uma espécie de secretário particular dele, que ele saiu, pegou um jatinho e foi para brasília, exclusivamente para isso. resumo da história, falou com o presidente presidente joão figueiredo, dois dias depois chega na tevê um cara levando tudo, minhas fotos, o texto batido à máquina. botamos tudo na panela do bigode [é o cozinheiro da globo, explica a assessora] e tacamos fogo, acabou a coisa toda. só tenho reconhecimento por esses caras.

Sexta-feira, Abril 17, 2009

joão araújo 4: jabá, elefante, política

pas - tinha jabá nessas negociações?

ja - tinha uma coisa, a música de abertura era de total responsabilidade do boni. ele resolvia sozinho, porque considerava que a abertura eé a hora que a música toca e chama a senhora que está na cozinha para ver a novela. então tinha que ser uma música marcante, e ele escolhia, o que já era uma coisa ótima...

pas - por quê?

ja - porque não tinha que ficar quebrando a cabeça, era uma coisa a menos para ter que convencer diretor, autor, co-autor... foi boni que escolheu, pronto, acabou.

pas - a mpb inteira devia estar doida para ter a música de abertura na novela...

ja - é... boni nesse ponto era muito independente, e era uma pessoa muito autoritária também. se dissesse "vai aí falar com boni", talvez o cara não quisesse, deixasse por conta dele.

pas - te perguntei se tinha jabá, você respondeu com essa história do boni...

ja - se tinha jabá nas novelas?

pas - é, se tinha alguma negociação que envolvesse dinheiro, não sei se da gravadora para a globo ou da globo para a gravadora. quem pagava quem?

ja - não, o que eu fazia era o seguinte: eu precisava ter repertório internacional pra botar em andamento minha jogada do internacional. a som livre não tinha repertório internacional nenhum. havia uma má vontade das gravadoras em cederem repertório naturalmente, uma resistência normal que fomos quebrando com o tempo. quando chegou essa hora de fazer o internacional, me caiu na cabeça uma coisa que inventei: os presidentes das empresas multinacionais precisam muito de uma coisa que é ranking, que é ver o desempenho dele em comparação com os outros. então eu distribuía com eles, o que era pra ser da som livre eu passava para as gravadoras. por exemplo, o disco vendeu 1 milhão, esse milhão não ia ser computado pra som livre. porque não tinha ninguém a quem provar, e eles tinham que provar pros patrões deles lá fora. então pra eles valia a pena, durante certo ponto foi muito bom para elas. depois não, porque começou uma briga lá entre eles, porque uns tinham mais que os outros, e finalmente esse negócio foi suspenso. mas nos primeiros anos funcionou maravilhosamente bem esse tipo de contrapartida.

pas - deixa ver se eu entendi. a trilha da som livre vendia e era computada como se tivesse sido venda de outra gravadora, é isso?

ja - é, não, o disco de novela tem músicas de várias gravadoras. então não posso passar a venda totalmente pra outra gravadora. fazia uma espécie de, como vou explicar?, de mesa de compensação. e distribuía por eles as vendas, vamos dizer que vendeu 10 milhões de discos, pegava esses 10 milhões e dividia pra cada uma.

pas - isso não criou uma dependência das gravadoras em relação à som livre?

ja - não.

pas - ou talvez uma dependência mútua? vocês precisavam dos artistas, dos fonogramas, e eles tinham a divulgação na tela da globo.

ja - é, eles tinham a divulgação e mais a posição no ranking, que ajudava. o presidente de uma multinacional tem salário, deve ter participação nas vendas e tem um bônus por desempanho. então isso valia muito para a carreira de um presidente e até pra remuneração dele [uma das assessoras tosse agora não sei como está sendo feito isso, acho que não tem mais [olha para a assessora, ela diz que agora não tem mais isso].

ja - puxa, o nome do bar [risos], quase saiu. eu não vou sair daqui sem lembrar. [simula um diálogo] "você me encontra lá no..." na presidente wilson com calógeras. não tem jeito, eu vou lembrar, ou não saio daqui.

pas - eu fico com você [risos]

ja - era um lugar famosíssimo. era uma sala enorme, tinha uma mesa enorme também, cadeiras dos dois lados, ia chegando gente e sentando. e, poxa, pessoas interessantes, gente de música, cinema, teatro, que ia ficando por ali. tinha coisas sensacionais. não era um lugar frequentado assiduamente pelo mário reis, mas ele ia algumas vezes. e ele era uma das cabeças mais fulgurantes que conheci, porque tinha uma memória de... diz um bicho aí que tem memória.

pas - elefante.

ja - de elefante, e ele adorava futebol, e discutia futebol à exaustão. um dia estava saindo um pau entre ele e um sujeito que não sei quem era. e o mário, enfático, dizendo que o jogo andaraí e américa tinha sido no campo do andaraí, e dizia quem era o time, e o outro cara dizia que dizia que não, que tinha sido no américa e que não era aquele time, era outro. isso foi irritando o mário, ele começou a falar alto, a brigar com o cara. para terminar a discussão, o cara disse "não adianta ficar irritado, eu fui o juiz daquele jogo". aí mário acalmou. ficou pensando, daqui a pouco voltou furibundo: "você não foi juiz de porra nenhuma, você foi o bandeirinha". e o cara acabou confessando. vai ter memória assim, de elefante, é ou não é? villarinho [lembrou o nome!, sorri satisfeito]!!! que parto, hein? villarino, villarinho. não sei se era villarinho ou villarino, isso é bom você apurar. depois já não tinha mais isso não, eu não ia mais, mas no tempo da philips e da odeon eu ia pra lá quase toda noite. acabava de trabalhar e ia pra lá.

pas - joão, voltando ao assunto... você era um presidente uma de gravadora nacional no meio de várias mulinacionais. como era essa relação?

ja - era como eu dizia pra eles: "eu não posso votar do jeito que vocês votam porque meu patrão está aqui no brasil". o patrão deles estava lá fora, era uma relação meio complicada. eu me esquivava às vezes. dizia: "eu faço questão de estar aqui porque o mercado é brasileiro, a firma que eu dirijo é brasileira e eu vou querer o melhor pro mercado brasileiro". às vezes eles vinham com ideias já fechadas lá de fora.

pas - imagino que eles tinham muito que obedecer normas que vinham de fora, que não eram exatamente criadas aqui.

ja - exatamente, mas aí já era uma questão... eles virem com metas de vendas fixadas era uma coisa. mas não vir, por exemplo, com instruções do que fazer, do produto que vai vender. isso, não, é uma coisa que tiraria mérito de qualquer companhia. mas metas de vendas, comerciais e coisas assim eu acho que deviam realmente ter pré-determinadas através de estudos que as multinacionais sempre fizeram nos mercados para onde vão.

pas - foi bom ou ruim quase todo o mercado de disco no brasil ser dominado por multinacionais?

ja - não, hoje acho que o mercado está dominado pelos independentes. sabe quantos selos têm no brasil, sem contar todos? 270, sabia?

pas - e mais cinco gravadoras grandes, ilhadas.

ja - são 270 selos lançando disco no brasil. a gente não sabe pra onde vão esses discos, mas são 270. mas é evidente que as multinacionais representam no mercado convencional um peso maior dessa indústria.

pas - e, nesse sentido, elas não acabaram governando a música brasileira, os rumos da música brasileira?

ja - acho que isso pode ter passado pela cabeça deles, mas nunca houve quem tivesse coragem de proclamar essa heresia. acho que seria uma heresia, e até uma falta de cuidado, porque seria uma responsabilidade imensa saber qual é o talento, qual é a comida que se tem que comer num país tão distante.

pas - você está respondendo então que os executivos daqui, brasileiros, eram os que governavam?

ja - não, veja bem, os presidentes de todas as empresas daqui prestam contas aos seus chefes no exterior. um sujeito que não compreendesse direito esse mercado, ia pensar que o presidente lá de fora mandaria o daqui gravar a música tal. não é isso que quero dizer. quero dizer que manda na vida dele, sim, se não tiver bom desempenho, manda embora e bota outro no lugar. e dão metas de venda, dão. mas não chegam ao detalhe de escolher o que é melhor para a empresa. nisso os daqui têm toda autonomia. e os de fora não fazem isso porque seria temerário, os daqui iam dizer "não cumpri a meta porque o senhor mandou eu gravar não sei quem". ficaria ruim.

pas - pergunto isso porque na questão do download as gravadoras se atrasaram muito, não conseguem entrar nesse circuito. conversando com um diretor ou outro, tenho a impressão de que estão amarrados, porque a matriz lá de fora definiu que não pode, e o brasil não tem autonomia para colocar seu repertório na rede.

ja - essa é uma questão de direitos, que está sendo discutida através da nossa associação junto às editoras, aos detentores dos direitos. está caminhando, lentamente, porque é lento o processo de negociação.

pas - por ser lento, as coisas vão acontecendo fora dos domínios das gravadoras.

ja - exatamente. é uma negociação penosa. eles não querem que aconteça o que aconteceu muitos anos atrás, quando legislação vigente foi questionada pelos novos que vieram. era mais ou menos a mesma coisa.

pas - de que contestação você está falando?

ja - os artistas antes eram remunerados pelo royalty de 6%, 7%, 8%. até que chegasse a 10%, 15%, 20% ou o que for, foi uma luta de 30 anos, na qual estavam embutidos os interesses das gravadoras de não terem prejuízo e dos artistas de ganharem muito justamente o seu dinheiro. por exemplo, ajudei a polygram a resolver um problema que ela tinha com chico buarque. ele tinha contrato e não queria entrar no estúdio. e chico não era de conversar muito, era muito tímido. eu vim a saber que chico não tinha nada, era uma questão só de royalties - queriam remunerá-lo pelo royalty que ele tinha feito quando gravou o primeiro disco, sei lá quantos anos atrás. vamos dizer que ele queria lutar por uma diferença de 7% para 15%, sei lá. eu disse isso para o presidente da polygram, marcos maynard, ele disse: "não é possível". "pode chamar que ele vai gravar." e foi gravar.

pas - como se resolveu a situação?

ja - eu conhecia o chico, vim almoçar com ele no antiquarius. ele não queria nada mais que não ser remunerado pelo royalty de 15 ou 20 anos atrás. no que falei para o cara da polygram, ele disse que não tinha nada contra pagar, se soubesse que era isso tinha resolvido há mais tempo. mas as pessoas têm dificuldade de se comunicar, né?

pas - se diz muito que chico era brigado com a globo...

ja - aí era uma briga boba dele com boni. parecia negócio do Getúlio, tira o retrato do velho, depois bota no mesmo lugar. chico entrava no antonio's, jogava o retrato do boni no chão. sinceramente não sei por que tinham essa briga.

pas - costuma-se ligar a questões políticas.

ja - não faz muito sentido, porque boni não é uma pessoa politicamente existente. se fosse, eu podia até imaginar. talvez festival, não sei, sei que tinha lá uma bronca entre os dois. tenho quase certeza de que não existe mais. mas a globo, quando fez sucesso, eu notava que as pessoas de um modo geral tinham certa bronca. notava isso quando entrava num restaurante com walter clark. notava que havia uma certa pinimba, provocação, entende? foi coisa de uma época que depois também passou. mas que tinha, tinha.

pas - e você atribui a quê?

ja - olha [ri], tudo que faz sucesso tem isso... o sucesso da globo foi muito rápido e muito grande. um homem como walter, que era muito jovem, 39 anos, e muito elegante, se apresentava muito bem, despertava certa inveja.

pas - o que passa historicamente é a ligação da globo com a ditadura, que causaria uma birra em caras mais combativos.

ja - isso não deu para fazer notar, porque as vezes que lidei com política na tv globo posso dizer a você que fui muito bem-sucedido. eu tive que fazer... não tinha que fazer, mas fui eu que fiz a aproximação do [leonel] brizola com o doutor roberto [marinho]. brizola não conhecia ninguém no rio, não me conhecia, eu jogava no clube dos 30 por 30, que tinha uma pessoa muito ligada ao brizola, que jogava pelada comigo. brizola ia ser eleito governador, eu não sabia como eles tinham tanta confiança assim, porque as pesquisas diziam que tinha dois candidatos, um com 48%, outro com 52%, miro [teixeira] e sandra [cavalcanti], e brizola com 3%. e o cara dizia que ia ser barbada.

pas - e estava certo, no final das contas.

ja - estava certo. teve até aquele negócio da proconsult, que a bem da verdade, a globo não tinha nada a ver. mas teve também esse troço, que depois... política e religião são duas coisas que complicam sempre a vida do cidadão.

pas - você dizer isso me inibe, mas eu ia perguntar onde você se situa politicamente.

[continua...]

Quinta-feira, Abril 16, 2009

joão araújo 3: a globo

pa - você é tido como um cara da música mais comercial, bem-sucedida, mas tinha uma afinidade com os "malditos" também, não?

ja - tinha, sim. gostava muito de fazer poesias que ninguém lia. ah, a música [em parceria com tom zé] se chamava "distância". [mudamos de sala, e joão mostra um quadro encostado à parede, uma fotomontagem em que presidentes de gravadoras brasileiras aparecem vestidos de super-heróis.] essa foi a primeira versão da associação brasileira dos produtores de discos, um gaiato fez isso aí e nos presenteou. estamos aqui beto [boaventura], da warner; o locutor que vos fala; roberto [augusto], presidente da sony; manolo [diaz], presidente da associação; roberto souto, que era advogado da som livre e também da associação; luiz oscar niemeyer, que era presidente da bmg; aluísio reis, que era da odeon [emi]; e marcelo castello branco, da universal.

pas - tem dois navios-piratas no fundo da foto [risos].

ja - é. isso aqui [olha para a grande tv ligada à sua frente] eu botei porque me dá uma sensação fantástica. às vezes me sinto muito rico, e, segundos depois, muito pobre, porque vai mudando ali, ó [aponta para as cotações da bolsa que correm no canto inferior da tela]. quando você pensa que está rico, está pobre, o dólar agora foi a r$ 2,27.

pas - você fica prestando atenção?

ja - não. deixo para ter alguma coisa, faz parte da decoração.

pas - voltando à rge...

ja - é, tom zé eu contratei quando estava na rge de são paulo. foi meu companheiro de noites "indormidas" pela labuta. era muito louco tom zé. mas é uma pessoa fantástica. esses baianos todos devem muito a ele.

pas - aí entramos na som livre.

ja - aí tinhamos essa renovação de contrato das trilhas de novelas que não foi feita. o armando nogueira, que não tinha nada a ver com disco, era um companheiro que eu tinha nas peladas de fim-de-semana que fazíamos num clubezinho chamado 30 por 30. eram 30 sócios com mais de 30 anos. eu tinha 24, fui o único que entrou com menos de 30. entre os outros estavam armando nogueira, cacá diegues, luiz carlos barreto, tiago de melo, o cônsul da áustria no gol [ri], paulo mendes campos, e outros mais. um dia, acabada a pelada, armando, que já estava na globo havia algum tempo, perguntou: "você não mexe com negócio de música?". "mexo, você sabe." disse que lá estava ouvindo umas conversas nas reuniões de diretoria de que eles estavam querendo fazer uma gravadora, e estavam em busca de um profissional do disco. "tudo bem, armando, mas o que eu faço? não posso me oferecer, estou numa empresa que me dá tudo." conheço walter clark desde o tempo que a gente pegava bonde para trabalhar, ele na interamericana, e eu na minha copacabana discos. conheço, mas depois que fez a globo, o sucesso todo, via ele muito pouco. só sei que na semana seguinte me liga a secretária de walter clark, me convidando em nome dele pra um almoço no museu de arte moderna, almoço esse a que ele não compareceu [ri]. o apelido dele era vento, porque estava aqui, ali, ali, ali. mas foram dois homens de confiança dele, e quando terminou o almoço eu tinha concordado em fazer. só pedi um tempo necessário pra poder ter uma conversa legal com o pessoal da rge. sempre saí bem dos lugares em que trabalhei. saí de lá numa fase muito ruim, era novembro de 1969.

pas - essa data você lembrou.

ja - é, eu sei a data do meu aniversário e do dia em que entrei na globo. porque eu tinha que fazer uma novela para março, se não me engano, que era "o cafona", uma coisa muito em cima. e a globo estava em obras, o prédio da rua von martius estava cheio de poeira. eu não tinha nem lugar onde ficar, ficava um pouco na sala de cada um, uma confusão. então eu esperava acabar a hora do almoço e ia para o único lugar que se mantinha em ordem, que era o restaurante depois do almoço. contratei uma secretária que trazia a máquina olivetti da casa dela e ia pegando pessoas aleatórias para gravar.

nessa época a indústria do disco tomou conhecimento de que a tv globo ia fazer disco, e ia fazer não no mercado convencional. eu não achava razoável nem inteligente pegar um canhão como a tv globo e trabalhar em cima do mercado convencional, que era muito pequeno. tinha 800 pontos de venda. eu queria trabalhar para um mercado não-convencional: supermercados, lojas de conveniência, farmácias, armazéns, livrarias, tudo que não fosse convencional.

pas - isso foi concretizado?

ja - eu queria fazer isso. mas nessa altura existiam perto de 20 gravadoras no mercado. elas ficaram ameaçadas com o negócio da som livre, se reuniram e fizeram um negócio exatamente igual ao que a som livre fazer. fizeram uma firma chamada discofita que nada mais era que trabalhar no mercado não-convencional. foram para as supermercados, contrataram gôndolas. e foi um insucesso enorme, porque tudo que é para você fazer em termos de supermercado é medido por segundos. se você põe uma gôndola e ela não te fatura xis, não vende tantos produtos por hora, você procura outro produto imediatamente. como os 20 fabricantes eram os 20 acionistas da Ddscofita, todos os 20 queriam ter discos nas gôndolas. não pensaram em fazer sucesso com a firma, e sim queriam ver seus discos lá dentro. conclusão: foi uma confusão danada, ninguém vendeu coisa nenhuma e tiveram que acabar com o negócio. e já não dava mais tempo para eu esperar, eu já tinha entrado no mercado. me antecipei e entrei com uma parceria da odeon.

pas - as gravadoras fizeram essa empresa unicamente para fazer frente à gravadora da globo?

ja - é, eles queriam ocupar um território que sabiam que seria ocupado pela marca da tv globo.

pas - quer dizer, a Ggobo era jovem, mas já era poderosa o suficiente para causar esse impacto nas gravadoras?

ja - a globo tinha quatro ou cinco anos. mas em 1969 a globo já era a globo, já tinha o "jornal nacional". o que fez a globo foi pegar um jornal e botar em edição nacional. que pela primeira vez havia um jornal que ia ao ar ao mesmo tempo no brasil todo. em jornalismo inovaram completamente, e nos outros aspectos foi questão de competência mesmo.

pas - qual era o tamanho da ambição da globo ao criar a som livre?

ja - a globo era um "repórter esso urgente", ela não podia parar. não podia ficar dependendo de gravadoras para ter suas trilhas sonoras. não pensou em nada mais, nada menos que nas trilhas sonoras.

pas - talvez sem a dimensão exata de que isso viraria uma mina de ouro?

ja - isso nunca, com certeza não tinha. era exclusivamente pras trilhas. claro que eu, sendo de disco, entrando lá e vendo as possibilidades que a televisão tinha, comecei a criar linhas de programação que nunca passaram pelas cabeças deles, fazer discos de montagem. teve uma época que fiz um pequeno cast lá. a dificuldade de ter artistas era tão grande que fiz um cast com rita lee, cazuza, djavan, jorge Ben. cheguei a ter um cast importante lá. mas que acabei, porque as ideias de uma gravadora não se coadunavam com uma empresa de artista, de cast artístico.

pas - durou bastante a fase com elenco.

ja - não foi tanto, não. quatro, cinco anos.

pas - o que são discos de montagem?

ja - é disco que você não grava, que usa fonogramas de outros, ou seus mesmos.

pas - ...que é o que são hoje as trilhas de novelas.

ja - é. novela não foi feita para usar música dos outros, não, foi feita pra ter música nova. mas aí muita gente começou a dar palpites, autores, diretores. era difícil fazer uma trilha, porque nem sempre você podia ao mesmo tempo a todas atender às pessoas internas da própria globo.

pas - essa relação acabou virando um jogo pesado de poder, não?

ja - era complicado, pelo seguinte. quando fundei a som livre, procurei estabelecer uma relação que fosse do tipo agência-cliente. ou seja, a som livre seria a agência e a globo, o cliente, um cliente espetacular, preferencial e único. mas acontece que todo brasileiro acha que conhece tudo, não tinha uma pessoa que não chegasse pra mim e dissesse como fazer uma trilha de novela, dos mais modestos aos mais respeitados. era impossível agradar todo mundo, mas a gente foi levando mesmo assim. se as trilhas de início fossem um insucesso seria muito difícil continuar com a som livre.

pas - como a gôndola do supermercado?

ja - é, seria muito difícil, porque ninguém ia aguentar a pressão. mas as trilhas da globo começaram a vender muito, e eu inaugurei as trilhas internacionais na segunda fase da novela. explodiram, vendiam quatro vezes mais que a trilha nacionl, o que era totalmente atípico, porque a venda do produto nacional representa 85% do mercado brasileiro. as trilhas internacionais eram exceção.

pas - alguns dos primeiros artistas da época que a som livre teve elenco eram experimentais, transgressores, como luiz melodia, jards macalé, alceu valença. a gravadora da globo, no início, era audaciosa em termos artísticos.

ja - era. eu tinha muita vontade de que ela fosse uma mola propulsora de novos talentos, que desse oportunidade a quem tivesse talento. como ela tinha um poder de fogo muito grande, poderia promover melhor. mas nunca é a realidade, a realidade era diferente. pra mim às vezes era muito mais difícil colocar um artista da som livre na globo que numa outra televisão. é ou não é? [dirige-se à assessora, que confirma: "até hoje".] tinha um negócio difícil de passar por cima, que uma coisa chamada a resistência passiva. você não diz não, mas quando você cobra do cara, "você vai botar rita lee no ar no domingo no "fntástico?". "não tem problema, maravilha, que ótimo." você fica lá o programa todo e nada. e isso com o poder do boni lá dentro, todo mundo lá dentro tinha um cagaço terrível dele.

pas - você inclusive?

ja - é uma coisa que eu até faço questão de dizer, só consegui implantar a som livre com muita ajuda do boni, assim mesmo furando as coisas como furavam. eu contava para ele no dia seguinte, ele ficava louco, só faltava comer o fígado do cara. mas o cara dizia "eu adorei, mas imagina, o caminhão virou, a lata bateu". enfim, isso vocês [para as assessoras] estão cansadas de ouvir, é resistência passiva.

pas - era como se fosse uma rivalidade de globo com globo?

ja - tinha um problema sério, quando uma empresa cresce muito em curto espaço de tempo... hoje a globo é bastante organizada, mas na época, por mais que se fizesse era impossível. a globo tinha um problema que a gente chamava de canal 9. depois das 9 da noite o pessoal da própria globo entrava lá para gravar, fazer copiagem, tape, pra competir às vezes com a própria globo. isso foi problema de uma época, já deve estar diferente.

pas - quando mariozinho rocha passou a ter a importância que teve?

ja - quando comecei a sentir o problema das trilhas, eu disse para o boni que só íamos encontrar solução para os problemas se colocássemos uma pessoa específica para controlar a novela, não lotada dentro da televisão ou da som livre, mas que fique lá no... como é o nome do parque de produção? projac. sugeri mariozinho rocha, que já era conhecido. a tv globo pagava metade do salário dele e eu pagava a outra metade, e assim começou mariozinho lá. agora como está não sei, mas era assim.

pas - e mariozinho ficou poderosíssimo.

ja - é, porque passou a ser muito procurado pelas gravadoras. houve uma época que todo mundo achava que só podia fazer sucesso se entrasse numa novela, o que não era verdade, porque, puxa, muitos estouraram fora da novela.

pas - mas sem dúvida era um instrumento a mais, realmente poderoso. se entrasse na novela, seria ouvida por milhões de pessoas.

ja - é. a trilha nunca foi o que eu idealmente pensava em fazer. talvez fosse um sonho, sonhar não custa nada, mas não consegui botar na realidade esse sonho de ter uma trilha. eu achava que você não pode pegar músicas antigas e botar numa novela nova. têm que ser temas novos, mesmo que seja pra tratar de músicas antigas. se quiser regravar francisco alves, tudo bem, entra um cara e grava, mas sempre procurando botar alguma coisa nova. sei que é difícil encontrar música, a globo tem seis novelas por ano. no começo tivemos o sonho de ter trilhas compostas por duplas. chegamos a fazer roberto e erasmo, marcos valle e o irmão paulo, raul seixas e paulo coelho, toquinho e vinicius. aí parou, não teve como continuar. era para dorival caymmi fazer a trilha interia de "gabriela".

pas - tinha jabá nessas negociações?

[continua...]